Vorcaro negociou com Justus, fechou com BRB e recebeu 170% a mais
Enquanto discutia revender investimento em empresa de Roberto Justus ao empresário, Vorcaro conseguiu negócio bem melhor com o BRB

Quando se tornou público que cerca de 30% das cotas da Steelcorp, de Roberto Justus, pertenciam ao Banco Master e haviam sido repassadas ao BRB, o empresário veio a público para dizer que nunca soube que o banqueiro era o investidor por trás de um fundo parceiro.
Mensagens reveladas agora, porém, mostram não só que Justus tinha amplo conhecimento de que Daniel era investidor a partir de outro fundo como que o banqueiro era o sócio majoritário da empresa de estruturas modulares para a construção civil, com duas participações ativas que somavam mais de 50%.
Os diálogos também mostram que Justus, que sempre se apresentou como dono e CEO da Steelcorp, tratava diretamente com Vorcaro e não com o gestor dos fundos (a Reag) sobre uma operação complexa para retomar uma das posições por R$ 130 milhões.
O banqueiro paralelamente detinha um lote igual de cotas da Steelcorp com o BRB e conseguiu fechar com o Banco de Brasília um negócio muito mais interessante. Recebeu R$ 350 milhões à vista – 170% mais – por outro lote equivalente a 30% da participação societária.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesJustus diz que esse investimento – o primeiro recebido pela Steelcorp – foi feito pela Reag e que nunca soube de envolvimento de Vorcaro.
Os investimentos de Vorcaro na empresa de Justus
A Reag primeiro aportou R$ 130 milhões na Steelcorp a partir do fundo SH FIPM, em 2023. Depois, fez nova operação, por igual porcentagem e montante, desta vez utilizando como veículo o Dynamic FIPM. Na segunda, Justus reconhece agora, após um vazamento de mensagens, que tinha conhecimento do envolvimento de Vorcaro.
Em meados de 2025, Justus passou a procurar o banqueiro de forma insistente, como mostra troca de mensagens obtida pela Polícia Federal e revelada pelo site Poder360. Queria convencê-lo a rever os termos do segundo investimento. “Nunca na minha vida fiquei tão decepcionado com alguém. O que me custa me receber por uma horinha para resolvermos aquele assunto“, escreveu Justus.
“Se essa dívida continuar em meu balanço, vou ter que pedir uma RJ (recuperação judicial) e daí você vai perder todo o investimento”, continuou o empresário, deixando claro saber quem era o investidor da Steelcorp.
Vorcaro cedeu e perguntou como era a ideia de Justus para a recompra. “Assumo o pagamento dos 130MM (R$ 130 milhões) em prazo máximo de cinco anos“, explicou, detalhando em seguida as garantias. O banqueiro pediu um fluxo de pagamento garantido para o fundo, e Justus retrucou: “Mas o cotista do fundo não é você?”, reforçando o conhecimento.
Em 4 de setembro, conforme as mensagens publicadas pelo Poder360, veio a proposta de Justus para a “recompra” das ações de Vorcaro: pagamentos escalonados em quatro anos e os 50% restantes no quinto ano. À noite, sem resposta, o empresário melhorou a oferta, com pagamento em quatro anos. Vorcaro topou, mas Justus voltou atrás e fez novas exigências, o que irritou o banqueiro.
“Para começar, eu não quero sair. Acredito no negócio e, mais do que isso, acredito em você. Estou topando sair sem qualquer prêmio e num prazo longuíssimo, para atender e ajudar, só por isso. Mas eu não ter ao menos o valor que aportei garantido ao longo do tempo não faz o menor sentido”, justificou. O problema era que Vorcaro havia colocado R$ 130 milhões na empresa, e Justus aceitava devolver o dinheiro a longo prazo, sem garantias suficientes e sem qualquer ganho ao banqueiro.
BRB pagou 170% a mais e à vista
Enquanto essas conversas aconteciam, o Master estava com a corda no pescoço, corria risco de fechar as portas a qualquer momento e precisava entregar ao BRB ativos com alguma qualidade em troca de carteiras podres vendidas nos meses antecedentes. Vorcaro já tinha inclusive oferecido a participação na Steelcorp ao BRB, por R$ 500 milhões.
Mensagens interceptadas pela Polícia Federal, já reveladas pela coluna, mostram que Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, montou sua oferta topando pagar R$ 250 milhões pelas cotas na Steelcorp. Em 2 de outubro, há exatamente um ano, o BRB formalizou a aquisição do fundo SH FIPM, onde estavam as cotas da empresa de Justus, por R$ 350 milhões, apesar de parecer de risco destacar que o banco sequer tinha recebido comprovação de que o Master era beneficiário do fundo.
Documentação juntada pela defesa do advogado Daniel Monteiro no âmbito de um dos inquéritos que correm no STF detalham que os documentos da transação desejada por Justus chegaram a ser produzidos: o distrato do aporte do Dynamic, a sessão de crédito decorrente de seis notas comerciais da Steelcorp para Justus e o contrato de garantia de pagamento por parte do empresário, em um negócio de R$ 130 milhões.
De acordo com o empresário, o contrato foi fechado e a participação foi recomprada.
Conversas desmente Justus
A relação entre Vorcaro e Justus começou a ser desnudada em janeiro deste ano, quando a Folha publicou que o SH, o fundo da Reag que tinha 30% na Steelcorp, era controlado pelo Master. Ao jornal, o empresário disse que só descobriu que tinha o banco de Vorcaro como sócio após a deflagração da Operação Carbono Oculto.
Depois, foi às redes sociais para dizer que não tinha como saber que Vorcaro estava por trás do fundo da Reag que viabilizou a Steelcorp. “Nosso sócio era o fundo de investimentos, e a empresa investida não se relacionada com esses cotistas. Quem faz o papel de sócio é o gestor do fundo. O que a lei não permite é saber quem são os cotistas desse tipo de fundo durante a sua existência”, afirmou, sem explicar por que não perguntou quem eram os cotistas antes de aceitar o investimento, diligência comum no mercado.
No vídeo, ele detalha que, após a Carbono Oculto, entrou com notificação judicial exigindo saber quem eram os cotistas e quem seria o novo gestor que iria gerenciar o fundo. “Foi aí que nós descobrimos”, ele afirmou. A Carbono Oculto aconteceu no dia 28 de agosto de 2025. Nesse dia, Justus já insistia em ser recebido por Vorcaro.
Procurado na sexta-feira pela coluna, Justus só se posicionou após a publicação da reportagem:
“Roberto Justus negociou um investimento na SteelCorp em 2024, por meio de uma dívida que poderia ser convertida em ações. No entanto, as negociações se arrastaram até 2025, quando Justus decidiu encerrar o acordo. As mensagens divulgadas mostram que Justus estava negociando a conversão do investimento e a recompra da participação resultante. Contudo, a conversão não foi realizada, e Daniel Vorcaro não se tornou sócio da SteelCorp. A menção à recuperação judicial foi usada como uma estratégia para resolver o impasse, e não como um anúncio de que um pedido seria apresentado. As conversas mostram que o objetivo era encerrar qualquer relação empresarial, o que acabou acontecendo, e preservar a SteelCorp. Vale ressaltar que Roberto Justus sentia-se desconfortável durante o processo e resolveu o tema antes da liquidação do banco e da posterior prisão de Vorcaro.”




