“Estão prolongando meu sofrimento”, diz esposa de músico morto por militares

Julgamento do caso de Evaldo Rosa, morto em 2019 no carro em que estava com a família, acabou adiado pela 3ª vez. Foram disparados 257 tiros

atualizado 15/09/2021 7:44

Rio de Janeiro – O músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, levava a família para um chá de bebê quando, ao reduzir a velocidade para passar por um quebra-molas na Estrada do Camboatá, em Guadalupe, na zona norte do Rio, foi alvo de 257 tiros de fuzil e de pistola naquele 7 de abril de 2019 – 62 deles atingiram o veículo, matando o motorista e ferindo seu sogro de raspão nas costas e no glúteo direito.

“As cenas daquele dia nunca mais vão sair da minha cabeça. Eu ainda pedi ajuda aos militares, não imaginava que os tiros estavam vindo dali. É uma loucura, uma inversão dos valores. O certo vira errado e o errado faz de tudo para estar certo, que tentam nos obrigar a aceitar. Esse julgamento, que toda hora dão uma desculpa para adiar e a Justiça aceita, só me agride mais. Cada adiamento é mais um tiro na minha família”, desabafa Luciana dos Santos Nogueira, 43, em entrevista ao Metrópoles.

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A viúva de Duda, como chamava o marido assassinado, se refere ao julgamento dos 12 militares acusados de efetuarem os disparos, adiado pela terceira vez nesta terça-feira (14/9) – a audiência seria realizada nesta quarta-feira. O primeiro julgamento estava marcado para 7 de abril, exatos dois anos após o crime. Mas foi remarcado, em seguida, para 7 de julho, data também postergada.

A justificativa: o pedido de suspensão feito pelo defensor dos réus, Paulo Henrique Pinto de Mello, que afirma ser do grupo de risco para a Covid-19 e “estar em tratamento fonoaudiólogo em decorrência de sequelas deixadas pela doença”. Ele ainda alegou que não tomou ainda a segunda dose da vacina.

“Eu me sinto desrespeitada diariamente. Com a certeza de que não sou vista, reconhecida como pessoa, de ser mais uma mulher pobre, com um filho traumatizado por ter visto o pai morrer daquela forma, e que não consegue sequer a empatia dos envolvidos para que o caso tenha um desfecho e a gente possa, ao menos, dizer que o caso teve um fim”, reclama.

A dor do filho

O pequeno Davi, hoje com 9 anos, diz que lembra do horror que passou e faz apenas um questionamento que, segundo a mãe, é uma pergunta muito difícil de responder: “Por que o papai levou tanto tiro se ele estava devagar e não desobedeceu ninguém?”, diz. “Agora, temos que aguardar até o dia 13 do próximo mês, para ver qual será a nova desculpa que eles vão dar para prolongar ainda mais meu sofrimento”.

Os tiros também acertaram quem tentou ajudar a família. O catador de latinhas Luciano Macedo, que passava pelo local a pé, empurrando um carrinho de mão, tentou socorrer as vítimas. Ele acabou atingido e não resistiu aos ferimentos. As investigações apontam ainda que somente o tenente Ítalo da Silva Nunes Romualdo, que comandava a ação, teria disparado 77 vezes.

A decisão de remarcar a sessão foi confirmada em despacho da juíza substituta Mariana Aquino, da 1ª Auditoria da 1ª Circunscrição Judiciária Militar (CJM). A nova data é 13 de outubro, às 9h. “Vamos aguardar mais uma vez. Precisamos de uma solução, um sim ou não, uma resposta, seja ela qual for”, defende a viúva.

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