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Brasil

Lula evitou tocar em alguns temas mais espinhosos na ligação com Trump

Objetivo de Lula com a conversa, que foi solicitado por ele, era obter aval do presidente dos EUA para retomar negociações sobre tarifaço

21/08/2026 19:48
Andrew Harnik/Getty Images
Lula evitou tocar em alguns temas mais espinhosos na ligação com Trump

Alguns assuntos considerados controversos na relação entre Brasil e Estados Unidos não foram tratados no telefonema entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, realizado na manhã desta sexta-feira (21/8).

Fontes do governo brasileiro avaliaram a conversa como muito positiva, cordial e convergente, sem menções a temas de divergência entre os dois presidentes.

No geral, a conversa, que durou 1h20, concentrou-se em três temas: o tarifaço sobre produtos brasileiros, o combate ao crime organizado e conflitos globais. Neste último ponto, foram discutidas as situações da Ucrânia e do Oriente Médio, incluindo a guerra envolvendo o Irã.

Temas como a concessão do agrément para o novo embaixador dos EUA no Brasil, Daniel Perez, não foram discutidos. A autorização é uma exigência diplomática para que um embaixador possa assumir oficialmente a representação do país. No caso de Perez, o pedido está sob análise do governo brasileiro, que não estabeleceu prazo para uma resposta. Ele foi nomeado por Trump em 1º de junho.

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O recente cancelamento do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti, chefe da representação brasileira nos EUA, também não foi discutido.

A medida foi adotada em retaliação à demora do governo brasileiro em conceder o aval a Perez e elevou as tensões entre os dois países. Segundo a gestão Trump, o visto de Viotti só será restabelecido caso a diplomacia de Lula aceite Perez como embaixador dos EUA no Brasil. Sem o visto, ela continua trabalhando no país, mas fica impedida de retornar caso deixe o território norte-americano.

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O tema dos dois funcionários dos EUA barrados de entrar no Brasil tampouco apareceu na conversa. No fim de julho, o Itamaraty negou o visto a dois oficiais norte-americanos que pretendiam fazer uma missão para questionar o sistema eleitoral brasileiro, a poucos meses da corrida presidencial.

Lula também não citou diretamente as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) na conversa. Segundo nota do Planalto, porém, o presidente “argumentou que grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre as populações mais carentes, mas não se confundem com organizações terroristas“.

O petista afirmou ainda que o Brasil tem “instrumentos para enfrentar essas organizações sem precisar de classificação especial para designá-las”.

Em resposta, Trump se dispôs a reforçar a cooperação bilateral e indicou que mobilizaria funcionários do alto escalão da Casa Branca para dar seguimento às discussões nessa área.

Eleição do Brasil foi citada

Como mostrou o Metrópoles, a eleição presidencial no Brasil neste ano foi comentada durante a reunião. Segundo interlocutores do governo brasileiro, o tema foi abordado no início do telefonema, por iniciativa de Trump. De acordo com os relatos, o norte-americano fez uma referência superficial ao processo eleitoral, para saber como anda a preparação do Brasil para o pleito de outubro.

Em resposta, Lula afirmou que o processo eleitoral tem transcorrido de forma tranquila, que há diversos candidatos na disputa pela Presidência da República e que o sistema eleitoral brasileiro é seguro. O presidente disse ainda que está tudo em ordem no país. Trump não teria feito comentários adicionais sobre o assunto.

Na avaliação de auxiliares de Lula, a troca de impressões sobre a eleição brasileira não passou de um “intercâmbio cordial” entre os dois líderes, em um nível considerado adequado diante da proximidade do pleito.

A gestão Lula teme que o governo dos EUA tente interferir direta ou indiretamente no processo eleitoral brasileiro, e buscar distensionar a relação entre os dois presidentes até lá.

Volta das negociações sobre tarifaço

O objetivo do presidente Lula com a conversa, que foi solicitada por ele, era obter o aval do republicano para a retomada das negociações sobre o tarifaço imposto pela Casa Branca a produtos brasileiros exportados  — o que foi alcançado. 

A nota divulgada pelo governo brasileiro após o telefonema afirma que Trump concordou com a retomada das negociações. “O presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível”.

Logo após a ligação, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Os dois combinaram de realizar uma reunião por videoconferência na próxima semana para discutir o tarifaço.

Segundo relatos, durante a conversa Trump também fez elogios à trajetória política de Lula. Ao final da ligação, o líder norte-americano acenou ao brasileiro e reforçou que os dois mantêm um canal direto de comunicação. O presidente dos EUA teria dito ainda que Lula pode acioná-lo quando considerar necessário.