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Brasília, Curitiba e São Bernardo do Campo (enviados especiais) – Às 22h30 deste sábado (7/4), teve início o cumprimento da sentença do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, quando ele deu entrada na Superintendência da Polícia Federal de Curitiba (PR). Presidente de honra e fundador do Partido dos Trabalhadores, ele foi condenado a 12 anos e 1 mês de reclusão no caso do triplex no Guarujá (SP), pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Acompanhado de dois advogados, o ex-presidente seguiu de helicóptero do Aeroporto Afonso Pena, na região metropolitana de Curitiba e a 18km da capital, para a sede dos policiais federais no estado. Agentes aguardavam, na pista, o pouso do jato do Comando Aéreo Operacional da corporação, que conduziu o petista do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, para o terminal internacional paranaense.

Na superintendência regional da PF em Curitiba, o primeiro ex-presidente da República preso desde a redemocratização do país será instalado em um alojamento adaptado, com 15m², que conta com chuveiro com água quente, TV e cama, no lugar de beliche. O endereço é o mesmo, embora em ala separada, onde já está detido o ex-ministro Antonio Palocci e no qual será recebido o ex-dirigente da empreiteira OAS Léo Pinheiro, condenado com Lula no caso do triplex.

Apoiadores e opositores de Lula ocuparam as imediações da sede da Polícia Federal curitibana. Quando o ex-presidente chegou, havia cerca de 400 pessoas, separadas por um cordão de isolamento montado por militares dos batalhões de Choque e de Trânsito. No lado a favor do petista, ocorreu um ato ecumênico. No grupo anti-Lula, manifestantes estouraram champanhe e fogos de artifício assim que as hélices do helicóptero com o político foram desligadas. Ouviram-se palavras de ordem como “Lula ladrão, seu lugar é na prisão”.

Pouco antes de a aeronave com o líder petista pousar, uma ordem judicial determinou aos manifestantes deixarem as imediações do local de detenção do ex-presidente. A decisão veda novos protestos na área, embora o comando do PT local negocie a permanência de seus seguidores por ali, em apoio ao líder do Partido dos Trabalhadores. Também em solidariedade ao político e para acompanhar sua apresentação, pouco antes de o próprio Lula chegar ao aeroporto curitibano, desembarcaram no terminal os senadores Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, e Lindbergh Farias – eles seguiram de São Paulo para o Paraná em voo fretado. Antes de ocupar a sala a ele reservada, Luiz Inácio Lula da Silva teve um momento a sós com seus advogados.

Veja como foi a cobertura ao vivo do Metrópoles: 

Confira imagens da movimentação em Curitiba: 

A transferência do ex-presidente de São Paulo para Curitiba foi concluída quase três horas e meia após Lula deixar a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), onde ele se refugiou desde a decretação da prisão, na quinta-feira (5/4), pelo juiz federal Sérgio Moro. Ainda em São Paulo, ele passou pela Superintendência da PF do estado, onde foi submetido a exame de corpo de delito. De acordo com nota divulgada pela assessoria da corporação, o procedimento foi realizado por peritos do Instituto Médico Legal de São Paulo e teria durado cerca de 25 minutos.

A apresentação do político aos federais foi um processo complicado. Ele só conseguiu ir ao encontro dos agentes responsáveis por sua detenção na segunda tentativa. Por volta das 17h, quando quis deixar a sede do sindicato onde iniciou suas trajetórias política e sindical, ficou 10 minutos dentro de um carro e precisou voltar ao prédio, pois um grupo mais radical de militantes cercou o lugar e não permitiu a passagem do veículo.

Por volta das 18h40, Lula caminhou por dentro do pátio do sindicato e foi a pé até um veículo da Polícia Federal estacionado na lateral do prédio, cumprindo o acordo com a corporação de que iria se apresentar espontaneamente. De lá, o comboio federal foi direto para a Superintendência da PF, para o exame obrigatório antes do encarceramento de todo preso.

Choro e tumulto
Houve empurra-empurra quando Lula deixou o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (foto em destaque), onde se entrincheirou desde a noite de quinta-feira (5), data na qual o juiz federal Sérgio Moro deu ordem para início imediato da pena do ex-presidente. Militantes brigaram, hostilizaram jornalistas e xingaram a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, que mais cedo alertou sobre os problemas jurídicos caso Lula não cumprisse o acordo com a PF.

O ex-presidente foi condenado em segunda instância a 12 anos e 1 mês de cadeia, por corrupção e lavagem de dinheiro, no caso do triplex no Guarujá (SP). Quando, enfim, o carro da Polícia Federal conseguiu partir da rua da entidade sindical, deixou para trás, além da confusão, uma multidão de simpatizantes do líder petista em prantos.

Confira imagens abaixo: 

Daniel Ferreira/Metrópoles

 

O impasse sobre a entrega de Lula durou toda a tarde. Centenas de militantes deram os braços e formaram um cordão humano com o intuito de impedir que o ex-presidente saísse do edifício. Por volta das 17h50, a senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, subiu ao carro de som em frente ao sindicato, em São Bernardo do Campo (SP), para informar à militância as consequências caso Lula não se entregasse. Ele seria responsabilizado e poderia ter a detenção preventiva decretada.

Ao assinar a ordem de prisão de Lula, Sérgio Moro concedeu vantagens ao ex-presidente caso ele se entregasse voluntariamente, como não ser preso com algemas e ficar em cela especial. Para isso, entretanto, teria que se apresentar até as 17h de sexta (6/4).

A expectativa dos petistas era que Lula ficasse no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC até segunda (9), mas a estratégia não deu certo. A PF só concordou com que ele participasse de uma celebração em memória da ex-primeira-dama Marisa Letícia, na manhã de hoje. O ex-presidente aproveitou para falar à multidão que cercava o sindicato. Por volta das 13h, ele disse que se entregaria para provar sua inocência. “Entro de cabeça erguida. Saio de peito estufado”, gritou ao falar da prisão.

Ao discursar em público pela primeira vez após mais de 40 horas entrincheirado no sindicato, o petista fugiu do tradicional vermelho e escolheu uma camiseta azul-marinho e calça jeans. Ao lado de lideranças do Partido dos Trabalhadores, como a ex-presidente Dilma Rousseff, o líder esquerdista fez questão de relembrar o legado educacional dos seus oito anos de governo. “Eu tenho o profundo orgulho de ser o primeiro presidente da República sem diploma universitário, mas fui o presidente que mais construí universidades”.

Alternando brincadeiras e falas carregadas de raiva, Lula chegou a propor um desafio a Moro e, embora discordasse do encarceramento, disse não estar “acima da Justiça”. “Queria fazer um debate com o Moro sobre a denúncia, para que ele me mostrasse as provas”. Ele garantiu, ainda, que não vai resistir à ordem de prisão: “Eu vou cumprir o mandado”.

Veja imagens do ato com a militância em São Bernardo do Campo: 

 

A condenação
Na ação do triplex, ele foi condenado pela primeira vez em julho de 2017. Segundo a acusação, o petista recebeu propina da construtora OAS na forma de um apartamento na cidade de Guarujá, no litoral paulista. Em troca, teria beneficiado a empreiteira em contratos com a Petrobras. Por isso, foi denunciado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Ele nega as acusações.

Em primeira instância, o juiz Sérgio Moro acatou os argumentos do Ministério Público Federal (MPF) e condenou o ex-líder sindical a 9 anos e 6 meses de prisão. Tanto a defesa de Lula quanto o MPF recorreram da decisão e, em 24 de janeiro deste ano, a condenação foi mantida pelos desembargadores da 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4). Além de conservarem a sentença, os magistrados aumentaram a pena para 12 anos e 1 mês de reclusão.

A partir de então, teve início uma corrida contra o tempo do petista para evitar a prisão, já que a jurisprudência atual permite a execução da pena após condenação em segunda instância. Além de embargos de declaração no TRF-4, os advogados de Lula também apresentaram pedidos de habeas corpus ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal. O objetivo era impedir o encarceramento até que o mérito do processo fosse julgado nas Cortes Superiores.

Nenhuma das tentativas, no entanto, teve sucesso. Com o fim das alternativas judiciais, a prisão foi decretada. Lula iniciará o cumprimento da pena no prédio da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR). Uma sala no último andar do edifício foi preparada para receber o petista. O cômodo tem 3 metros por 5 metros e banheiro particular com privada e chuveiro quente.

Arte/Metrópoles