Em reunião com ministros, Bolsonaro diz: “Se eu cair, todo mundo cai”

Segundo o presidente, os integrantes do governo precisam se expôr e apoiá-lo. Ele ainda chamou o teste de coronavírus de "babaquice"

atualizado 22/05/2020 23:21

O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), afirmou, em vídeo da reunião ministerial, que se ele sofrer impeachment, todos os integrantes do Executivo serão afetados. “Se eu cair, todo mundo cai”, declarou.

“Acordem para a política e se exponham, afinal de contas o governo é um só. E se eu cair, cai todo mundo. Agora vamo ca […] se tiver que cair um dia, vamos cair lutando, uma bandeira justa. Não por uma babaquice de exame a antivírus, pô”, falou o chefe do Executivo.

Mais cedo, o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu liberar a divulgação do vídeo em que Bolsonaro conversa com ministros. Segundo o ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, nessa reunião o presidente teria demonstrado a intenção de interferir na Polícia Federal.

O presidente chegou a pedir para o decano não liberar a íntegra do vídeo: “Só peço: não divulga a fita toda”, disse Bolsonaro, na véspera da decisão de Celso de Mello. “Tem questões reservadas, tem particularidades ali. O resto, o que eu falei, tem dois pedacinhos de 15 segundos que eu falei de política externa que não pode divulgar. O resto, divulga”, completou.

Leia a íntegra da reunião ministerial divulgada pelo STF:

Após receber as gravações, nas quais Moro acusa Bolsonaro de pedir interferência na Polícia Federal, o ministro deu prazo de 48h para que Moro, a AGU e a PGR se manifestassem sobre a possibilidade de divulgação integral do conteúdo. Os dois órgãos defenderam apenas a disponibilização de trechos em que Bolsonaro fala sobre a PF.

Contradizendo o presidente da República, na peça enviada ao Supremo, a AGU diz que Bolsonaro mencionou a Polícia Federal e a família dele. Ele teria dito: “Eu não vou esperar f* minha família toda de sacanagem”. O militar da reserva alegou à imprensa que não havia citado nenhum desses termos.

Ainda de acordo com a AGU, o chefe do Executivo afirmou que iria interferir na PF, criticando a falta de transparência da corporação.“O serviço de informação nosso é uma vergonha. Eu não sou informado e não dá para trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir. Ponto final. Não é ameaça, não é extrapolação da minha parte. É uma verdade”, teria dito Bolsonaro.

Ao se manifestar em favor da divulgação, Moro disse que “a reivindicação pela publicidade total da gravação trará à luz inquietantes declarações de tom autoritário inviáveis de permanecerem nas sombras”. O vídeo é tido como uma prova em relação às acusações que o ex-juiz da Lava Jato fez contra Bolsonaro.

Entenda o caso

Moro deixou o Ministério da Justiça no dia 24 de abril acusando o presidente de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. Segundo ele, Bolsonaro não só queria indicar alguém de “sua confiança” tanto para a diretoria-geral da PF quanto para as superintendências estaduais, como também queria “relatórios de inteligência” da corporação.

Entre os elementos que, segundo o ex-juiz, provavam suas alegações, estava justamente o vídeo desta reunião ministerial. As imagens foram entregues pela Advocacia-Geral da União (AGU) ao STF, no âmbito de um inquérito que apura as alegações de Moro, mas permaneciam, até então, em sigilo.

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No último dia 12 de maio, o ex-ministro, seus advogados, representantes do governo federal, da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR), assistiram ao vídeo juntos, em sessão reservada. Mello atendeu ao pedido de Moro, que defendia o levantamento integral do sigilo — a AGU, por outro lado, queria que apenas as falas do presidente na reunião fossem tornadas públicas.

Veja os vídeos da reunião ministerial liberados pelo STF:

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