Perigo: “curandeiros” vendem até ozônio na web contra coronavírus

Em busca de dinheiro fácil, comerciantes do país tentam explorar o medo da população com a epidemia mundial

atualizado 16/03/2020 11:02

Chá prescrito por Nossa Senhora do Carmo, vitamina que evita contaminação e até gerador de ozônio que mata o coronavírus. O pânico causado pela nova doença que já matou mais de 2, 7 mil pessoas ao redor do mundo e tem dois casos confirmados no Brasil mobiliza especialistas em torno da cura, mas também atrai aproveitadores. Em busca de dinheiro fácil, eles espalham desinformação e tentam explorar o medo alheio.

Em sites de compra e venda de produtos, por exemplo, é fácil achar complexos vitamínicos sendo ofertados como a solução no combate à doença. O termo “coronavírus”, inclusive, é colocado justamente para os anúncios aparecerem nas pesquisas por itens como máscaras.

Um dos anúncios promete tratar de problemas de disfunção erétil causados pelo Covid-19, nome oficial da nova enfermidade surgida na China. A descrição diz que o item “possui 21 vitaminas e minerais”, oferecendo “imunidade ao máximo” e “proteção contra o coronavírus”,  uma vez que “especialistas afirmam que o vírus se aloja em organismos com imunidade baixa e carente de nutrientes”.

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Para o chefe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Santa Lúcia, Werciley Junior, os anúncios não passam de tentativas de lucrar enganando clientes. “Não há nenhum estudo que comprove a eficácia dessas prevenções. As pessoas vão muito mais pelo senso comum”, explica.

Já a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, lembra que se o problema fosse simples assim, já estaria resolvido. “Se fosse só vitamina, já teriam distribuído e pronto. É realmente muito grave isso, chega a ser criminoso”, afirma.

Outro produto que chama atenção é utilizado para a higienização de ar-condicionado. Na descrição, o vendedor diz: “Se previna desse vírus ‘coronavírus’ com a máquina geradora de ozônio”.

Werciley Junior afirma, no entanto, que o produto não é eficaz contra o vírus. “É necessário que seja uma grande carga e, mesmo assim, não é 100% garantido. É igual algumas pessoas acharem que qualquer luz ultravioleta consegue desinfetar um local. Não é assim, aí as pessoas acabam queimando elas mesmas ou outras coisas e não sabem o motivo”, exemplifica.

Promessa de curas milagrosas

A busca por cliques e visualizações em plataformas de vídeo também são alvo dos aproveitadores. Centenas de gravações exploram a fé alheia para conseguir destaque.

Em um dos vídeos de informação falsa mais compartilhados, está o de uma mulher que afirma ter sonhado com o advento do coronavírus em novembro.

Na gravação, a mulher diz que Nossa Senhora do Carmo apareceu durante o sono dela avisando de uma doença que mataria muitas pessoas e que não achariam a cura. O único antídoto seria um chá que a santa teria passado durante o sonho.

No fim, é passado o modo de preparo da bebida com detalhes. Entre os ingredientes, estão seis folhas de abacate, 200 gramas de folha de hortelã e 1 litro de água filtrada ou potável.

Já um homem que se denomina Cigano Iago também diz que previu a chegada do coronavírus. Ele conta que no final de 2019 avisou que a entidade Omulu, responsável pelas doenças contagiosas, se manifestaria trazendo uma nova moléstia.

Apesar disso, as entidades também teriam se manifestado ao cigano com a cura. Segundo Iago, chá de orégano e chá de boldo seriam suficientes para evitar uma contaminação.

Todas essas informações, contudo, são rebatidas por especialistas.

O que há de concreto

De acordo com o Ministério da Saúde, até o momento não há nenhum medicamento específico, infusão, óleo essencial ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus. Segundo a pasta, as recomendações de prevenção são de higiene básica, como realizar lavagem frequente das mãos e cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir.

A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações lembra que, de fato, pessoas com hábitos saudáveis têm menos chances de contrair a doença, mas não é nada 100% garantido. “Ter uma saúde boa evita a contaminação, tanto que a maior parte daqueles que desenvolvem a enfermidade de maneira grave tem mais de 60 anos, por exemplo. A maioria das pessoas só tem sintomas pequenos”, lembra Isabella Ballalai.

O principal perigo, diz a especialista, é com as mãos. “Pegou um ônibus, usou o computador… São coisas que as pessoas acabam não prestando atenção e que valem passar um álcool em gel depois, por exemplo, mas não é algo para se desesperar”, pondera.

Conforme conta o chefe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Santa Lúcia, foram feitos alguns testes no exterior com remédios de outras doenças, mas ainda em fase inicial. “Experimentaram com lopinavir [usado em tratamento contra HIV] e cloroquina [indicado para doenças reumáticas]. Este segundo teve respostas positivas”, aponta Werciley Junior.

Mesmo assim, Werciley diz, o necessário até o momento é, no máximo, utilizar uma máscara caso haja a manifestação de sintomas. “Quem não está doente não tem necessidade. Só se alguém for se aproximar que deve colocar a máscara e luvas”, conta.

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Ministério da Saúde tenta combater as fake news

Em busca de garantir informação de qualidade à população, o Ministério da Saúde criou, em 2018, o Saúde sem Fake News, que disponibilizou um número de WhatsApp para envio de mensagens da população. O contato tem o intuito de receber fotos, vídeos ou textos com muita circulação nas redes sociais e apurar a fim de responder oficialmente se as informações são verdade ou mentira.

De acordo com a pasta, o serviço recebeu, desde a criação, 24.095 mensagens dos mais variados temas. No último mês, no entanto, 90% de todas as dúvidas foram exclusivamente com relação ao coronavírus.

As dúvidas mais recorrentes enviadas são sobre vitaminas, chás e remédios caseiros que “curam” a doença, teorias da conspiração de que o vírus foi criado em laboratório ou que surgiu dos animais, vídeos e fotos de pessoas caindo nas ruas da China e se há casos confirmados no Brasil.

Qualquer pessoa que tiver dúvidas pode enviar mensagens à equipe do Ministério da Saúde pelo número (61) 99289-4640 e confirmar se uma informação é verdadeira ou não.

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