1 de 1 Major Karla, única mulher comandando aeronaves em Brumadinho
- Foto: Igo Estrela/Metrópoles
Enviados especiais a Brumadinho (MG) – A major do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBM-MG) Karla Lessa Alvarenga Leal, 36 anos, é a única mulher comandante de aeronave que atua na força-tarefa de resgates em Brumadinho.
A equipe da piloto foi a primeira a chegar, minutos após o rompimento da barragem I da Mina Córrego do Feijão, na última sexta-feira de janeiro (25/1). Foi do ar que ela viu o maior desastre envolvendo barragens já registrado no Brasil.
Quando comecei a sobrevoar tive certeza que estava diante de uma tragédia maior do que a de Mariana. Vi uma ponte destruída, carros, locomotivas retorcidas
Pela rede de rádios, a major recebeu a informação de que um restaurante teria sido atingido. Muitas vítimas poderiam estar naquele local. A comandante, então, decidiu optar por uma estratégia de emergência. Ela dividiu a equipe em duas. Um médico, um enfermeiro e o copiloto desembarcaram no campo de futebol próximo à igreja da cidade, e ela seguiu a campo com dois tripulantes operacionais.
“Eu tinha que sobrevoar e pegar o maior número de pessoas. Para isso, tiramos os bancos e equipamentos da aeronave para ela ficar leve e caber muita gente. À medida que eu fosse resgatando as vítimas, ia colocando no campo de futebol para que o médico fizesse o atendimento”, detalhou a major.
A grande quantidade de fiação elétrica e a lama ainda pastosa dificultaram ainda mais o trabalho dos bombeiros. O helicóptero não podia pousar, era preciso manter o helicóptero praticamente parado a poucos metros do solo. Os militares também tinham dificuldade de progredir em direção às vítimas.
Karla Lessa se guiou pelos gritos das vítimas e pedidos de socorro dos moradores que avistavam pessoas se afogando na lama. Ela tentava entender as coordenadas dadas pela população. Fez manobras complexas e conseguiu levar as duas primeiras vítimas para o atendimento médico.
“Tinha uma outra aeronave dos bombeiros de prontidão. Com aquela dimensão não era preciso mais um helicóptero, mas todos que pudessem chegar até aqui. Foi aí que solicitei apoio de todas as corporações do estado”, contou a militar.
Até o momento, 142 pessoas morreram e 194 continuam desaparecidas. Os trabalhos seguem intensos. Ao longo do dia, homens fazem buscas a pé, de barco e de helicóptero, além de usarem cães farejadores, escavadeiras, máquinas anfíbias e drones em busca de corpos e sobreviventes.
Luto
Intercalando a escala diária, que segue de 4h até 22h, com folgas ao longo dos 12 dias de trabalho intenso em Brumadinho, a major define a sensação de atuar na missão como “um luto constante”.
“Ouvir os pedidos das famílias para trazermos de volta o corpo de um ente querido marca a gente”, confidenciou. No Corpo de Bombeiros há 18 anos e piloto da corporação há 10, Karla ressalta que a experiência de Brumadinho é a mais forte de sua carreira.
“Temos experiência acumulada ao longo dos anos, mas naquele primeiro dia a minha perna deu uma bambeada. Rapidamente eu me concentrei, porque tinha que ser precisa. Além da vida da vítima, tinham bombeiros e voluntários”, disse. “Se eu errasse, poderia causar lesão em um grupo de pessoas. Procurei ficar calma para que a emoção e a adrenalina não comprometessem o meu trabalho. Eu não poderia errar”, completou.
Veja imagens da comandante:
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Major Karla foi a primeira piloto a chegar ao local da tragédia, em Brumadinho
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Ao ver a área de impacto, ela concluiu que não bastava mais um helicóptero para prestar socorro: acionou todas as aeronaves do estado para auxiliarem no resgate
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Ela é a única mulher a comandar aeronaves que atua no resgate no município mineiro
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Para socorrer o maior número de vítimas, a comandante arrancou bancos e outros itens de seu helicóptero
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Em 18 anos de Corpo de Bombeiros e 10 como piloto, Karla carrega história de muito orgulho, mas também de tristeza: ela atuou na tragédia de Mariana, em 2015, quando 19 pessoas morreram
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Melhor escolha
A major entrou no Corpo de Bombeiros com apenas 18 anos. Ela estudava em colégio militar e planejava se tornar engenheira química.
“Um dia, os bombeiros fizeram uma palestra falando sobre o curso de formação dos oficiais. Achei interessante e comecei a estudar pra a prova. Hoje eu vejo que foi a melhor escolha que eu fiz”, contou.
Karla é a primeira mulher comandante de helicóptero de bombeiros militares do Brasil. Ela acumula histórias de orgulho e de muita tristeza por atuar em tragédias. Karla também trabalhou no rompimento das barragens em Mariana, em 2015, quando 19 pessoas morreram.
Veja imagens da tragédia em Brumadinho:
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Bombeiros contam com o apoio de cajados para vasculharem a lama tóxica em busca de sobreviventes e corpos
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Bombeiros trabalham na busca das vítimas
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A lama arrastou árvores e tomou conta da região
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Equipe de resgate voluntária tenta salvar uma vaca presa no lamaçal de rejeitos de ferro desde a sexta-feira (25/1), quando a barragem da mineradora Vale se rompeu, devastando e destruindo tudo por onde passou. Pela dificuldade da remoção, o animal teve de ser sacrificado
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Bombeiros fazem busca na área da Pousada Nova Estância, soterrada pela avalanche de lama
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Além de socorristas do município e de todo o estado de Minas Gerais, o Rio de Janeiro e outros estados mandaram reforços. Tragédia mobilizou o país e entidades em todo o mundo, como OIT e OEA
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Israelenses levaram equipamentos para a região e contribuíram no resgate de sobreviventes e dos corpos das vítimas
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Equipes de resgate tiveram reforço nos últimos dias
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Peritos trabalham na identificação dos mortos
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Antônio Carlos tentou entrar em Brumadinho (MG), mas foi impedido pela PM
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No domingo (27/1), houve uma ordem de evacuação do município, revogada depois: medo de rompimento de uma outra barragem
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Meio ambiente foi afetado
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Os bombeiros militares utilizaram helicópteros para auxiliar no resgate
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Helicópteros sobrevoam a área atingida, em busca de vítimas
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Carro foi arrastado pela lama
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Trabalho de resgate é detalhado: quanto mais demora, menores as chances de sobreviventes serem encontrados
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Jair caminha há três dias em busca do irmão
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Corpo é levado para centro de triagem e identificação
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Bombeiros do município e do estado estão concentrados na busca de sobreviventes e no resgate de corpos
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Gado tem sido encontrado nas áreas de buscas. Veterinários tentam dar suporte
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Quando possível, equipes de resgate também salvam animais
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Prioridade é achar sobreviventes, o que fica mais difícil com o passar das horas
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Além de retirar galhos, é preciso serrar latarias de veículos encontrados
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Trabalho de resgate é feito na lama
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Bombeiros trabalham na lama, em busca de sobreviventes e corpos
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Bombeiros retiram grandes pedaços de madeira e serragem para chegar a corpos
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Trabalho na tarde de segunda (28/1) se concentrou em área onde foi encontrado outro ônibus da Vale soterrado
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Bombeiros tentam içar da lama corpos de vítimas em Brumadinho
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Centenas de bombeiros atuam na região
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Central de comando montada pelos bombeiros na Igreja Nossa Senhora das Dores
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Balanço da segunda (28/1) à noite foi de 81 mortos e 271 desaparecidos. Número de resgatados com vida permanece estável desde a noite de sábado (26): são 192
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33 de 105Wilson Junior/Estadão Conteúdo
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Bombeiros em sala de monitoramento montada em Brumadinho: equipes dos governos municipal, estadual e federal integradas no trabalho de resgate
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Segundo bombeiros, demora em resgate diminui chances de encontrar sobreviventes
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Bombeiro trabalha no resgate de corpo em Brumadinho
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Helicóptero sobrevoa área da tragédia: pressa em encontrar sobreviventes
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Peritos tentam identificar corpos resgatados: 19 de 81 mortos tiveram as identidades confirmadas entre sexta (25/1) e segunda-feira (28)
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Corpo é resgatado em Brumadinho
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Corpo é transportado por helicóptero dos bombeiros em Brumadinho
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Policiais civis e peritos trabalham na identificação dos corpos em Brumadinho
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Segundo bombeiros, demora em resgate diminui a chance de encontrar sobreviventes em Brumadinho
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43 de 105Divulgação/Corpo de Bombeiros
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45 de 105WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO/Foto Ilustrativa
46 de 105Reprodução/TV Globo
47 de 105Isac Nóbrega/PR
48 de 105Divulgação/Corpo de Bombeiros
49 de 105MOISéS SILVA/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
50 de 105REPDOUÇÃO/CORPO DE BOMBEIROS
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53 de 105UARLEN VALéRIO/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
54 de 105UARLEN VALéRIO/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
55 de 105MOISéS SILVA/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
56 de 105FERNANDO MORENO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
57 de 105CHRISTYAM DE LIMA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
58 de 105RODNEY COSTA/ELEVEN/ESTADÃO CONTEÚDO
59 de 105UARLEN VALéRIO/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
60 de 105UARLEN VALÉRIO/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
61 de 105FERNANDO MORENO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
62 de 105MOISéS SILVA/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
63 de 105UARLEN VALéRIO/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
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67 de 105Isac Nóbrega/PR
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71 de 105Divulgação/Corpo de Bombeiros
72 de 105WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
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Equipes da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros trabalham no resgate. Peritos do Instituto Médico Legal (IML) atuam na identificação das vítimas: 19 dos 81 mortos foram identificados até segunda-feira (28/1)
MOURÃO PANDA/O FOTOGRÁFICO/ESTADÃO CONTEÚDO
76 de 105Reprodução/TV Globo
77 de 105WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
78 de 105Mirelle Pinheiro/Metrópoles
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81 de 105Material cedido ao Metrópoles
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83 de 105Divulgação/Ministério do Interior de Israel
84 de 105ALEX DE JESUS/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
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86 de 105FELIPE CORREIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO
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Rompimento barragem de Brumadinho(2019)
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Desde que a Vale começou a pagar as indenizações, a PCMG identificou 10 estelionatos consumados e três tentativas
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Rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão
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Os rejeitos atingiram a área administrativa da Vale, uma pousada e comunidades que moravam perto da estrutura
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A onda de rejeitos atingiu instalações da própria mineradora, incluindo o refeitório onde funcionários almoçavam, além de comunidades e áreas rurais da região
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Passados mais de três meses desde a tragédia, os trabalhos das equipes do Corpo de Bombeiros continuam na região
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Familiares cobram justiça após a tragédia
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Bombeiros e voluntários em Brumadinho
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O número de vítimas passou de 220
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Helicóptero sobrevoa local da tragédia
Bárbara Ferreira/Especial para o Metrópoles
É assustador a quantidade de lama que desceu da barragem da Vale em Brumadinho. pic.twitter.com/enexjelyIj