Câmeras, queda de luz e briga judicial: o quebra-cabeça do caso Daiane
Investigação técnica reconstruiu disputa comercial, conhecimento do prédio e indícios que levaram à prisão de síndico do condomínio
atualizado
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Caldas Novas (GO) — Um quebra-cabeça técnico montado pela Polícia Civil de Goiás elucidou o desaparecimento da corretora Daiane dos Santos, encontrada morta após 42 dias em um matagal. A investigação descobriu embate comercial e intrigas entre a vítima e o síndico de condomínio Cléber Rosa de Oliveira, que foi preso pelo crime.
Os detalhes apresentados pelos integrantes da força-tarefa, na manhã dessa quarta-feira (28/1), revelam que o conflito entre Daiane e Cléber já durava mais de um ano e envolvia uma sucessão de embates, registros de ocorrências e processos judiciais movidos por ambas as partes.
Em entrevista exclusiva ao Metrópoles, o delegado André Luiz Barbosa, do Grupo de Investigação de Homicídios de Caldas Novas (GIH) e responsável pela coordenação da força-tarefa, explicou que a complexidade da apuração estava justamente no fato de se tratar, inicialmente, de um desaparecimento.
Sem corpo, sem cena de crime delimitada e sem testemunhas diretas, a investigação precisou se apoiar em comportamento, imagens, rotina do prédio e histórico de conflitos para estabelecer a autoria.
“Era um caso de desaparecimento. A gente não tinha corpo para estabelecer esse marco inicial. Então precisávamos de uma investigação madura, robusta e técnica para provar a autoria sem essa materialidade”, afirmou.
O lapso de 8 minutos
O primeiro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi um intervalo de tempo extremamente curto dentro do prédio.
As imagens mostraram que Daiane entra no subsolo às 19h. Oito minutos depois, às 19h08, outra moradora acessa o mesmo local. “Foi o primeiro marco temporal. O que aconteceu com Daiane aconteceu em um lapso de oito minutos”, explicou o delegado.
A constatação levou a outra conclusão: quem praticou o crime conhecia profundamente a estrutura do condomínio. “A pessoa que praticou esse crime precisava conhecer os pontos cegos, os locais de saída, o funcionamento do prédio”, disse o delegado. O subsolo, onde ela desapareceu, é justamente uma área sem cobertura do sistema de câmeras.
O padrão de energia como comportamento recorrente
Outro elemento que ganhou relevância foi um comportamento já conhecido do síndico dentro do condomínio. Testemunhas relataram que ele costumava desligar o padrão de energia do prédio em situações de conflito para impor a vontade dele.
O delegado citou um episódio anterior em que Cléber, impedido de participar de uma reunião condominial, teria desligado a energia para impedir que o encontro ocorresse. “Conseguimos, por meio de testemunhas, identificar que ele já tinha utilizado esse artifício antes. Isso foi importante para demonstrar um padrão de comportamento.”
No dia do desaparecimento de Daiane, o desligamento do padrão de energia volta a ocorrer, reforçando para os investigadores a repetição do modus operandi.
As imagens do carro e a contradição
As imagens externas do prédio também foram decisivas. Às 19h36, o carro de Cléber é captado saindo em direção a uma região de mata, percurso que não fazia parte da rotina dele. O trajeto total dura 48 minutos, quando normalmente levaria cerca de 15. Em depoimento, ele negou ter ido àquela região.
“Esse carro é visto indo até o possível local onde o corpo foi desovado. Depois ele volta para a cidade em um tempo incompatível com o trajeto normal”, relatou o delegado ao Metrópoles.
A contradição entre a imagem e o depoimento se tornou um dos pilares da investigação. Após o cumprimento do mandado de prisão e ao ser confrontado com as provas, Cléber mudou a postura. “Após tomar conhecimento das provas, ele passa a ter postura colaborativa e indica exatamente onde estava o corpo.”
A disputa comercial que antecede o crime
Para a Polícia Civil, a motivação do crime está diretamente ligada a uma disputa comercial iniciada em novembro de 2024. Até então, Cléber acumulava a função de síndico e também administrava os seis apartamentos da família de Daiane destinados à locação por temporada.
Quando a família retira essa administração e entrega à corretora, começam as desavenças. “As desavenças começam quando a administração dos apartamentos da família da Daiane deixa de ser feita pelo síndico e passa para ela”, explicou Barbosa.
A partir daí, processos civis, criminais e registros de ocorrências passam a se acumular, com acusações mútuas. São pelo menos 12, mas o delegado não soube dizer a quantidade correta.
O marco decisivo
O ponto decisivo dessa escalada ocorre em outubro de 2025, quando o síndico convoca uma assembleia com o objetivo de proibir Daiane de acessar as áreas comuns do prédio e atuar como corretora no local. Ele teria maioria entre os presentes para aprovar a medida.
Paralelamente, Daiane ingressa na Justiça pedindo o direito de circular e trabalhar no condomínio. Em 11 de dezembro de 2025, seis dias antes do desaparecimento, a decisão transita em julgado garantindo a ela acesso pleno e reconhecendo abusos por parte da administração. “Isso é um marco temporal importante para entender o que aconteceu no dia 17”, afirmou o delegado.
Outro aspecto destacado pela investigação foi o profundo conhecimento que Cléber tinha do prédio. Ele havia participado da associação que viabilizou a conclusão da obra do condomínio e conhecia detalhadamente os pontos cegos do sistema de monitoramento, as rotas de circulação e as saídas. “O crime acontece exatamente em um ponto cego do monitoramento”, ressaltou Barbosa.
A participação do filho e a tentativa de ocultação
A prisão do filho do síndico também está ligada à sequência de provas técnicas. Dois dias após a perícia no carro de Cléber, o filho, que é engenheiro de sistemas, foi flagrado comprando um celular novo. A polícia comprovou que o aparelho foi entregue ao pai poucas horas depois da perícia.
Para os investigadores, isso indica tentativa de ocultar provas e possível descarte do telefone anterior. “A prisão dele foi pedida por obstrução e ocultação de provas”, explicou. Mais tarde, ainda nessa quarta-feira, o pai indagou por que o filho foi preso. De acordo com o suspeito, o herdeiro nada havia feito para estar ali.
Autoria fechada antes da materialidade
Segundo o delegado, quando o corpo foi localizado, a autoria já estava tecnicamente definida. “O apontamento do local do corpo apenas complementa o que já estava demonstrado no inquérito.”
Para a Polícia Civil, a soma de indícios técnicos, comportamentais, judiciais e circunstanciais permitiu reconstruir o caminho do crime mesmo antes da materialidade física aparecer. Ele deverá responder pelos crimes de homicídio e ocultação de cadáver. O filho deve responder pelos mesmos crimes que o pai.





















