Idoso é enterrado: coveiro “astronauta”, 4 parentes e sem abraços

Cuidados especiais tiveram de ser tomados antes mesmo que o resultado do exame confirmasse morte de Nazareno Costa, 72 anos, pela Covid-19

atualizado 01/04/2020 23:16

Sepultamento de vítima do coronavírusPAULO GUERETA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Apenas quatro familiares acompanharam, às 15h15 desta quarta-feira (01/04), o enterro de Nazareno Costa, de 72 anos, no cemitério São Francisco Xavier, no Caju (região portuária do Rio). Os coveiros vestiam luvas, máscaras e outros equipamentos de proteção. “Os coveiros estavam parecendo astronautas”, disse o pastor Ismael China, amigo da família há anos e convidado a prestar assistência espiritual.

Costa morreu com suspeita de Covid-19. O enterro, realizado antes que o resultado do exame ficasse pronto e confirmasse a contaminação, exigiu cuidados especiais. O homem sepultado morava na Baixada Fluminense, periferia da Região Metropolitana fluminense.

“Normalmente a gente encheria dois ônibus com amigos e familiares e traria ao cemitério para acompanhar a cerimônia, mas nessa situação não dá, seria muito perigoso”, disse o pastor.

Integrante da Assembleia de Deus Ministério Plantar, no Jacarezinho (zona norte do Rio), China lamentou que a suspeita de possível contaminação tenha impedido amigos de se despedir de Nazareno e impossibilitado os abraços de consolo.

“Acompanhei vários velórios e enterros nas últimas semanas e este é o primeiro envolvendo alguém suspeito de ter morrido devido ao coronavírus. Todo enterro é triste, mas essa situação é diferente, pior ainda. É uma pena, não tem aquele momento afetivo, não podemos cumprimentar as pessoas”, afirmou.

“Os familiares que conviveram com o senhor Nazareno nos últimos dias, antes de ele adoecer, continuam tensos, porque não sabem se foram contaminados. E a mulher dele é idosa”, completou.

Em três dias

Segundo China, Costa morava no Jardim Anápolis, em Belford Roxo (Baixada Fluminense). “No sábado, a filha dele, Patrícia, que frequenta a igreja no Jacarezinho, me ligou contando que o pai estava doente e havia sido internado. Passei a acompanhar a situação e pedir por ele, mas foi tudo muito rápido. Em três dias, seu Nazareno morreu”, narrou o pastor. “Ele teve gripe, e tudo leva a crer que foi mesmo o coronavírus”.

O pastor disse ainda que “a partir de agora vai ser assim, vamos aprender a fazer cerimônias onde não será permitido se aproximar, dar um abraço”. Abalada, a família de Costa preferiu não conversar com a reportagem do Estadão.

Velório pela internet

Para evitar o risco de contaminação, o Cemitério da Penitência, vizinho do São Francisco Xavier, no Caju, oferece o velório virtual, criado antes mesmo da pandemia. O pacote com esse tipo de velório inclui cerimonial com projeção de vídeo com mensagens de despedida, pétalas de rosa e gelo seco, em capela para até 150 pessoas. Tudo custava R$ 4,5 mil ou R$ 5,5 mil, conforme a capela escolhida, mas até 30 de abril a parte virtual não está sendo cobrada. Há, porém, os custos regulares de um enterro.

Em março, o número de velórios online aumentou 33% em relação a fevereiro. Já o serviço de cremação registrou aumento de 44,4%. Com base nos atestados de óbito, a administração do cemitério informou que em março atendeu nove casos confirmados e quatro casos suspeitos de Covid-19.

Para combater a disseminação do coronavírus, o cemitério restringiu o tempo de duração dos velórios. Agora, devem ocorrer em no máximo duas horas e, para casos suspeitos de covid-19, em uma hora.

Nesses, as cerimônias são realizadas em tendas abertas, com o caixão fechado. O visor pode ficar aberto por 30 minutos, mas com um vidro de proteção interna que evita contato do corpo com o ambiente. Em casos confirmados da doença, o cemitério repete a orientação do Ministério da Saúde para que o corpo seja cremado, sem realização de velório.

Medidas de prevenção

Outras medidas da administração do cemitério foram aumentar o número de equipamentos que oferecem álcool gel aos frequentadores; distribuir as cadeiras dentro das capelas de modo que fiquem a pelo menos dois metros de distância umas das outras; permitir o acesso à capela de apenas dez pessoas por vez; e orientar que só uma pessoa de cada vez tenha acesso ao caixão.

A concessionária Rio Pax, que administra seis cemitérios municipais, entre eles o de São João Batista, em Botafogo (zona sul), afirmou que passou a recomendar velório a céu aberto, com poucos familiares, em casos de Covid-19. A concessionária informou ainda que em março ocorreram dois sepultamentos de vítimas da doença.

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