Delator acusa Bretas de negociar penas e influenciar eleições no RJ

Advogado Nythalmar Dias ainda acusa o juiz de fazer manobra para tirar Gilmar Mendes do cargo de relator da Lava Jato no Rio de Janeiro

atualizado 04/06/2021 10:44

MARCOS ARCOVERDE/ESTADAO CONTEUDO/AE

Em delação premiada, o advogado criminalista Nythalmar Dias Ferreira Filho acusou o juiz Marcelo Bretas, responsável pelos processos da Lava Jato no Rio de Janeiro, de negociar penas, orientar advogados, investigar, combinar estratégias com o Ministério Público, direcionar acordos, pressionar investigados, manobrar processos e de ter tentado até influenciar eleições.

Na delação, obtida pela revista Veja nesta sexta-feira (4/6), Nythalmar diz ter a gravação de uma conversa entre ele, o juiz e um procurador da República encarregado da Lava Jato em 2017 que provaria as acusações.

No áudio, os três falavam sobre possíveis estratégias para convencer o empresário Fernando Cavendish, ex-dono da Delta Construtora, a confessar seus crimes. Na época, Nythalmar representava Cavendish.

“Você pode falar que conversei com ele, com o Leo, que fizemos uma videoconferência lá, e o procurador me garantiu que aqui mantém o interesse, aqui não vai embarreirar”, diz Bretas. Leo é o procurador Leonardo Cardoso de Freitas, que coordenava a Lava Jato no Rio de Janeiro na época.

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“E aí, deixa comigo também que eu vou aliviar. Não vou botar 43 anos no cara. O cara está assustado com os 43 anos”, afirma o juiz. Bretas se referia ao medo que se espalhou entre os investigados em relação à operação quando ele condenou o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, ex-presidente da Eletronuclear, a 43 anos de prisão.

A estratégia funcionou e Cavendish assinou um acordo de delação premiada, na qual confessou o pagamento de cerca de R$ 370 milhões em propina a vários políticos em troca de responder em liberdade ao processo.

A lei, no entanto, proíbe que julgadores se aliem a acusadores ou advogados para obter um determinado resultado.

“O diálogo demonstra claramente que o juiz não só tinha ciência das colaborações antes de serem fechadas, bem como participava, negociava e intermediava com a ciência, participação e cooperação do MPF nas investigações, fato este gravíssimo”, diz Nythalmar.

O delator também acusa Bretas de intermediar um acordo informal com o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, no qual garantia não investigar por corrupção a esposa do político, Adriana Ancelmo.

Manobra contra Gilmar Mendes

Nythalmar ainda afirma que Bretas e os procuradores da Lava Jato se uniram na tentativa de retirar Gilmar Mendes de seu cargo como relator dos casos da operação que envolviam o Rio de Janeiro. A estratégia era apontar um elo entre o investigado Paulo Preto, ex-presidente da empresa Dersa e acusado de ser operador financeiro do PSDB, e Mendes, que tem ligações históricas com o partido.

Assim, o grupo tentou transferir a investigação do Rio de Janeiro para São Paulo, o que seria usado como argumento para a escolha de um novo relator do caso. A intenção da estratégia era abrir “caminho, na visão deles, para a Lava Jato de São Paulo ocorrer no Rio de Janeiro com mais tranquilidade, sem ser tolhida ou vigiada pelo ministro Gilmar Mendes”.

Nythalmar garante que pode mostrar mensagens entre ele e Bretas que provam ponto a ponto a manobra.

Apoio a Wilson Witzel

O delator afirma que Marcelo Bretas vazou deliberadamente o depoimento de um ex-assessor de Eduardo Paes (PSD), atual prefeito do Rio de Janeiro, na véspera do primeiro turno das eleições, acusando o candidato de envolvimento em fraude de licitações e recebimento de propina.

A manobra seria uma tentativa de prejudicar Paes, principal adversário de Wilson Witzel (PSC) na disputa pelo cargo de prefeito do Rio de Janeiro.

Nythalmar garante ter escutado Bretas afirmar que nutria antipatia pelo atual prefeito e que “foi importante que a população fluminense soubesse quem era Eduardo Paes antes da eleição”.

Paes ainda teria feito um acordo com Bretas para que, caso fosse eleito, nomeasse uma irmã do juiz para uma secretaria. Quando perdeu a eleição, segundo o delator, Eduardo Paes fez um acordo informal com Marcelo Bretas no qual garantia abandonar a política “em troca de não ser perseguido”.

Se a delação for homologada pela Justiça e as revelações forem provadas, é possível que o braço carioca da Lava Jato tenha o mesmo destino que a operação teve em Curitiba, onde foi posta em xeque após acusações contra o ex-juiz Sergio Moro.

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