Carta em que Bruno pediu para sair da Funai fala em “clima de tensão”

Em documento obtido pelo Metrópoles, indigenista relatou a fragilidade do órgão, sobretudo diante do quadro defasado de funcionários

atualizado 27/07/2022 9:13

Indigenista Bruno Araújo Pereira Funai/Arquivo/Divulgação

Como justificativas para seu pedido de licença da Fundação Nacional do Índio (Funai), em dezembro de 2019, o indigenista Bruno da Cunha Araújo Pereira relatou um clima de tensão e de fragilidade no órgão, além de ter citado a necessidade de cuidar de sua família. O Metrópoles teve acesso ao memorando por meio do qual o indigenista pleiteou afastamento do órgão.

A licença foi solicitada logo após Bruno Pereira ser exonerado da função de coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Diretoria de Proteção Territorial da Funai. Assinada pelo então secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Pontel de Souza, a dispensa ocorreu em outubro de 2019.

A decisão ocorreu também na esteira do assassinato do indigenista Maxciel Pereira, em setembro de 2019, e de ataques a uma base da Funai no Vale do Javari.

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Cerca de dois anos e meio depois, o indigenista e o jornalista inglês Dom Phillips foram assassinados durante uma viagem ao Vale do Javari. O crime ocorreu no último dia 5 de junho. O Ministério Público Federal (MPF) denunciou três homens pelos homicídios.

Zelo pela família e tensão no Vale do Javari

No memorando, Bruno Pereira afirma que a solicitação é “motivada pela necessidade deste servidor, sobretudo para poder dar suporte e zelar por sua família”.

Na ocasião, o indigenista era pai de duas crianças, uma de 14 anos – que morava com a mãe, em Manaus (AM) – e outra de 16 meses. Ele esperava uma terceira filha – a segunda criança fruto da relação com Beatriz Matos.

“A iminência do nascimento do seu segundo filho, a idade tenra no filho mais velho (16 meses) e a ausência de outros familiares (avós, avôs, tios, prima e primos) por perto, que possam ajudar o casal nessa missão de cuidar e educar seus filhos na presença de ambos os pais, foram fatores preponderantes para decisão do servidor e de sua companheira”, escreveu o servidor.

Segundo Bruno, o tipo de trabalho executado por ele exigia a permanência em campo durante longos períodos, com comunicação rarefeita com a família.

“Mais recentemente, o clima de tensão imposta aos servidores pelo assassinato do colaborador da FPEVJ [Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari], Maxciel Pereira, em setembro 2019, e os ataques consecutivos com arma de fogo contra a estrutura da Bape [Base de Proteção Etnoambiental] Ituí tornaram ainda mais tensas e ansiosas as perspectivas de trabalho e vida do servidor e sua família”, acrescentou ele.

Diante dessas circunstâncias, o casal decidiu estar o mais junto possível na primeira infância dos filhos.

O indigenista destacou também a fragilidade do órgão, “com o seu defasado quadro de servidores”.

Confira a seguir a íntegra do memorando, obtido pelo Metrópoles:

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