“Estamos mandando a cepa para outros estados”, informa cientista da Fiocruz

Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz-Amazônia, fez 13 alertas desde agosto sobre o risco de colapso. Ele teme nova avalanche de casos

atualizado 15/01/2021 13:45

Manaus - Coronavirus - BrazilLucas Silva/picture alliance via Getty Images

O epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz-Amazônia, fez uma alerta nas redes sociais na quarta-feira (13/1). De acordo com ele, Manaus estaria se tornando a “capital mundial da pandemia de Covid-19”.

Nessa quinta-feira (14/1), quando o sistema de saúde de Manaus entrou em colapso e deixou os hospitais da região com o estoque de oxigênio para pacientes com Covid-19 zerados, Jesem comparou os leitos hospitalares a câmaras de asfixia.

“O caos sanitário e humanitário em que a cidade mergulhou durante a segunda onda, traduzido pelo pico explosivo de mortalidade e de internações em leitos clínicos e de UTI no início de janeiro, não deixa qualquer dúvida sobre a extensão da tragédia anunciada”, explicou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo ele, uma das causas para a explosão de casos seria a nova cepa do coronavírus, identificada em turistas japoneses após viagem à Amazônia. “Esse tipo de crescimento tão explosivo a gente normalmente aceita quando toda a população é considerada suscetível ao novo vírus. Mas essa disseminação que estamos vendo num contexto em que pelo menos 30% a 40% da população já tinha sido exposta ao coronavírus só pode ser porque essa nova cepa se programa muito mais rapidamente que todas as 11 variantes que circularam antes na região”, declarou Orellana.

O cientista se mostrou preocupado com a possibilidade do envio da nova cepa do Amazonas a outros estados, já que pacientes de Manaus estão sendo transferidos para outros unidades federativas.

“As mutações que observamos são muito parecidas com as vistas no Reino Unido e na África do Sul em novas cepas que também mostraram mais fáceis de serem transmitidas. E a pior consequência – além das centenas de mortes que aconteceram nos últimos seis dias e as milhares que ainda devem acontecer nos próximos – é a possibilidade de disseminar essa nova cepa Brasil afora porque estamos mandando dezenas de pacientes daqui para outros estados. Em outras palavras, estamos mandando o vírus para outros estados. Isso ninguém está falando ainda, mas vamos ver a bomba estourar daqui uns 15 dias”, salientou.

O pesquisador afirmou que desde agosto havia sinais de que a situação ficaria pior se a circulação do vírus não fosse imediatamente interrompida. Ele criticou a divulgação de um estudo, segundo o qual Manaus poderia ter atingido a imunidade de rebanho. De acordo com ele, a “má ciência” fez com que a população relaxasse e aumentasse o contágio.

Orellana também apontou que o esforço do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em contrariar a medida do governador de Manaus, de declarar lockdown, só agravou a segunda onda na região. Na ocasião, Bolsonaro disse que a medida de Wilson Lima era absurda, o que ocasionou o imediato descarte da medida de prevenção.

 

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