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Um dos maiores casos de abuso sexual da história do Brasil tem 48 estupros, 37 mulheres como vítimas e apenas um culpado: o ex-médico Roger Abdelmassih. Ele foi condenado a 181 anos de prisão pelos crimes, mas cumpriu menos de três em regime fechado. Passou mais tempo foragido – quatro anos – do que na cadeia.

Nos últimos meses, o Brasil assistiu a reviravoltas no caso. O estuprador teve o local de prisão modificado oito vezes. A prisão domiciliar de Abdelmassih foi expedida pela Justiça em 21 de junho de 2017, com a justificativa de que ele estaria com a saúde debilitada.

O Ministério Público de São Paulo pediu que o ex-médico retornasse ao regime fechado, mas o Tribunal de Justiça local o autorizou a usar tornozeleira eletrônica em um hospital e, depois, em casa.

O estado de São Paulo, porém, rompeu o contrato com a empresa que fornecia os equipamentos e Abdelmassih deveria voltar à cadeia. O Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que o detento não poderia ser prejudicado por um problema da Administração Pública e manteve a prisão domiciliar.

Agora, Abdelmassih cumpre pena no conforto de seu apartamento, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Membros do Ministério Público e especialistas em direito criticaram publicamente a decisão da Corte.

“Há vários outros detentos com problemas de saúde gravíssimos e eles estão na prisão, pois não têm dinheiro para contratar os melhores advogados do Brasil nem um médico que produza um laudo de 150 páginas para confirmar doenças”, critica o advogado Eduardo Sampaio, que atua em favor das vítimas.

Mulheres que viveram o horror nas mãos do médico voltaram a temer pela própria segurança. “Nós vivemos presas e ele está livre. Ele ainda é um homem rico e influente, não sabemos o que pode fazer. É um trauma que nunca passa”, diz Vana Lopes (imagem em destaque), uma das pacientes violentadas.

Do sonho ao pesadelo
Roger Abdelmassih era conhecido como “médico das estrelas” graças ao trabalho realizado em sua clínica de reprodução humana, a mais famosa do país, onde atendia celebridades e mulheres da alta sociedade. Ele estuprou as pacientes enquanto estavam dopadas para receber inseminação artificial.

“Fechei os olhos sonhando em ser mãe e acordei no meio do ato, com ele em cima de mim. Ele destruiu famílias inteiras”, relata Vana, que contraiu uma bactéria durante o estupro e perdeu os embriões aplicados.

Juntas, essas mulheres criaram o grupo Vítimas Unidas, para oferecer suporte psicológico e legal às estupradas por Abdelmassih. Elas passaram a ser referência para outras vítimas de violência e hoje reúnem mais de 130 mil pessoas que buscam por justiça em diversos casos, como Sônia Samúdio, a mãe de Elisa Samúdio, assassinada pelo ex-goleiro Bruno em um crime de feminicídio.

O Brasil registra um estupro a cada 11 minutos, segundo o 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A soltura de Roger Adbelmassih passa uma mensagem muito poderosa sobre impunidade.

Mulheres que sofreram estupro nos procuram em busca de ajuda. Como vou convencê-las a denunciar? Se nós, que somos de classe média, com poder aquisitivo, não conseguimos fazer Justiça, o que vai pensar uma mulher pobre que apanha do marido?"

Parados no tempo
Quando as denúncias vieram à tona, as vítimas tiveram de vencer várias barreiras: o medo da exposição era um dos maiores. “Fomos muito julgadas. Quando vejo notícias sobre casos de estupro atuais, mais de 10 anos depois do que vivemos, sinto que estamos parados no tempo. Ainda culpam a vítima. O que é preciso para provar um estupro e colocar o culpado na cadeia?”, pergunta Vana.


Regalias
Nos últimos 11 anos, Adbelmassih tocou a vida normalmente. Casou-se, teve um par de gêmeos com a nova mulher e, foragido da Justiça, morava numa mansão no Paraguai, onde tinha até motorista particular. Ser um fora da lei nunca o impediu de desfrutar de sua riqueza.

Enquanto isso, Crystiane Cardoso, uma de suas vítimas, jamais recebeu a indenização de R$ 400 mil à qual tem direito pelos valores que investiu no tratamento de fertilidade jamais concretizado. “É uma humilhação ver as notícias sobre a vida boa que ele leva enquanto eu investi tudo que tinha nesse sonho e só recebi dor e sofrimento de volta”, afirma Crystiane.

Os bens de Adbelmassih estão todos em nome de outras pessoas, então a Justiça não consegue executar as dívidas que ele tem"
Crystiane Cardoso

Os danos vão muito além do dinheiro. As vítimas sofrem com estresse pós-traumático. Algumas têm síndrome do pânico e muitas tentaram suicídio, como Vana, hoje com 57 anos. Há 1 ano, ela conseguiu se relacionar amorosamente com alguém pela primeira vez após o estupro, que ocorreu há 23 anos. Casou-se e mudou para Portugal, de onde acompanha notícias sobre o caso.

Outras não tiveram a mesma alegria e vivem sob constante vigilância para não tirarem a própria vida. “No dia que uma delas cometer suicídio, as mãos do STF estarão sujas de sangue”, afirma Maria do Carmo, presidente do Vítimas Unidas.

Além de lidar com trauma da violência física, algumas dessas mulheres convivem diariamente com lembrança do abuso: elas fizeram exame de DNA e constataram que os filhos não são compatíveis biologicamente com os pais. Elas engravidaram durante o estupro ou com inseminação do sêmen do próprio médico.

Não tenho dúvida de que muitos filhos são dele. Essas mães olham para vestígios de seu estuprador"
Maria Do Carmo Santos, doutora em psicologia e presidente do Vítimas Unidas

Uma das mulheres que engravidou de Abdelmassih teve um casal de gêmeos. “Ela olha para eles e se lembra de seu algoz nos gestos, nos traços. Não entrou na Justiça para não expor os filhos, que estão começando a adolescência. Mas esse é o “segredo sujo” de muitas famílias. Todos sabem que os filhos são dele, mas ninguém fala a respeito”, afirma Maria do Carmo.

O Metrópoles procurou a defesa de Roger Adbelmassih, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

 

 

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