Falsos profetas: relembre líderes espirituais metidos em escândalos

Abuso sexual, pedofilia e corrupção são alguns dos crimes dos quais são acusados “homens sagrados” que teriam se aproveitado da fé alheia

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

atualizado 16/12/2018 19:18

A série de polêmicas recentes envolvendo o médium João de Deus – acusado de centenas de abusos sexuais a mulheres que buscavam atendimento no centro espírita mantido por ele, a cerca de 100km da capital federal – não é, infelizmente, um caso isolado. Outros líderes espirituais e religiosos já se viram envolvidos em escândalos de toda ordem, desde supostos gurus a padres e pastores. Todos tiveram de responder por seus crimes perante a justiça dos homens.

Como esquecer, por exemplo, os casos de pedofilia revelados pelo jornal Washington Post envolvendo a Igreja Católica nos Estados Unidos? Ou o guru espiritual Sri Prem Baba (foto em destaque), de 59 anos, que foi acusado de abuso sexual? De acordo com relatos de duas seguidoras do seu grupo – as quais passavam por dificuldades no casamento –, Prem Baba teria utilizado sua posição para manter relações sexuais com elas. Ele negou os abusos, alegando que as denúncias eram resultado de “relações amorosas que chegaram ao fim”.

Além dos escândalos sexuais, denúncias de corrupção também atingiram líderes religiosos no passado. O pastor evangélico Silas Malafaia, por exemplo, chegou a ser indiciado pela Polícia Federal por supostamente ter recebido propinas. Segundo ele, o dinheiro vinha de uma doação.

Relembre casos de líderes espirituais que, em algum momento de suas vidas, envolveram-se em escândalos criminais e denúncias polêmicas:

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Abuso, pedofilia e a Igreja Católica
Crimes sexuais não são um fato isolado da religião espírita. A Igreja Católica teve o nome manchado por episódios do gênero. Histórias assustadoras foram divulgadas pela mídia internacional, como em uma reportagem do jornal The Boston Globe. De acordo com a denúncia, padres cometeram abuso sexual contra centenas de menores nos Estados Unidos.

Os relatos são de mais de 1 mil crianças que teriam sido abusadas sexualmente ao longo de 70 anos por cerca de 300 padres de seis dioceses da Pensilvânia, nos EUA. Segundo o relatório da Suprema Corte estadunidense, os atos aconteciam enquanto líderes religiosos acobertavam os abusos.

O caso teve grande repercussão e chegou a virar um filme, intitulado Spotlight. As histórias desmembradas se parecem mais com contos de terror: pedofilia disfarçada de “exame de câncer”; padres que recorriam aos superiores afirmando terem abusado de crianças e eram “perdoados” ao confessarem os atos; gravidezes após as relações sexuais com os párocos; uma menor nua encontrada na casa de um padre e coleção de pornografia infantil, entre outros relatos.

A partir da revelação dos episódios ocorridos nos Estados Unidos, surgiram pelo globo incontáveis acusações de práticas de abuso sexual cometidas por sacerdotes católicos. Em consequência dos escândalos, neste ano, 34 bispos chilenos chegaram a pedir renúncia ao papa Francisco. Em várias ocasiões, o líder supremo do catolicismo “implorou”aos fiéis por perdão pelos casos de abuso e chegou a admitir um “fracasso da Igreja” contra esses crimes.

Corrupção
Ainda há quem pense que a proximidade de líderes religiosos com o “sagrado” os torna puros e impecáveis. No entanto, esse argumento tem sido quebrado pelos próprios “homens de fé”. Crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e caixa 2 deixaram de fazer parte apenas do mundo político e foram integrados aos hábitos de religiosos brasileiros – que movimentam grandes quantias de dinheiro vindas dos dízimos e doações de fiéis.

Em 2007, a Igreja Apostólica Renascer em Cristo foi alvo de um escândalo internacional. Os bispos Estevâm e Sônia Hernandes foram presos pela Polícia Federal dos Estados Unidos (o FBI) em Miami, enquanto embarcavam para São Paulo (SP). Os dois foram pegos com US$ 56 mil em dinheiro vivo. Eles declararam às autoridades alfandegárias que traziam US$ 10 mil – o limite imposto pela lei norte-americana.

Na época, o Ministério Público Federal chegou a pedir o bloqueio dos bens da Igreja Renascer e do casal, entendendo que a comunidade se comportava como uma organização criminosa envolvida em práticas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, falsidade ideológica e estelionato. A Justiça brasileira decretou a prisão dos religiosos, mas eles conseguiram um habeas corpus que garantiu, inclusive, o direito de embarcarem de volta aos Estados Unidos.

O bispo Edir Macedo, proprietário da RecordTV, também teve seu nome e o da Igreja Universal do Reino de Deus relacionados a escândalos criminais. Em 2011, a Justiça aceitou uma denúncia contra o líder neopentecostal e outros integrantes da cúpula da Universal, pelos crimes de formação de quadrilha para lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

De acordo com as investigações, Edir Macedo e outros três integrantes da direção da Igreja teriam utilizado os serviços de uma casa de câmbio, em São Paulo, para mandar recursos de forma ilegal aos EUA entre 1999 e 2005. Doleiros ex-proprietários da Diskline Câmbio e Turismo contaram em depoimento que o dinheiro arrecadado dos fiéis era levado à casa cambial em carros da Universal protegidos por seguranças.

Indiciado pela Polícia Federal sob suspeita de lavagem de dinheiro na Operação Timóteo, em 2017, o pastor evangélico Silas Malafaia voltou à mira de investigadores neste ano. A Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) um aprofundamento nas investigações sobre o religioso. Para a PGR, há provas de que Malafaia recebeu “voluptuosos recursos oriundos de um dos principais investigados [da Operação Timóteo]” e existe indício de lavagem de dinheiro.

O inquérito de Malafaia na ofensiva da PF aconteceu depois que os investigadores descobriram um cheque de R$ 100 mil entregue ao pastor pelo advogado Jader Pazinato, suspeito de desviar royalties de mineração e pagar propina a agentes públicos. Quando as acusações explodiram, o religioso argumentou publicamente que o pagamento era uma doação de agradecimento por uma oração feita ao advogado.

Crimes na capital
A prisão de bispos e padres em Planaltina de Goiás, cidade no Entorno do Distrito Federal, causou surpresa aos fiéis da Igreja Nossa Senhora Imaculada Conceição. Durante a Operação Caifás foram encontrados R$ 70 mil no fundo falso de um armário na casa do monsenhor Epitácio Cardozo Pereira. O dinheiro, de acordo com os investigadores, teria sido desviado de dízimos pagos por fiéis da Igreja Católica.

Dom José Ronaldo Ribeiro, bispo de Formosa (GO) preso pela força-tarefa, é cidadão honorário de Brasília. Ele recebeu o título da Câmara Legislativa em 2002, por seu trabalho como pároco na cidade de Sobradinho (DF). O religioso também recebeu o prêmio de amigo da Academia Nacional de Polícia, do Departamento de Polícia Federal, em 2005.

Segundo investigações do Ministério Público de Goiás (MPGO), dom José Ronaldo fazia parte de uma associação criminosa que atuava desviando recursos de igrejas católicas do Entorno do DF, inclusive nos municípios goianos de Formosa e Planaltina de Goiás. O prejuízo estimado foi de mais de R$ 2 milhões. Os fundos teriam sido utilizados, conforme apontam interceptações telefônicas, na compra de fazenda de gado e casas lotéricas. Tudo para fins particulares.

O pastor da Casa da Bênção e ex-deputado distrital, Júnior Brunelli, foi protagonista de um vídeo icônico conhecido como “Oração da Propina” – revelado na Operação Caixa de Pandora. Ele virou réu na investigação sobre desvios milionários durante a gestão do ex-governador do DF José Roberto Arruda (PR). No entanto, Brunelli foi preso por outro motivo: ficou 10 dias na cadeia, em 2012, pela Operação Hofini, suspeito de ter desviado R$ 1,7 milhão em emendas parlamentares destinadas a idosos da Associação de Assistência Social Monte das Oliveiras (AMO).

Confira o vídeo da “Oração da Propina”:

 

O curioso caso de Inri Cristo
Mesmo não se tratando de um crime propriamente dito, a história curiosa de Inri Cristo e suas seguidoras chama atenção. Ele é famoso, não recusa convites para aparecer em público e se cerca de mulheres que largaram tudo para servi-lo. Vestindo uma túnica branca com uma coroa de espinhos, apresenta-se como a reencarnação de Jesus Cristo.

A forma como o líder religioso controla suas seguidoras é peculiar: Inri diz como elas devem se alimentar, vestir, agir, pensar e até a maneira de se limpar depois de ir ao banheiro – o uso de papel higiênico na casa mantida pelo guru é vetado, devendo-se utilizar apenas água purificada após idas ao sanitário. As seguidoras dividem casa com ele, no Gama (DF).

O advogado criminalista Euro Bento levantou algumas questões sobre a legalidade do que ocorre no lar de Inri Cristo. “Seria preciso um inquérito policial para avaliar até que ponto essas mulheres são livres e se ele engana as pessoas que doam dinheiro com promessas de cura ou de salvação – isso seria charlatanismo, e há pena prevista em lei”, afirmou.

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Osho, o guru do politicamente incorreto
Bhagwan Shree Rajneesh, conhecido como Osho, foi um guru indiano. Durante sua vida, ele foi visto como um místico e polêmico líder religioso. No final dos anos 1970 e início da década de 1980, havia tomado as manchetes de jornais e revistas internacionais com sua doutrina, que misturava elementos das principais religiões orientais, do misticismo e da filosofia ocidental, técnicas de psicoterapia e meditação.

Em seus discursos, fazia piadas sobre o papa católico e sobre Mahatma Gandhi, além de defender a liberdade sexual. Era conhecido por colecionar carros Rolls-Royce, relógios caros e joias.

Mesmo com as polêmicas que envolviam o seu nome, Osho reuniu muitos discípulos. Seus seguidores o apresentavam como um grande contestador e libertador. Seu ensinamento enfatizava a busca de liberdade pessoal e apresentava uma atitude mordaz em relação à tradição e à autoridade estabelecida.

Segundo relatos dos próprios seguidores, Osho sempre foi uma figura polêmica. Em boa parte, porque raramente procurava apaziguar ou evitar conflitos. Membros do seu grupo chegaram a ser acusados de, deliberadamente, causar uma intoxicação com salmonela na comunidade de Condado de Wasco, no Oregon (EUA), após alegadas tentativas para obter vantagens nas eleições locais.

Nos Estados Unidos, ele respondeu por 35 acusações e foi condenado a 10 anos de prisão com sursis – dispensa do cumprimento da pena.

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