Ernesto Araújo: conheça o ministro das citações em verso e prosa

Dono de conhecimento amplo, o chefe do Itamaraty se vale, em seus discursos, dos mais diversos personagens, obras e frases históricas

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência BrasilFabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

atualizado 05/01/2019 9:28

O novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é um diplomata cuja oratória dificilmente passaria despercebida em ocasiões onde a palavra lhe é concedida. Dono de um conhecimento amplo, ele se vale, em seus discursos, dos mais diversos personagens, obras e frases históricas.

Foi o que demonstrou em sua cerimônia de posse como chanceler, na última quarta-feira (2/1). Em uma longa fala (mais de 32 minutos), citou de Renato Russo a Don Quixote, de Miguel de Cervantes; de Tarcísio Meira à série espanhola de TV Ministerio del Tiempo; de Raul Seixas ao Barão do Rio Branco.

Ufanista e patriota
“A isso me proponho aqui. Fazer do Itamaraty um instrumento de amor pelo nosso país e pelo nosso povo” –, disse. Crítico feroz do globalismo, Araújo ainda jogou dúvidas sobre a plateia ao citar o padre José de Anchieta em sua versão para o Tupi Guarani da oração Ave Maria e encerrar o discurso com a expressão “Anuê, Jaci!”, que é exatamente Ave Maria na língua Tupi.

O motivo das dúvidas? “Anuê” é uma palavra bem próxima de “Anauê”, termo também em Tupi que significa “você é meu irmão” e era o grito de guerra do movimento de extrema-direita dos Integralistas, que se opuseram ao governo Getúlio Vargas na década de 1930.

O Metrópoles colheu alguns trechos do discurso de posse de Ernesto Araújo e fez um raio-X sobre a colcha de citações utilizadas pelo novo chanceler. Confira:

Gnosis, Aletheia e Eleuthería
Logo no início da sua fala, Araújo surpreendeu a todos ao colocar, em grego, o versículo bíblico João 8:23 – “Gnosesthe ten aletheian kai he aletheia eleutherosei humas” ou Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Segundo o chanceler, “essa convicção íntima e profunda animou o presidente Jair Bolsonaro na luta extraordinária que ele travou e está travando para reconquistar o Brasil e devolver o Brasil aos brasileiros”.

Araújo explicou que o versículo traz três conceitos cruciais para o pensamento humano, para a vida humana e para o nosso momento histórico: Gnosis, que é o conhecimento; Aletheia, a verdade; e Eleuthería, a liberdade. O versículo descreve o sermão de Jesus Cristo no Monte das Oliveiras.

Renato Russo x São Paulo

Reprodução
Renato Russo

 

Para ilustrar a explicação do que é “Gnosis”, o diplomata citou Renato Russo (sic), segundo ele, um brasiliense ilustre (na verdade, Russo era do Rio de Janeiro): “É só o amor, é só o amor que conhece o que é verdade”. A frase explicaria o que é “Gnosis”: o conhecimento no sentido de uma experiência mais íntima. “A verdade é essencial, mas não pode ser ensinada nem aprendida. Mas se é assim, como é que nós vamos conhecer a verdade, que é a chave de isso tudo?”, questionou.

“É só o amor que explica o Brasil. O amor, o amor e a coragem que do amor decorre, conduziram os nossos ancestrais a formarem esta nação imensa e complexa”, completou. Nesse ponto, Araújo cometeu uma pequena gafe. A frase citada é um trecho da carta do apóstolo São Paulo aos Coríntios, que foi musicado por Russo na faixa Monte Castelo, do álbum As Quatro Estações, da Legião Urbana.

Ave Maria e Anuê Jaci
Ave Maria ou Anuê Jaci
Anuê Jaci, etinisemba-ê
Indê irú manunhê
Yara rekô embobeuká tupirã
Rekôku ya subí
Embobeuká tupirabê
Nge membyrá Tupã

Ernesto Araújo citou a oração Ave Maria traduzida pera o Tupi-Guarani (reprodução acima) pelo padre jesuíta José de Anchieta. “E aqui precisamos da Aletheia. O desesquecimento. Precisamos libertar a nossa memória histórica da qual essa modesta oração faz parte”, ressaltou. “Para libertar o Itamaraty através da verdade, precisamos recuperar o papel do Itamaraty como guardião da continuidade da memória brasileira”, discursou o chanceler.

Apesar de ter nascido na Ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, na Espanha, o padre José de Anchieta ficou conhecido como o “apóstolo do Brasil” por sua atuação no país. Chegou às terras brasileiras em julho de 1553, com outros seis jesuítas e, em menos de um ano, dominava o tupi com perfeição. Ao longo dos 43 anos que viveu no Brasil, participou da fundação de escolas, cidades e igrejas. Saiba mais aqui.

Dom Pedro I, Debret, Pedro Américo e Tarcísio Meira

O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo

 

Nessa parte do discurso, Ernesto Araújo falou de suas memórias, especificamente da emoção que sentiu quando, ainda terceiro secretário do Itamaraty, vislumbrou os quadros Coroação de Dom Pedro I, do pintor francês Jean Baptiste-Debret, e o Grito do Ipiranga, do brasileiro Pedro Américo. “Imediatamente, eu, que tinha 22 anos, me lembrei de quando tinha 5 anos e assisti, maravilhado, no cinema ao filme Independência ou Morte, com Tarcísio Meira e Glória Menezes. E pensei: então tudo isso existe, né? Tudo isso existe… e tudo isso é aqui!”, relembrou.

Tarcísio Pereira de Magalhães Sobrinho, mais conhecido como Tarcísio Meira (São Paulo, 5 de outubro de 1935) é um ator brasileiro. Marcou época com seus personagens, no cinema, no teatro e na televisão. Durante décadas eternizou na TV mocinhos e vilões que marcaram a teledramaturgia nacional. Casado com a atriz Glória Menezes, formam um dos casamentos mais duradouros da televisão brasileira. Os dois são pais do também ator Tarcísio Filho.

Ministerio del Tiempo
Nesse trecho, Ernesto Araújo comparou o Itamaraty à série de TV espanhola Ministerio del Tiempo. “Eu diria que o Itamaraty, em certo sentido, não é somente um Ministério das Relações Exteriores, é também um Ministério do Tempo. Como talvez nenhuma outra instituição no Brasil, nós temos a responsabilidade de proteger e regar esse tronco histórico multissecular por onde corre a seiva da nacionalidade”, disse.

A série acompanha as aventuras de um grupo de agentes que têm a responsabilidade de preservar a história da Espanha tal como ela ocorreu. No período em que a rainha Isabel, a Católica, governava a Espanha foi criada uma organização cujo objetivo era evitar que empresas ou indivíduos alterassem o passado para benefício próprio. A organização era formada por agentes representantes de diferentes períodos, que viajavam a qualquer época onde a história foi alterada.

Barão do Rio Branco

Reprodução
Araújo ainda citou a expressão em latim Ubique Patriae Memor, extraída do ex-libris do Barão do Rio Branco (foto acima) e que significa “Em qualquer lugar, terei sempre a Pátria em minha lembrança”. “Normalmente se traduz como ‘em todos os lugares, lembrar-se da pátria’. Aqui, os senhores  perdoarão a um professor de latim frustrado, que nunca fui, antes de querer ser diplomata, para dizer que está errada essa tradução. Memor é uma primeira pessoa. Então, na verdade é: ‘em todos os lugares, eu me lembro da pátria’”, ensinou.

José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco (RJ, 20 de abril de 1845 – RJ, 10 de fevereiro de 1912), foi um advogado, diplomata, geógrafo, nobre e historiador brasileiro. Bacharel em direito pela Faculdade de Direito do Recife (PE), o Barão do Rio Branco ingressou nos estudos jurídicos ainda em 1862, na Faculdade de Direito de São Paulo, porém transferiu-se no último ano para a instituição pernambucana. Filho de José Maria da Silva Paranhos, visconde do Rio Branco, ele é o patrono da diplomacia brasileira e uma das figuras mais importantes da história do Brasil.

Dom Sebastião
Aqui, Ernesto Araújo lembra o rei de Portugal e Algarves dom Sebastião, que morreu com apenas 24 anos de idade. “Pensem, por exemplo, em dom Sebastião. Quando preparava sua expedição à África, algum nobre da corte portuguesa perguntou a dom Sebastião se ele não tinha medo. Dom Sebastião olhou e perguntou: ‘De que cor é o medo?’. O mito ensina a não ter medo, e é curioso que o mito é o mito e, no momento atual, o mito é o apelido carinhoso que o povo brasileiro deu ao presidente Bolsonaro”, observou.

Dom Sebastião (Lisboa, 20 de janeiro de 1554 – Alcácer-Quibir, 4 de agosto de 1578), apelidado de “o Desejado” e “o Adormecido”, foi o rei de Portugal e Algarves de 1557 até sua morte. Era filho de João Manuel, príncipe de Portugal, e Joana da Áustria. Ele ascendeu ao trono aos 3 anos de idade, após a morte de seu avô, o rei João III, com uma regência sendo instaurada durante sua minoridade, liderada primeiro por sua avó, a rainha Catarina da Áustria, e depois por seu tio-avô, o cardeal Henrique de Portugal.

Marcel Proust
“Marcel Proust dizia que os nossos sentimentos vão se atrofiando por medo, por medo de sofrer. E eu acho que a nossa política externa vem se atrofiando por medo de ser criticada. Então, não tenham medo de sofrer e não tenham medo de ser criticados”, discursou o chanceler.

Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust foi um importante escritor e poeta francês. Nasceu na cidade de Paris, em 10 de julho de 1871, e faleceu na mesma cidade, em 18 de novembro de 1922. A obra mais conhecida de Proust é Em busca do tempo perdido, um conjunto de sete novelas, considerado uma das grandes obras da literatura do século 20. É apontado como um dos grandes escritores românticos do começo do mesmo século.

Clarice Lispector e Clarice Meireles

Reprodução
Clarice Lispector

 

O chanceler recorreu à escritora ucraniana naturalizada brasileira Clarice Lispector (foto acima) e à poetisa, professora, jornalista e pintora brasileira Cecília Meireles para falar sobre nacionalismo: “A nossa evidente tendência nacionalista não provém de nenhuma vontade de isolamento: ela é movimento, sobretudo, de autoconhecimento.” E prosseguiu: “Autoconhecimento, a verdade. Aletheia, a verdade que liberta. Então, para não ter medo, vamos ler menos Foreign Affairs e mais Clarice Lispector ou Cecília Meireles”.

Raul Seixas

Raul Seixas

 

O novo chefe da diplomacia brasileira também mencionou o cantor, compositor e dito “pai do rock” brasileiro Raul Seixas, durante a cerimônia que o conduziu ao comando do MRE. “Vamos escutar menos a CNN e mais Raul Seixas”, conclamou Ernesto Araújo. “O Itamaraty existe para o Brasil, não existe para a ordem global”. Nesse trecho do discurso, além do músico baiano Raul Seixas, o diplomata mencionou diretamente a música Ouro de Tolo, do artista. “Por que Raul Seixas? Não fiquemos no trono de um apartamento ou de uma embaixada com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.”

Dom Quixote de la Mancha
“Mas o Brasil volta a dizer o que sente, e a sentir o que é”, disse. “Vocês podem dizer que isso é ‘quixotesco’, talvez, e as pessoas nos chamam, às vezes, ou me chamam de tantas coisas bem piores, que então ‘quixotesco’, só para dizer que talvez já estaria bom, ‘quixotesco’ já seria um bom adjetivo”, afirmou.

Dom Quixote de la Mancha (imagem abaixo) é considerada a grande criação do escritor espanhol Miguel de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas europeias modernas e é tido por muitos como o expoente máximo da literatura espanhola.

“Mas isso me lembra algo que escutei do professor Olavo de Carvalho, um homem que, após o presidente Jair Bolsonaro, talvez seja o grande responsável pela imensa transformação que o Brasil está vivendo”, comentou Araújo sobre o escritor e polemista Olavo de Carvalho.

Don Quixote de la Mancha

 

“Certa vez eu ouvi o professor Olavo referir-se a um trecho do Dom Quixote de Cervantes, que é talvez o ponto central dessa obra. É quando dom Quixote está caído à beira do caminho, em algum lugar de la Mancha, em espécie de delírio, e começa a conversar com os passantes como se fossem o marquês disso, o conde daquilo, ou algum herói de cavalaria, enquanto fala das suas próprias façanhas. Lá pelas tantas, ele se refere a um camponês que está passando como marquês de Mântua. E o camponês para e olha para ele e diz: ‘Peraí. Eu sei quem é o senhor. Eu não sou marquês de Mântua, eu sou seu vizinho, Pedro Alfonso. E o senhor não é dom Quixote, o senhor é um bom homem, que conheço há muitos anos, o senhor é Alonso Quijano.’ E dom Quixote para um segundo, pensa, e responde: “Yo sé quién soy.’”

Na sequência, o chanceler explicou:

Algumas pessoas dirão que o Brasil não é isso tudo que o presidente Bolsonaro acredita e que eu também acredito. Dirão que o Brasil não tem capacidade de influir nos destinos do mundo, de defender os valores maiores da humanidade, que devemos apenas exportar produtos e atrair investimentos, pois afinal somos um bom país, quieto e pacífico, mas não temos poder para nada. Dirão que o Brasil é apenas Alonso Quijano. Mas o Brasil responderá: Eu sei quem eu sou

Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores

Coração Satânico

Robert de Niro e Mickey Rourke

 

Nesse trecho, podemos relembrar a frase “Eu sei quem eu sou” de umas das máximas gregas mais famosas, a inscrição do oráculo de Apolo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. É também o clímax do filme Coração Satânico (1987), de Alan Parker, estrelado por Mickey Rourke e Robert de Niro (foto acima). Quando o personagem de Rourke, Angel Heart, percebeu que sua alma pertencia ao diabo, interpretado por de Niro, ele repetiu no espelho: “Eu sei quem sou”.

São João
Ernesto Araújo finalizou seu longo discurso citando novamente o apóstolo São João, quando diz “en archê ên ho logos”. “O princípio era o logos. A palavra. O verbo. Archê, a última palavra em grego que eu vou dizer aqui hoje, significa princípio, tanto no sentido de início, quanto no sentido, principalmente, de força estruturante, princípio estruturante. A realidade, pelo menos a realidade humana, está estruturada em torno da linguagem, da palavra, do verbo, portanto do logos.Tudo o que temos, tudo de que precisamos, é a palavra. Ela está aprisionada, mas com amor e com coragem havemos de libertá-la”.

E se despediu: “Anuê Jaci (Ave lua)!”

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