Cenipa: avião da Voepass que caiu e matou 62 pessoas não deveria ter decolado
Investigação concluiu que falha no sistema de degelo foi omitida do diário de bordo e impediu medidas de mitigação antes do voo

O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), divulgado nesta quinta-feira (23/7), concluiu que o avião da Voepass que caiu em Vinhedo (SP), em agosto de 2024, não deveria ter decolado nas condições em que operou.
Segundo os investigadores, falhas no sistema de degelo das asas haviam sido identificadas em voos anteriores, mas não foram registradas oficialmente, o que impediu a adoção de medidas de segurança antes do acidente.
As conclusões foram apresentadas pelo tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador responsável pela apuração.

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Ver todasDe acordo com o relatório, a aeronave apresentou falha no sistema de degelo durante um voo entre Guarulhos e Ribeirão Preto, realizado na véspera do acidente. O equipamento é responsável por remover o gelo acumulado nas asas durante o voo.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSegundo Fróes, embora a tripulação tenha comunicado verbalmente a ocorrência à equipe de manutenção, o problema não foi registrado no diário de bordo da aeronave, procedimento obrigatório para que a pane fosse analisada formalmente.
“A tripulação deveria ter relatado no diário de bordo essa falha para que a manutenção, após o pouso, pudesse verificar o que estava acontecendo com o sistema. O que a comissão verificou é que, após o pouso em Ribeirão Preto, na noite anterior, essa falha não foi registrada no diário de bordo da aeronave”, afirmou o investigador.
Problemas em voos anteriores
Segundo o Cenipa, os pilotos comunicaram verbalmente o problema à equipe de manutenção, mas a ocorrência não foi inscrita no diário de bordo, documento utilizado para registrar falhas técnicas da aeronave. A investigação também apontou que a inspeção realizada não incluía itens específicos para verificar o funcionamento do sistema de detecção de gelo.
Apesar da pane, a aeronave poderia ser liberada para voar no dia seguinte porque, para aquela rota, não havia previsão de formação de gelo, condição que permitiria a operação segundo as normas vigentes.
Na manhã do acidente, em 9 de agosto de 2024, durante o voo entre Ribeirão Preto e Guarulhos, o sistema de detecção de gelo voltou a apresentar falha. Novamente, o problema não foi registrado no diário de bordo.
Já no terceiro voo, entre Guarulhos e Cascavel, realizado pouco antes da decolagem para o voo que terminaria em acidente, a aeronave voltou a registrar anomalias. Houve indicação de formação de gelo, o sistema de degelo das asas (Airframe De-Icing), responsável por remover o gelo acumulado na estrutura da aeronave, foi acionado e, em seguida, apresentou falha. Mesmo assim, a tripulação manteve o sistema ligado.
Durante esse voo, diversos alertas operacionais foram registrados. Entre eles estava o aviso de “Degraded Performance”, que indica perda de desempenho da aeronave, e o alerta “Increase Speed”, orientando os pilotos a aumentar a velocidade para manter uma margem segura de voo.
Também foi emitido quatro vezes o alerta “Cruise Speed Low”, indicando que a velocidade de cruzeiro estava abaixo da considerada adequada para aquelas condições.
Além disso, os sistemas Stick Shaker e Stick Pusher foram acionados 16 vezes. O Stick Shaker faz o manche vibrar para alertar os pilotos de que a aeronave está próxima de entrar em estol — situação em que as asas deixam de gerar sustentação suficiente. Já o Stick Pusher atua automaticamente empurrando o manche para frente, reduzindo o ângulo de ataque da aeronave e tentando evitar a perda de sustentação.
A investigação também registrou falhas relacionadas ao sistema Alpha Probe Heat, responsável por aquecer os sensores que medem o ângulo de ataque da aeronave, evitando que eles congelem e forneçam informações incorretas aos computadores de bordo.
Assim como nos voos anteriores, nenhuma dessas ocorrências foi registrada no Technical Log Book (TLB), o livro técnico da aeronave utilizado para documentar falhas e orientar as equipes de manutenção.
Relembre o caso
O voo 2283 da Voepass decolou de Cascavel (PR), em 9 de agosto de 2024, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP).
A aeronave caiu em um condomínio residencial em Vinhedo (SP), matando as 62 pessoas que estavam a bordo — 58 passageiros e quatro tripulantes.
Nenhum morador do condomínio ficou ferido.

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Com a divulgação do relatório final, o Cenipa encerra a investigação voltada à prevenção de acidentes aeronáuticos.
O documento reúne os fatores contribuintes identificados pelos investigadores e apresenta recomendações de segurança destinadas a reduzir o risco de ocorrências semelhantes.
Como ocorre em todas as investigações conduzidas pelo órgão, o relatório não atribui responsabilidade civil ou criminal pelo acidente.
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