1 de 1 Foto colorida de fita com símbolos de quebra-cabeça em cum fundo azul - Metrópoles
- Foto: Nambitomo/Getty Images
Em 2025, foram divulgados, pela primeira vez desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dados oficiais sobre pessoas com autismo no Brasil, a partir de um questionamento incluído no questionário de amostragem.
O levantamento integra o módulo de amostragem do Censo 2022 e revela que pelo menos 2,4 milhões de brasileiros declaram ter diagnóstico médico para Transtorno do Espectro Autista (TEA). O dado inédito inaugura um marco estatístico no país e escancara desigualdades profundas no acesso ao diagnóstico e às políticas de suporte.
Para a especialista Ana Carolina Steinkopf, pesquisadora do Mapa Autismo Brasil (MAB) — primeiro levantamento de dados sociodemográficos não governamental —, o avanço representa mais do que um número: é reconhecimento.
“Quando o Censo pergunta sobre autismo, ele mostra que as pessoas autistas estão sendo vistas. Isso impacta diretamente na formulação de políticas públicas”, explica. “A política pública é baseada em dados, em análises de custo e benefício. Com dados sobre autismo, é possível pensar em ações direcionadas para a necessidade real da população.”
O estudo identificou que 1,2% da população tem diagnóstico de autismo. A prevalência é maior entre homens (1,5%) do que entre mulheres (0,9%). A diferença aparece desde a primeira infância até os 44 anos. O pico está no grupo de 5 a 9 anos, faixa em que 2,6% das crianças estão dentro do espectro. Entre os meninos dessa idade, a taxa chega a 3,8%.
Mesmo com os dados inéditos, o retrato segue incompleto. Segundo Carolina, a ausência de números ao longo das últimas décadas aprofundou desigualdades históricas. A própria distribuição dos diagnósticos reforça esse desequilíbrio. “É um recorte muito específico que também acompanhamos em pesquisas internacionais. A maior parte são meninos brancos de classe média/alta”, revela.
Os números absolutos do Censo também reforçam a concentração de diagnósticos no Sudeste, que soma mais de 1 milhão de pessoas, seguido pelo Nordeste, com 633 mil. A desigualdade regional, aponta a pesquisadora, é determinante: “Falta acesso à informação, a atendimento qualificado e a recursos para fazer terapia. As regiões que não são centralizadas têm maior carência de profissionais capacitados.”
Carolina analisa que a próxima década será decisiva para os processos de diagnóstico, tratamento e acompanhamento de autistas. “O próximo Censo vai acontecer daqui 10 anos e muita coisa vai mudar até lá.”
O temor é de que o avanço fique apenas no papel: “O meu medo é de que tenhamos mais um número e nenhuma ação, que milhões de pessoas continuem na invisibilidade e na falta de acolhimento”, reflete.
Em Dois Unidos, na periferia do Recife (PE), a dona de casa e mãe solo Elaine Cristina da Silva, de 32 anos, conta que percebeu sinais de autismo no filho quando ele ainda era um bebê. Mesmo com a suspeita, enfrentou sucessivas negativas no posto de saúde: “Ouvia a mesma resposta: ‘É normal, mãe’. Eu sabia que não era. Isso durou dois anos.”
2 imagens
1 de 2
Elaine Cristina da Silva, de 32 anos, ao lado do filho, Pedro Kauã
Arquivo pessoal/ Material cedido ao Metrópoles
2 de 2
Pedro Kauã esperou quatro anos para uma consulta com neurologista pelo SUS
Arquivo pessoal/ Material cedido ao Metrópoles
O laudo só veio após insistência, mas o caminho continuou árduo. “O tempo mais longo foi quatro anos para uma consulta com neuro, dois anos para psiquiatra, dois anos para terapia, três anos para fono”, relembra. Sem serviços especializados no bairro, mãe e filho passam horas viajando. “Gasto três horas de relógio. Pegamos dois ou três ônibus para ir à terapia.”
O recado da mãe aos gestores é direto: “É muito difícil tudo nas suas costas, a luta é grande. Que eles venham olhar mais pelas famílias atípicas, para mães solo como eu, porque é tudo tão difícil. Ajudar nossos filhos com mais terapia e médico.”
Também no Recife, Jéssica Emylle Silva de Brito, de 26, vive situação semelhante com o filho, de 4 anos, diagnosticado autista nível 2 de suporte e com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Ele espera há mais de dois anos por um retorno com neuropediatra pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
“Tem dias que penso em desistir, mas Deus não permite, pois sei que meu filho depende de mim para tudo”, desabafa a também dona de casa. Para ela, a mudança começa no reconhecimento das demandas reais: “Mais Centros TEAs e que abrissem mais vagas para nossas crianças e adultos”, pede Jéssica.
Jéssica Emylle Silva de Brito, de 25 anos, ao lado do filho Aelson Gabriel Brito Da Silva. Mesmo diagnosticado, ele já aguarda há dois anos ser chamado para uma consulta com um neurologista
Existe adulto autista
Os primeiros dados do Censo escancaram outra distorção: o país enxerga o autismo como um diagnóstico infantil, empurrando milhões de adultos para a invisibilidade.
A especialista Ana Carolina Steinkopf alerta que essa percepção apagou gerações inteiras de autistas que hoje são adultos e idosos que passaram a vida sem diagnóstico ou apoio. “Existem pessoas autistas envelhecendo, sem acesso e sem conhecimento das possibilidades, e o Censo é um retrato disso”, destaca.
O relato de Carla Cristina dos Santos, moradora de Lucas do Rio Verde (MT), confirma o apagamento. Autista, ela percebe sinais desde a infância, quando se sentia “muito diferente do mundo ao redor”. O diagnóstico só chegou na vida adulta, aos 30 anos, após os laudos dos três filhos.
“A palavra que define o que senti é alívio. Agora, sei que não sou louca, não sou depressiva, não sou burra. O diagnóstico tardio é libertador”, conta.
2 imagens
1 de 2
Carla Cristina dos Santos ao lado dos filhos Heitor e Henry Gael
Arquivo pessoal/ Material cedido ao Metrópoles
2 de 2
Carla Cristina dos Santos ao lado do filho Henrique Gabriel. Ela e os três filhos são diagnosticados autistas
Arquivo pessoal/ Material cedido ao Metrópoles
Para ela, o Estado falhou no básico. “Precisamos de acessibilidade ao diagnóstico precoce, de uma linha de investigação em consultórios pediátricos e nas escolas na primeira infância.”
Em Belo Horizonte (MG), Mauro Henrique Guimarães Ferreira também recebeu diagnóstico tardiamente, aos 45 anos, depois de uma vida marcada por rótulos. “Quando criança, eu só parecia ‘estranho’. Tentava esconder para ter amigos para brincar”, relembra.
Ele considera os dados do Censo essenciais, mas cobra ação imediata. “Fui ao SUS atualizar meu cadastro, e não existe a opção ‘autista’ ainda”, critica. “Vocês precisam avançar rápido nesse assunto”, apela ao poder público.