CPI da Covid quer convocar Guedes para depor após recesso parlamentar

Ao Metrópoles, relator da CPI, Renan Calheiros, afirmou que é imprescindível ouvir Paulo Guedes e seu secretário, Adolfo Sachsida

atualizado 19/07/2021 7:25

Ministro da Economia, Paulo Guedes, da Saúde, Marcelo Queiroga, da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e o da Comunicação, Fábio Faria, falam com a imprensa após jantar do presidente Bolsonaro com empresáriosFábio Vieira/Metrópoles

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 planeja mirar no ministro da Economia, Paulo Guedes, na volta do recesso parlamentar, em agosto. Quatro senadores ouvidos pelo Metrópoles disseram inclusive que irão pedir a convocação do ministro para que ele dê explicações sobrea pasta não levar em conta medidas de combate à pandemia no planejamento da economia do país.

A decisão ocorre após a comissão receber na última semana um documento assinado pelo secretário de Política Econômica (SPE), Adolfo Sachsida, no qual ele admite que não consultou o Ministério da Saúde sobre a situação da pandemia para planejar a economia do país em 2021, como a compra de vacinas e a extensão do auxílio emergencial.

Ou seja, todo planejamento financeiro do país foi feito sem considerar a existência de uma segunda onda da doença. A pandemia já matou 539.050 pessoas no Brasil. Como revelou o Metrópoles, Sachsida também deve ser convocado a dar explicações à CPI.

Ao Metrópoles, o relator da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL), disse que a convocação do ministro da Economia “é inevitável”. “É uma providência natural que a CPI convoque Guedes. A falta de planejamento é, na verdade, uma consequência do agravamento da pandemia no Brasil. É importante convidá-lo para resolver efetivamente o problema do ponto de vista orçamentário.”

A pasta, contudo, não pode ser responsabilizada, na avaliação de Renan, pela demora do país na compra dos imunizantes. Essa é uma culpa, segundo o senador, exclusiva do presidente Jair Bolsonaro. “O Congresso disponibilizou um crédito de R$ 20 bilhões para a compra de imunizantes, mas Bolsonaro duvidava da eficácia deles e não os comprou na hora certa, agravando o número de mortes”, afirmou.

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Vice-presidente da CPI, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), concorda sobre a necessidade de ouvir Paulo Guedes. Segundo ele, o relatório assinado pela Economia é um dos documentos mais preocupantes recebidos pela comissão até agora.

“Isso explica porque o governo não planejou a continuidade do auxílio emergencial na virada do ano”, disse Randolfe ao Metrópoles.

No ofício, Sachsida afirmou que a Economia apostou na tese de imunidade de rebanho – quando uma porcentagem muito elevada da população adquire anticorpos contra a doença, e isso ajudaria a fazer com que a disseminação do vírus caísse consideravelmente – para considerar que a pandemia estaria arrefecendo. Ele admite que a Economia não consultou o Ministério da Saúde para chegar a essa conclusão.

Até o momento, a CPI já contabiliza dois requerimentos de convocação de Paulo Guedes. Os pedidos partiram dos senadores Randolfe Rodrigues e Humberto Costa (PT-PE), além de um pedido para convocar Sachsida.

“Particularmente, o PLOA 2021 não destinou R$ 1 sequer para o combate à pandemia no Ministério da Saúde. Mesmo com recrudescimento da pandemia, só houve repasses de saúde aos entes para enfrentamento ao coronavírus em abril de 2021, com recursos oriundos de Medida Provisória”, justificou o petista.

Diante disso, o senador considerou como ” fundamental que esta Comissão possa ouvir o ministro Paulo Guedes, tendo em vista o papel do Ministério da Economia na coordenação da elaboração do orçamento público”, afirmou.

No diagnóstico da senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), as investigações da CPI apontam que não faltou dinheiro para a compra de vacina, mas houve “negligência”. “Guedes pode ser convocado a partir da conversa com o secretário (Sachsida). A possibilidade existe com toda certeza, porque teve falta de iniciativa para a compra de vacina”, afirmou ao Metrópoles.

Sachsida é braço direito de Guedes. No governo, ele é responsável pela formação da política econômica do país. Assim como Bolsonaro, Guedes tem sido crítico da CPI da Covid. Em maio, o ministro comparou, em entrevista ao jornal O Globo, a comissão a um “tribunal de guerra” instalado durante “a guerra contra o vírus”. “Subir em cadáveres para fazer política numa hora dessas. Acho que a população brasileira não vai apreciar isso”, avaliou.

O ministro também deu diversas declarações decretando o fim da pandemia. “A doença está descendo, a economia está voltando, está voltando em V. A criação de empregos está se dando em ritmo bastante impressionante”, disse Guedes em outubro de 2020. A previsão não se concretizou e as mortes de lá para cá cresceram sucessivamente.

Guedes só calibrou o discurso um dia após a instalação da CPI. “Todo mundo achou que a pandemia estava indo embora. Não adianta atacar só o governo federal. Estamos juntos nessa batalha. Não é hora de jogar pedra nos outros”, justificou na ocasião.

No total, a Economia já enviou seis ofícios à CPI da Covid, um sinal de que a pasta virou peça importante nos trabalhos da comissão.

Procurado pelo Metrópoles, a pasta afirmou que não irá se manifestar sobre o assunto.

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