João de Deus: Justiça de Goiás decreta prisão do médium por abuso

Em todo o país, já são mais de 450 denúncias contra o "líder espiritual" radicado em Abadiânia (GO). O paradeiro dele não foi informado

Filipe Cardoso/Especial para o MetrópolesFilipe Cardoso/Especial para o Metrópoles

atualizado 14/12/2018 15:15

A Justiça acatou pedido do Ministério Público de Goiás (MPGO) e decretou, nesta sexta-feira (14/12), a prisão preventiva do médium João de Deus, acusado de abusar sexualmente de centenas de mulheres, segundo relatos de vítimas que têm se multiplicado nos últimos dias. Segundo uma fonte ouvida pelo Metrópoles, a decisão foi assinada pelo juiz Fernando Augusto Chacha de Rezende, da Vara Criminal de Abadiânia (GO).

A polícia percorre endereços de João de Deus em Abadiânia e Anápolis. Os advogados do médium negociam a rendição do cliente. Eles manifestaram preocupação com a integridade física do “líder espiritual”.

Até o momento, cerca de 450 denúncias foram protocoladas em ministérios públicos de 10 estados e do Distrito Federal. Coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal do Ministério Público de Goiás, Luciano Miranda Meireles avalia que as denúncias de abuso sexual envolvendo o líder espiritual João Teixeira de Faria têm potencial para alcançar uma dimensão maior do que o caso de Roger Abdelmassih.

O ex-médico de reprodução assistida foi condenado a 181 anos de prisão por estupro de pacientes. “Pela movimentação que estamos assistindo, o número de mulheres que se apresentam como vítimas deverá ser maior. Há relatos de abusos ocorridos há 20 anos.”

A Promotoria de Goiás requereu à Justiça a prisão preventiva de João de Deus na quarta (12). O médium alega inocência. Ele ficou famoso internacionalmente por suas sessões. Desde setembro de 2018, porém, várias denúncias de abuso sexual começaram a ser feitas por mulheres que iam às cerimônias conduzidas por João no Centro Dom Inácio de Loyola, onde realiza “cirurgias espirituais”, em Abadiânia, no interior de Goiás.

O médium nasceu na cidade Cachoeira de Goiás em 1942. Quando era adolescente saiu da pequena cidade, pois tinha descoberto seu “dom” como médium. Em 1976, fundou o Centro Dom Inácio de Loyola, onde recebeu várias personalidades, como Bill Clinton, Chico Anysio e Hugo Chávez.

As vítimas que estão denunciando João de Deus são de Goiás, Distrito Federal, Minas, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Pará e Santa Catarina.

Depois que as denúncias vieram à tona, na madrugada de sábado (8), no programa Conversa com Bial, da TV Globo, João de Deus desapareceu. Ele tentou retomar o atendimento na quarta, mas teria passado mal.

Ao descer do Ford Ka branco, por volta das 9h30 daquele dia, o líder espiritual, que é conhecido mundialmente, entrou na sala de orações e falou rapidamente com os seguidores. João de Deus ficou sete minutos na Casa e disse que “não tinha condições de trabalhar”.

“Meus queridos irmãos e minhas queridas irmãs, agradeço a Deus por estar aqui, mas quero cumprir a lei brasileira, pois estou na mão da lei brasileira. O João de Deus ainda está vivo. Que a paz de Deus esteja com todos”, declarou o médium. O encontro foi filmado pelos próprios seguidores.

Assista ao vídeo:

 

Na saída disse: “Sou inocente”. A primeira aparição de João de Deus foi marcada por um grande tumulto. Seguidores chegaram a agredir verbal e fisicamente os jornalistas. “Vocês terão câncer e vão voltar aqui para se curar“, disparou uma mulher.

 

De acordo com voluntários que estavam dentro da sala de orações, o médium refutou as denúncias de abuso e afirmou que a Justiça irá decidir sobre todas as acusações.

Ainda de acordo com testemunhas, João de Deus explicou que não se sentia confortável para fazer cirurgias espirituais e outros atendimentos, agradeceu a oportunidade de estar no local e saiu amparado. Muitos seguidores começaram a chorar.

Nota dos advogados de João de Deus
Em nota, os advogados do médium não falam em rendição. Reclamam que, na última segunda-feira (10/12), estiveram no MP para obter cópias dos depoimentos prestados pelas vítimas e não tiveram acesso, sob argumento de que o processo corre em sigilo.

“Agora, veio o decreto de prisão preventiva e, estranhamente, nos disseram que o processo fora encaminhado de Abadiânia para Goiânia a fim de que o MP tomasse ciência da decisão. Sim, é importante que o órgão acusatório tome ciência, mas ninguém se preocupou em disponibilizar uma simples cópia da decisão para a defesa”, ressaltou.

Ainda no documento, os advogados dizem que  “é inaceitável a utilização de pretextos e artifícios para se impedir o exercício do direito de defesa. Que a autoridade judiciária queira impor a preventiva, embora possamos discordar, é compreensível, mas negar acesso aos autos, chega a ser assombroso”, assinalou a nota assinada Alberto Zacharias Toron e Luisa Moraes Abreu Ferreira.

Veja vídeo do momento da chegada de João de Deus (clique na imagem):

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