Venezuela, Turquia e Hong Kong. Jornalistas contam como enfrentam a censura

Em evento realizado pelo Senado, jornalistas de diversos países relataram como regimes contrários à liberdade de imprensa chegaram ao poder

atualizado 09/06/2020 17:08

Com o aumento nas restrição à liberdade de imprensa em uma série de países ao redor do globo, jornalistas da Turquia, Venezuela, Hong Kong e Argentina relataram, na última sexta-feira (05/06), como é a convivência com a censura e a perseguição em seus países.

Em evento promovido pelo Interlegis, núcleo de formação continuada do Senado Federal, jornalistas e ativistas desses países contaram como foi o processo de construção dos regimes que limitam a liberdade de imprensa.

Da Turquia, Can Dündar – que precisou se exilar na Alemanha após denunciar planos do governo turco para armar milícias na Síria – classificou a volta de regimes antidemocráticos como “uma doença que se alastra pelo mundo”.

“Fui punido por revelar segredos de Estado. O público tinha o direito de saber o que o governo turco fazia e eu reportei, e por isso fui preso imediatamente”, relembrou.

Assim como Dündar, o jornalista chinês Chang Ping também se exilou na Alemanha. Escritor premiado com o Human Rights Press Awards, de Hong Kong (2014), e com o International Press Freedom Award, do Canadá (2016), ele e sua família foram alvos de ataques após a publicação de notícias que desagradavam o regime comunista chinês.

“A censura usada pelo governo da China é sistêmica e vai além das restrições que vemos. Isso vale para todos os aspectos da vida diária do país. Até uma criança no jardim da infância sabe que não tem o direito de se opor ao partido. Eles dizem que a censura faz com que o país seja mais forte, pintam a censura como algo bom para o povo”, comentou.

Hong Kong 

O cenário em Hong Kong, onde a população enfrenta o governo chinês para evitar uma redução na sua autonomia quanto à China continental, é igualmente de aumento nos casos de censura.

O advogado e ativista pró-democracia Wilson Leung, que participou do evento, relatou que a situação da imprensa local está se aproximando do modelo chinês. As limitações, nesse caso, são resultado da compra deliberada de veículos de mídia por empresários simpáticos ao regime ditatorial.

“No momento, Hong Kong tem um único jornal de oposição, que sofre para se manter ativo, pois não consegue adquirir patrocínio de grandes companhias, pressionadas a não apoiarem veículos críticos ao governo. Seu dono já foi preso e teve a casa atacada diversas vezes”, relatou.

Populismo na América do Sul 

Luz Mely Reyes, co-fundadora do jornal independente venezuelano Efecto Cocuyo, contou como é o dia-a-dia dos repórteres que continuam no país, apesar da pressão exercida pelo regime ditatorial de Nicolás Maduro.

“Apesar da fome, da falta de combustível para trabalhar e dos blackouts de energia, nós persistimos, insistimos e resistimos porque a vacina contra esses ataques é um jornalismo cada vez maior e melhor”, avaliou.

Conterrâneo de Luz Mely, o jornalista venezuelano Ewald Scharfenberg, cofundador do site de jornalismo investigativo Armando.info, está refugiado na Colômbia e trouxe reflexões sobre a polarização política historicamente vivida em seu país.

Ele relatou que a convivência com “fake news”, ou notícias falsas, é comum nesse tipo de contexto e que reforça o papel do jornalismo: levar informação verdadeira e objetiva para a sociedade.

“Temos de trabalhar de modo colaborativo mesmo diante de um cenário polarizado politicamente. O nosso regime veio difundir a história que foi documentada, que está fundamentada em fatos e que iguala todas as menções que estão circulando nos meios de comunicação”, avaliou, citando a filósofa alemã Hannah Arendt: “Liberdade de opinião é uma farsa quando não se aceitam os fatos”.

O argentino Jorge Lanata, fundador do jornal Página 12, que foi alvo de atentados a bomba, supostamente realizados por apoiadores da então presidente Cristina Kirchner, antes da venda para o grupo Clarín, destacou os desafios da imprensa para que a democracia possa ser exercida.

“O verdadeiro jornalista sempre vai incomodar, sempre vai estar em uma tensão com o poder”, avaliou.

O evento foi organizado pelo diretor-executivo do Interlegis, Marcio Coimbra, e contou com a participação do senador Lasier Martins (PSD-RS), que é jornalista. Os painéis foram mediados pelo editor de política do Metrópoles, Guilherme Waltenberg. O evento celebrou o Dia da Liberdade de Imprensa no Brasil.

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