Análise: provocado por Dino, Bolsonaro desiste de “rasgar dinheiro”

Depois de impor condições para receber dinheiro do G7, presidente escuta governadores e retira exigência de pedido de desculpas de Macron

Foto: Marcos Corrêa/PRFoto: Marcos Corrêa/PR

atualizado 28/08/2019 14:38

Em raro gesto de recuo, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) aparentemente voltou atrás na decisão de condicionar a um pedido de desculpas do presidente da França, Emmanuel Macron, o recebimento de US$ 20 milhões do G7 para proteção da Amazônia. A mudança de postura do capitão foi anunciada pelo porta-voz Otávio Rêgo Barros no início da noite desta terça-feira (27/08/2019).

Pela manhã, durante reunião com os governadores da região Amazônica, Bolsonaro ouviu uma recomendação óbvia do maranhense Flávio Dino (PCdoB). “Não podemos rasgar dinheiro. Isso não é sensato”, afirmou o comunista, referindo-se a verbas estrangeiras para o Fundo Amazônia, também questionadas pelo presidente do Brasil.

No contexto do encontro, as palavras de Dino soaram como uma provocação. Em seguidas indiretas, o governador do Maranhão falou em “moderação” e “diálogo”, referindo-se ao confronto verbal com Macron. No mesmo sentido, reclamou de “extremismo” e da “retórica” na pendenga internacional.

Embora o governador do Pará, Helber Barbalho (MDB), tenha se pronunciado na mesma direção, a participação do maranhense se reveste de mais significado pela rivalidade com Bolsonaro. Em julho, durante café da manhã com jornalistas, uma frase captada pelos microfones revelou o sentimento do presidente em relação a Dino: “Dos governadores ‘de Paraíba’, o pior é o do Maranhão”.

O episódio teve grande repercussão na imprensa e nas redes sociais. Provocou, também, imediata reação dos governadores nordestinos pelo tom pejorativo empregado na expressão “de Paraíba”. Também ficou mais evidente a má vontade ideológica com o governador do PCdoB, fato de certa forma previsível pelo discurso anticomunista de Bolsonaro.

De positivo, deve-se ressaltar que o recuo do presidente significa uma rendição ao bom senso. A recusa em receber dinheiro internacional destinado à preservação da Amazônia afronta a realidade de dificuldades financeiras, em particular, para essa finalidade.

Importante se levar em conta a estupidez que seria dispensar recursos externos em momento de escassez orçamentária do governo. Por isso, a expressão “rasgar dinheiro” ganhou especial relevância na reunião desta terça-feira.

A realidade econômica também desaconselha bravatas como as de Bolsonaro. Nas últimas semanas, o dólar subiu e chegou aos níveis de setembro do ano passado, auge da campanha eleitoral.

Quando se olha para a situação internacional, as preocupações fazem ainda mais sentido. Na coluna desta terça-feira no jornal O Globo, a jornalista Míriam Leitão destacou a avaliação do economista José Roberto Mendonça de Barros sobre o quadro externo.

Na avaliação de Barros, a economia mundial emite sinais de que pode entrar em um período de desaceleração e, até, de recessão. Nessas circunstâncias, de fato, não parece razoável jogar dinheiro fora. Por isso, para usar uma expressão militar, pode-se dizer que Bolsonaro capitulou.

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