Internas em Bangu pedem socorro a famílias por meio de bilhetes durante pandemia

A mãe de uma das mulheres detidas reuniu as correspondências, que se tornaram a única forma de contato com o mundo exterior por 6 meses

atualizado 31/01/2021 8:54

Divulgação

Na tela pequena de uma televisão antiga, a imagem desfocada da repórter trazia notícias sobre o mundo lá fora. Era março de 2020, quando Joana*, privada de liberdade há 4 anos, no presídio de Bangu, no Rio de Janeiro, ouviu a palavra coronavírus pela primeira vez. Um vírus novo e letal havia chegado ao Brasil. 

Logo veio a determinação de suspender as visitas ao cárcere, e os Correios paralisaram seus serviços. As mulheres naquele pavilhão acompanhavam diariamente as imagens de valas coletivas e hospitais lotados com medo de encontrar algum rosto familiar entre os pixels da TV. Elas ficaram seis meses sem poder ver seus parentes e amigos – de março a setembro de 2020. 

Em abril, foi liberada a entrega por familiares de alguns produtos às internas. “Tem os dias de custódia: pode colocar roupa, calcinha, foto. É só uma vez por mês. E tem o dia da sucata, quando pode levar uma bolsa com Nescau, leite, biscoito, e outra com sabão, desinfetante, sabonete, amaciante, cloro, creme de cabelo”, relata Maria*, mãe de Joana.

Em meio aos produtos, pedaços de guardanapo e de papel higiênico viraram bilhetes com pedidos de socorro enviados a familiares. Maria guarda em uma caixa dezenas de recados escritos pela filha e por outras mulheres privadas de liberdade no Complexo Penitenciário de Gericinó, mais conhecido como Bangu. 

Nos bilhetes que enviou, Maria pedia para a filha ter calma, que tudo aquilo iria passar. Mandava notícias do avô e relatos sobre o nascimento de um neto, sobrinho de Joana. Teve também de dar, por carta, notícias tristes, como a morte de uma prima que ajudou a criar Joana. A mulher foi vítima da Covid-19.

Uma parte das internas, porém, não tem ninguém para visitá-las. Sendo assim, mães como Maria “adotam” outras mulheres para poder ajudá-las. “Recebi muitos bilhetes relatando as dificuldades que elas enfrentavam lá dentro. Nas cartas, elas constantemente diziam que a comida servida no presídio estava podre, completamente azeda, e que as meninas estavam sem medicações”, afirma a mãe de Joana.

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Ao levar comida para a filha, Maria passou a fazer quantias extras a fim de dar a outras pessoas, mesmo enfrentando dificuldades financeiras durante a pandemia – ela mantém em casa, na Baixada Fluminense, um restaurante, que ficou sem funcionar. “Uma das meninas me pediu jiló com quiabo, porque já nem lembrava o gosto de comida de casa. Minha filha disse que ela chorou e se ajoelhou quando comeu”, relata.

As famílias também passaram a levar gelo para que as internas pudessem conservar por mais de um dia as marmitas enviadas. “Em um desses dias em que levei as bolsas com alimentos, vi que os guardas descartaram muitas coisas. Isso me deu bastante revolta e tristeza, pois trabalho muito para comprar comida. Ver os alimentos sendo desperdiçados foi um absurdo”, desabafa Maria.

Em uma das cartas recebidas, uma mulher implorava por remédios para bronquite. “Ela precisava com urgência de bombinha de ar, e me pediu para comprar. Os guardas, inicialmente, não deixaram que eu enviasse a medicação, e informaram que teria de ser o próprio familiar para entregar, mas eu insisti sabendo a importância do remédio para uma pessoa com bronquite. Após a minha insistência, os agentes cederam, e fui rapidamente na rua comprar a medicação”, relata a mãe de Joana.

Segundo Maria, internas com doenças crônicas de vários tipos estão sem medicação há meses. “Consegui doações de medicamentos, que incluíam pomadas ginecológicas, antibióticos, entre outros remédios que seriam importantes para as necessidades delas, mas a doação não foi aceita por parte do presídio.”

Outro pedido de ajuda frequente é o apelo por notícias da família. “A maioria dessas mulheres tem filhos, são mães angustiadas sem notícias. Outras queriam apenas saber se os pais e os avós idosos estavam vivos.” Maria tirava fotos do bilhete e enviava a imagem, pelo WhatsApp, ao destinatário. Depois, levava a resposta para a interna por escrito.

Racismo

Nos bilhetes, as internas denunciam abusos e agressões cometidos por agentes penitenciários, que se reportaram a elas como “pretas sujas, macacas e imundas”.

“A minha filha relata muito a discriminação sofrida pelas internas pretas, sendo o tratamento que estas recebem bem pior do que o das outras internas. Certa vez, em uma visita, ela me contou, aos prantos, que as internas sofrem racismo cruel e escancarado. Quase todas são negras e estão ali por causa de problemas com drogas”. 

Dos 657,8 mil registros de presos com informação da cor/raça disponível, 438,7 mil são negros (66,7%), como mostra o 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em outubro de 2020 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 15 anos, a proporção de negros no sistema carcerário cresceu 14%, enquanto a de brancos diminuiu 19%. Hoje, de cada três presos, dois são negros.

Angústia

Há 4 anos, desde que Joana foi presa, Maria vai duas vezes por semana a Bangu. Nunca faltou às visitas, que ocorriam sempre às quartas-feiras e em um sábado ou domingo, das 9h às 16h. Maria é o único suporte financeiro e emocional da filha. Ambas são negras. “Fiquei viúva quando ela tinha 6 anos”, conta.

“Há presas de São Paulo, Minas Gerais, mulheres estrangeiras. A visita é um momento importante, a gente dividia comida, socializava, mas é a presença mesmo que faz toda diferença. Eu preciso olhar nos olhos da minha filha para saber se ela está bem. Foram momentos muito angustiantes”, lembra.

Após seis meses, a visita foi retomada, mas com diversas restrições, e poderia acontecer somente a cada 15 dias. Pessoas idosas e outros integrantes do grupo de risco continuam sem poder receber visitas ou entrar em Bangu, até o momento. “Tem gente que vai completar um ano sem saber da família.”

“Quando a visita retornou, percebi que as internas estavam visualmente bem mais magras. Os horários para as visitas também não têm sido respeitados. Era para ser das 9h às 12h, mas muitas vezes só permitem que entremos por volta de 11h.”

Maria denuncia a falta de atendimento médico e psicológico dentro de Bangu. Também diz ter acionado o Ministério Público para investigar mortes por Covid-19 no presídio. Ela diz compreender as restrições de visitas durante a pandemia e sugere que seja instalado um orelhão ou que se estabeleça alguma forma virtual de contato eventual entre as internas e suas famílias.

“Guardo todos os bilhetes como prova do que essas mulheres passam. Muitas presas já morreram por falta de atendimento e medicação. Quando minha filha sair, quero que ela veja que não me desfiz de nada”, pontua Maria.

Posicionamento

A Secretaria de Administração Penitenciária do RJ (Seap) informou, por meio da Assessoria de Imprensa, que qualquer interno que solicite atendimento médico é encaminhado para o Hospital Hamilton Agostinho de Castro Vieira, no Complexo de Gericinó, onde são prestados os serviços básicos de saúde. Caso o atendimento seja de extrema emergência, o interno é encaminhado para um hospital estadual.

“Informamos, ainda, que 11 unidades prisionais do estado já contam com a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade (PNAISP), com suporte do Governo Federal, Ministério da Saúde, e equipes locais do terceiro setor, colocadas através dos municípios para atuação na saúde dos internos”, diz a nota.

A Secretaria também declarou que o Decreto nº 47.250, publicado em Diário Oficial em 4 de agosto de 2020 pelo governador Cláudio Castro, possibilitou novamente as visitas aos internos nas unidades prisionais desde o dia 10 de setembro. Até o momento, 492 internos testaram positivo para a Covid-19 e 16 vieram a óbito.

A Secretaria de Estado de Saúde, por meio da Superintendência de Assistência Farmacêutica (Safie), informa que o processo de regularização do abastecimento de alguns medicamentos que são repassados à Seap está em fase de finalização.

“A Superintendência de Atenção Psicossocial e Populações em Situação de Vulnerabilidade, da SES, por meio da Política Estadual de Saúde da População Privada de Liberdade, tem atuado junto aos municípios a fim de contribuir para a adesão ao cofinanciamento para a aquisição de componentes farmacêuticos.”

*Nomes fictícios para preservar a segurança das internas.

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