“É muito difícil, não cicatriza”, diz viúva de músico morto por militares em ação com 257 tiros

Pela quarta vez este ano, Luciana Nogueira vive a expectativa do julgamento dos assassinos do marido, o músico Evaldo dos Santos Rosa

atualizado 13/10/2021 9:57

Luciana, Davizinho e EvaldoÁlbum de Família

Rio de Janeiro – Pela quarta vez neste ano, Luciana dos Santos Nogueira, de 43 anos, se prepara para o momento em que a 1ª Auditoria da 1ª Circunscrição Judiciária Militar (CJM) deve proferir a sentença contra os militares acusados de matar seu marido, o músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos. Ele seguia com a família para um chá de bebê quando seu carro foi alvo de 257 tiros de fuzil e pistola.

O caso aconteceu em 7 de abril de 2019, na Estrada do Camboatá, em Guadalupe, na zona norte do Rio. Ao todo, 62 das balas atingiram o veículo, matando o motorista e ferindo seu sogro de raspão nas costas e no glúteo direito. A investigação aponta que 12 militares fizeram os disparos, mas o julgamento acabou adiado três vezes: o último adiamento se deu de 14/9 para esta quarta-feira (13/10). O primeiro julgamento estava marcado para 7 de abril, dois anos após o crime, mas foi remarcado para 7 de julho, data também postergada.

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“Mais uma vez essa angústia na véspera, esse sentimento de dúvida, essa expectativa de que não haverá impunidade e de que nosso sofrimento será respeitado com a punição de quem tirou a vida do meu marido sem motivo. Estou dormindo com ajuda de remédio, tentando me controlar para não ficar ainda pior do que já me sinto com toda essa história”, revela Luciana, em entrevista ao Metrópoles.

Nesta terça-feira, Luciana conta que procurou focar no bem-estar do filho, David, que assistiu ao pai ser alvejado e morto. “Desde que tudo aconteceu, é muito difícil pra ele, que era muito apegado ao pai. Então, nessas datas, ele fica quieto, tenta se isolar, rejeita qualquer contato com outras pessoas ou programas que o façam sair de casa”, lamenta a viúva do músico, que recebe apoio das professoras do menino para ajudá-lo a transformar o trauma em superação.

Para Luciana, o maior medo é chegar ao tribunal nesta quarta e receber a notícia de um novo adiamento ou ver os algozes do marido serem absolvidos do crime. No mesmo processo, os militares também respondem pela morte do catador de latinhas Luciano Macedo, que passava pelo local a pé, empurrando um carrinho de mão, e tentou socorrer as vítimas. Os documentos mostram ainda que somente o tenente Ítalo da Silva Nunes Romualdo, que comandava a ação, teria disparado 77 vezes.

“Eu nunca mais vou esquecer daquele momento todo, até porque sou obrigada a revivê-lo a cada agendamento e adiamento de audiência. E tudo começa de novo, e todo o progresso do meu filho fica comprometido, porque voltam os questionamentos na cabecinha dele, que não entende o motivo de tantos tiros se o pai chegou a reduzir a velocidade para passar por um quebra-molas. É realmente muito difícil, não cicatriza”, desabafa.

O que vale, segundo a viúva, é a corrente do bem que se formou ao redor de sua família, que recebe carinho e positividade diariamente. A essas pessoas, Luciana agradece: “Eu agradeço a todos os que vêm lutando junto comigo, aos que trabalham para não deixar o caso cair em esquecimento, aqueles que me respeitam como os militares e a Justiça não fazem com tantas remarcações de datas. E peço que continuem torcendo por mim. Precisamos de um fim”, completa.

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