Em caixa-preta do Voepass, piloto reconhece falha de sistema: "Não tá funcionando"
Laudo da PF reúne diálogos da cabine e aponta falhas no sistema de degelo antes do acidente envolvendo avião da Voepass que matou 62 pessoas

A caixa-preta do avião da Voepass que caiu em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024, revela que um dos pilotos admitiu, durante o voo, uma falha no sistema de degelo da aeronave. A informação consta no laudo da investigação da Polícia Federal (PF), que detalha os momentos que antecederam o acidente responsável pela morte de 62 pessoas.
Segundo a perícia, o sistema de degelo apresentou falhas durante o voo e o problema já havia sido registrado em viagens anteriores, conforme mostrou o relatório final divulgado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) no último dia 23 de julho.
Os diálogos gravados na cabine (leia a transcrição mais abaixo) mostram a tripulação tentando restabelecer o funcionamento do equipamento enquanto lidava com uma sequência de alertas emitidos pela aeronave.
O laudo também registra que, nos minutos finais do voo, foram acionados avisos de perda de desempenho, estol (que indica perda de sustentação de uma aeronave) e proximidade do solo. Além disso, a PF concluiu que procedimentos previstos pelo fabricante para esse tipo de situação deixaram de ser executados no momento recomendado.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesOs diálogos integram o laudo pericial da investigação, obtido pelo Fantástico.
Os diálogos da caixa-preta
Ainda durante a subida da aeronave, que decolou de Cascavel (PR), com destino a Guarulhos (SP), a caixa-preta registra o primeiro alerta relacionado ao sistema de degelo.
Piloto: “É o ‘Airframe’ que deu ‘fault’… pode tirar, pode tirar… pelo menos a gente já sabe que tá…”
Na sequência, o copiloto comenta sobre as condições de voo:
Copiloto: “Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”
O comandante responde fazendo uma referência ao personagem Herbie, do filme Se Meu Fusca Falasse:
Piloto: “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá… Herbie, filme bem antigo.”
Segundo a Polícia Federal, naquele momento o alerta AIRFRAME FAULT indicava falha no sistema pneumático de degelo da aeronave. O procedimento previsto pelo fabricante determinava que a tripulação deixasse imediatamente a região de formação de gelo. No entanto, os dados do gravador de voo mostram que isso não ocorreu.
Os últimos minutos
Quase uma hora depois, quando o avião já se aproximava de São Paulo, a situação se agrava.
Copiloto: “Bastante gelo.”
Em seguida, ele tenta acionar novamente o sistema de degelo:
Copiloto: “Ligar o airframe.”
A resposta do comandante é imediata:
Piloto: “Essa bosta não tá funcionando, né?”
Na sequência, a gravação registra:
Copiloto: “É.”
Copiloto: “Gelo.”
Logo depois, o alarme de estol permanece ativo por 48 segundos. Em seguida, o sistema de alerta de proximidade do solo passa a emitir repetidamente o comando:
TAWS: “Pull-up… Pull-up.”
De acordo com a investigação, os computadores da aeronave também emitiram alertas de degradação de desempenho e de aumento de velocidade antes de o avião perder sustentação, entrar em estol e, depois, cair.
Fim da investigação pela PF
O laudo aponta que os pilotos deixaram de executar, no momento adequado, procedimentos previstos pelo fabricante para situações de falha no sistema de degelo, degradação de desempenho, formação severa de gelo e recuperação de estol.
Segundo o Fantástico, a Polícia Federal concluiu que a queda foi resultado da combinação de falhas recorrentes no sistema de degelo, operação em uma área com formação severa de gelo, descumprimento dos procedimentos previstos pelo fabricante e falhas sucessivas nas barreiras de segurança antes do voo.
A PF deve divulgar a conclusão do inquérito nesta quinta-feira (6/8).























