Gritos por socorro orientaram a primeira piloto a chegar em Brumadinho

Major Karla Lessa Alvarenga Leal é a única mulher no comando de aeronaves no local: “Tinha que sobrevoar e pegar o maior número de pessoas”

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 06/02/2019 9:28

Enviados especiais a Brumadinho (MG) – A major do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBM-MG) Karla Lessa Alvarenga Leal, 36 anos, é a única mulher comandante de aeronave que atua na força-tarefa de resgates em Brumadinho.

A equipe da piloto foi a primeira a chegar, minutos após o rompimento da barragem I da Mina Córrego do Feijão, na última sexta-feira de janeiro (25/1). Foi do ar que ela viu o maior desastre envolvendo barragens já registrado no Brasil.

Quando comecei a sobrevoar tive certeza que estava diante de uma tragédia maior do que a de Mariana. Vi uma ponte destruída, carros, locomotivas retorcidas

Major Karla Lessa Alvarenga Leal

Pela rede de rádios, a major recebeu a informação de que um restaurante teria sido atingido. Muitas vítimas poderiam estar naquele local. A comandante, então, decidiu optar por uma estratégia de emergência. Ela dividiu a equipe em duas. Um médico, um enfermeiro e o copiloto desembarcaram no campo de futebol próximo à igreja da cidade, e ela seguiu a campo com dois tripulantes operacionais.

“Eu tinha que sobrevoar e pegar o maior número de pessoas. Para isso, tiramos os bancos e equipamentos da aeronave para ela ficar leve e caber muita gente. À medida que eu fosse resgatando as vítimas, ia colocando no campo de futebol para que o médico fizesse o atendimento”, detalhou a major.

A grande quantidade de fiação elétrica e a lama ainda pastosa dificultaram ainda mais o trabalho dos bombeiros. O helicóptero não podia pousar, era preciso manter o helicóptero praticamente parado a poucos metros do solo. Os militares também tinham dificuldade de progredir em direção às vítimas.

Karla Lessa se guiou pelos gritos das vítimas e pedidos de socorro dos moradores que avistavam pessoas se afogando na lama. Ela tentava entender as coordenadas dadas pela população. Fez manobras complexas e conseguiu levar as duas primeiras vítimas para o atendimento médico.

“Tinha uma outra aeronave dos bombeiros de prontidão. Com aquela dimensão não era preciso mais um helicóptero, mas todos que pudessem chegar até aqui. Foi aí que solicitei apoio de todas as corporações do estado”, contou a militar.

Até o momento, 142 pessoas morreram e 194 continuam desaparecidas. Os trabalhos seguem intensos. Ao longo do dia, homens fazem buscas a pé, de barco e de helicóptero, além de usarem cães farejadores, escavadeiras, máquinas anfíbias e drones em busca de corpos e sobreviventes.

Luto
Intercalando a escala diária, que segue de 4h até 22h, com folgas ao longo dos 12 dias de trabalho intenso em Brumadinho, a major define a sensação de atuar na missão como “um luto constante”.

“Ouvir os pedidos das famílias para trazermos de volta o corpo de um ente querido marca a gente”, confidenciou. No Corpo de Bombeiros há 18 anos e piloto da corporação há 10, Karla ressalta que a experiência de Brumadinho é a mais forte de sua carreira.

“Temos experiência acumulada ao longo dos anos, mas naquele primeiro dia a minha perna deu uma bambeada. Rapidamente eu me concentrei, porque tinha que ser precisa. Além da vida da vítima, tinham bombeiros e voluntários”, disse. “Se eu errasse, poderia causar lesão em um grupo de pessoas. Procurei ficar calma para que a emoção e a adrenalina não comprometessem o meu trabalho. Eu não poderia errar”, completou.

Veja imagens da comandante:


Melhor escolha
A major entrou no Corpo de Bombeiros com apenas 18 anos. Ela estudava em colégio militar e planejava se tornar engenheira química.

“Um dia, os bombeiros fizeram uma palestra falando sobre o curso de formação dos oficiais. Achei interessante e comecei a estudar pra a prova. Hoje eu vejo que foi a melhor escolha que eu fiz”, contou.

Karla é a primeira mulher comandante de helicóptero de bombeiros militares do Brasil. Ela acumula histórias de orgulho e de muita tristeza por atuar em tragédias. Karla também trabalhou no rompimento das barragens em Mariana, em 2015, quando 19 pessoas morreram.

 

Veja imagens da tragédia em Brumadinho:

Gui Prímola/Metrópoles

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