“Celebrar golpe causa cisão dentro das Forças Armadas”, afirma Molon

Ao Metrópoles, líder da oposição na Câmara criticou postura do presidente, que incentivou celebrações dos 55 anos do início da ditadura

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 29/03/2019 8:06

O líder da oposição na Câmara dos Deputados, Alessandro Molon (PSB-RJ), considera que a orientação do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) para que quartéis do país comemorem o dia 31 de março, data do golpe de 1964, causa constrangimento aos próprios militares. Em entrevista ao Metrópoles, o parlamentar, que é advogado e lecionou história para o ensino fundamental, declarou: a medida divide o país e provoca cisão inclusive dentro das Forças Armadas.

“É evidente que uma parte muito significativa das Forças Armas está constrangida com esta divisão. Elas não queriam fazer isso [comemorar a data]. A maioria absoluta dos militares quer olhar para frente. Sabe que esse foi um momento muito conturbado e difícil do Brasil e que não deve ser comemorado”, disse o líder oposicionista.

Para Molon, grande parte dos militares “não quer ficar lembrando” o golpe. “É uma página que a gente quer virar e não comemorar, não celebrar. Isso causa uma divisão, uma cisão, mesmo dentro das Forças Armadas”, considerou o deputado.

Confira trecho da entrevista de Alessandro Molon ao Metrópoles: 

 

Além de determinar a comemoração da data, o presidente da República declarou não ter havido ditadura e, depois, comparou o período a uma “briga de casal, que deve ser superada“. Bolsonaro mandou compor um texto para ser lido em todos os quarteis no próximo dia 31.

A chamada Ordem do Dia foi divulgada pelo Ministério da Defesa na quarta-feira (27/3) e é assinada pelo titular da pasta, general Fernando Azevedo e Silva, e pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. O texto não classifica o regime militar como uma ditadura resultante de um golpe de Estado.

“As Forças Armadas participam da história da nossa gente, sempre alinhadas com as suas legítimas aspirações. O 31 de março de 1964 foi um episódio simbólico dessa identificação”, diz trecho da Ordem do Dia. Segundo o texto, parte da sociedade brasileira da época apoiou a tomada de poder pelos militares.

“As famílias no Brasil estavam alarmadas e colocaram-se em marcha. Diante de um cenário de graves convulsões, foi interrompida a escalada em direção ao totalitarismo. As Forças Armadas, atendendo ao clamor da ampla maioria da população e da imprensa brasileira, assumiram o papel de estabilização daquele processo”, segue o texto.

Parentes de mortos e desaparecidos no período militar e entidades como o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União repudiaram a orientação de Bolsonaro para que os militares promovessem as “devidas comemorações” do dia.

Comportamento inadequado
Para o líder da oposição na Câmara, Jair Bolsonaro tem tido um comportamento totalmente inadequado ao cargo que ocupa.

“O presidente da República não entendeu que o papel de um presidente da República é unir o país, não dividi-lo. Ele continua com a lógica da campanha eleitoral, com a lógica que o fez crescer, e não consegue entender que aquilo que talvez tenha funcionado para levá-lo à Presidência não serve para que ele seja um bom presidente da República”, ressaltou o deputado federal.

Segundo Molon, o chefe do Executivo federal “não conseguiu mudar a chave. Ele continua com a chave da campanha. Tenta apagar a fogueira com gasolina”.

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