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Enquanto o cidadão comum sofria com o desabastecimento de gasolina e gás de cozinha durante a greve dos caminhoneiros, uma comitiva de dez integrantes do Ministério das Relações Exteriores (MRE) se hospedou em hotéis com até 7 estrelas. A viagem da equipe do ministro Aloysio Nunes, que incluiu a mulher do titular da pasta, a jornalista Gisele Sayeg, gastou R$ 279,7 mil com estadia e passagens aéreas em viagens oficiais à Ásia, entre 2 e 25 de maio.

Além desses gastos, um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) levou o chanceler e os diplomatas brasileiros em 17 trechos na mesma missão. Segundo os registros da FAB (veja todas as viagens na tabela abaixo), a comitiva incluiu mais três dias até o retorno em Guarulhos no dia 28 de maio e outros destinos na Europa (Portugal), África (Cabo Verde) e nos Estados Unidos (Anchorage, Denver e Fort Lauderdale). 

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Só com hospedagem, a missão gerou gastos de U$$ 54.057,89, (em média R$ 210 mil). As passagens dos servidores do Itamaraty custaram ao contribuinte US$ 17.872,79 mil, ou cerca de R$ 69,700 mil, além dos custos com o avião da FAB. Os dados foram obtidos pelo Metrópoles via Lei de Acesso à Informação (leia também a íntegra da resposta enviada pelo MRE).

De acordo com o Itamaraty, os bilhetes foram emitidos em classe econômica pelas companhias Latam, Singapore Airlines, Gol, Lufthansa, Emirates, Thai Airways, Vietnam Airlines, All Nippon Airways, China Eastern, Air France, Korean Air e Air China. Mas, no registro da FAB, a previsão de número de passageiros, 10 pessoas, é a mesma dos integrantes da equipe listados na resposta por meio da Lei de Acesso à Informação. 

“O périplo por sete países da Ásia (China, Coreia do Sul, Indonésia, Japão, Singapura, Tailândia e Vietnã) visou explorar o enorme potencial inexplorado nas relações do Brasil com a região”, ressaltou o órgão. Ainda segundo a assessoria, a viagem “busca recuperar o tempo perdido, colocando a Ásia no centro da política externa brasileira”.

Para executar a tarefa oficial, a equipe ficou acomodada em hotéis 5 estrelas e um deles de 7, o Wanda Reign Xangai, o primeiro da categoria na região. 

“Ao entrar no saguão, os visitantes atravessam os pisos incrustados de jade inspirados na Art Déco em direção a uma pintura abstrata do renomado artista contemporâneo chinês Shi Qi. Grandes colunas de mármore se estendem até um teto de 10 metros de altura”, descreve a CNN Travel. As diárias custam de R$ 368 a R$ 1.429 (com base nas tarifas médias de quartos standard, segundo o Tripadvisor).

Também estiveram no Shangri-la, em Singapura, eleito um dos melhores do mundo no Readers’ Choice Awards: The 50 Best Hotels in the World – 29th, Condé Nast Traveler, 2016 (Prêmio de Escolha dos Leitores: os 50 melhores hotéis do mundo 29th, Condé Nast Traveler). “Este lugar é onde você encontrará seu próprio Shangri-La”, promete a descrição do estabelecimento. Os preços variam entre R$ 914 e R$ 1.793 (com base nas tarifas médias de quartos standard).

Em Bangkok, o escolhido foi o The Sukhothai, descrito por hóspedes como “um palácio na região mais nobre de Bangkok”. Entre os luxos do hotel, está um bufê com 20 tipos de chocolates finos, feitos com “os melhores cacaus do mundo”, toda sexta-feira. Para dormir na suntuosa estrutura, é preciso desembolsar, por noite, de R$ 368 a R$ 1.429 (com base nas tarifas médias de quartos standard).

O Mandarin Oriental de Jakarta, na Indonésia, também recebeu os hóspedes brasileiros. “Dias podem ser passados entre a piscina ao ar livre do quinto andar, o spa chique e a sofisticada área de jantar visitada por presidentes e autoridades quando vão à capital da Indonésia”, descreve o jornal The Telegraph, em uma resenha sobre o local.

O St Regis, reservado em Pequim, segue o mesmo padrão. Tem spa, piscina interna e externa, sauna, área de boliche, quadra de basquete, centro fitness, jacuzzi e uma carta variada de serviços. A faixa de preço é de R$ 771 a R$ 1.119 (com base nas tarifas médias de quartos standard).

Em Tóquio, eles ficaram no Ana Intercontinental, com diárias de R$ 844 a R$ 1.847. A propriedade venceu o respeitado prêmio Haute Grandeur como melhor hotel de negócios do continente e “em estilo de vida” no Japão. O World Travel Awards também já agraciou o endereço escolhido pelo ministro e esposa para passar essa temporada.

O Lotte, em Seoul, “é uma atração turística à parte, até de dentro dos elevadores você repara na sofisticação e preocupação dos mínimos detalhes. Existe uma conexão entre o hotel e o shopping do mesmo nome”, como descreve um hóspede no Tripadvisor. A noite sai entre R$ 805 e R$ 1.228 (com base nas tarifas médias de quartos standard).

O grupo percorreu sete países asiáticos para “reafirmar o pleno engajamento do Brasil com tradicionais parceiros que se convertem, cada dia mais, em importantes atores na região mais dinâmica da economia mundial”, como informou a assessoria de imprensa. 

Por telefone, a assessoria de comunicação do Itamaraty alegou, em primeiro contato, que o ministro e Gisele Sayeg viajaram em avião da Força Aérea Brasileira (FAB) e, por isso, não houve custos ao Estado. Informou na mesma ocasião que a presença da jornalista não criou despesas extras ao governo federal com hospedagem, pois ela dividiu quartos com o marido.

“A participação da Senhora Gisele Sayeg na viagem não gerou custo para o Erário, e não há impedimento legal à sua participação neste caso. Os hotéis são compatíveis com o nível de representação de uma visita ministerial”, afirmou o MRE em nota oficial.

Agenda do ministro
Durante a viagem à Ásia, Aloysio Nunes encontrou-se com diversas lideranças políticas. Discutiu assuntos relacionados a comércio exterior, vistos de viagem, saúde, ciência e tecnologia.

Arthur Max Oliveira / MRE

O ministro Aloysio Nunes em viagem à Tailândia

Nunes firmou acordos, tratou de temas relacionados à propriedade intelectual e ambientais, como a preservação de três espécies remanescentes de araras-azuis nativas do Brasil – Spix, Lear e Grande – abrigadas no Jurong Bird Park, em Singapura.

Na Tailândia, o ministro fez uma “visita de cortesia” ao primeiro-ministro Prayuth Chan-Ocha, que liderou um golpe militar de estado no país, em 2014, e está no poder desde então.

Presença polêmica
Levar a (o) cônjuge a viagens oficiais costuma gerar conflitos dentro do governo. Em maio de 2016, o diretor do Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita, pediu demissão após o ministro Ricardo Barros levar a mulher, Cida Borghetti, em uma viagem de trabalho à Suíça.

Mesquita questionava a ausência de técnicos na comitiva. À época, Barros afirmou que Cida arcou com as próprias despesas, sem uso de dinheiro público.

  • Leia aqui a íntegra da resposta do Itamaraty ao pedido via Lei de Acesso à Informação:

Prezada cidadã,

Em resposta a seu pedido, informamos que o Ministro Aloysio Nunes Ferreira realizou missão oficial a sete países asiáticos no mês de maio de 2018. Integraram a comitiva o Sr. Aloysio Nunes Ferreira, Ministro de Estado das Relações Exteriores; a Sra. Gisele Sayeg, esposa do Ministro de Estado; o Embaixador Henrique Sardinha, Subsecretário-Geral da Ásia e do Pacífico; o Embaixador Tarcísio Costa, Chefe da Assessoria de Imprensa; o Embaixador Eduardo Saboia, Chefe de Gabinete do Ministro de Estado; a Sra. Ana Lobato, assessora do Gabinete; a Ministra Maria Izabel Vieira, Diretora do Departamento da Ásia do Leste; o Conselheiro Heitor Granafei, assessor de imprensa; o Conselheiro Ronaldo Amaral, introdutor diplomático; o Segundo Secretário Bruno Oliveira, assessor de imprensa; e o Oficial de Chancelaria Arthur Max Oliveira, fotógrafo da Assessoria de Imprensa.

O valor total em passagens aéreas dos servidores da comitiva foi de US$ 17.872,79. Foram emitidos bilhetes em classe econômica pelas companhias Latam, Singapore Airlines, Gol, Lufthansa, Emirates, Thai Airways, Vietnam Airlines, All Nippon Airways, China Eastern, Air France, Korean Air, Air China. Em hospedagem, o total foi de US$ 54.057,89. A comitiva hospedou-se nos hotéis Shangri-la, em Singapura; Sukhotai, em Bangkok; Mandarin Oriental, em Jacarta; St. Regis, em Pequim; Ana Intercontinental, em Tóquio; Wanda Reign, em Xangai; Lotte, em Seul. A comitiva acompanhou a mesma agenda do senhor Ministro de Estado, com exceção de Pequim, cidade onde foi necessário que três dos assessores chegassem com antecedência de um dia (Embaixador Tarcísio Costa, Embaixador Eduardo Saboia e Secretário Bruno Oliveira).

Nos termos do art. 21 do Decreto nº 7.724, de 16 de maio de 2012, eventual recurso sobre esta resposta deve ser dirigido ao Chefe de Gabinete do Ministro de Estado, no prazo de 10 dias, a contar da data desta decisão.

Atenciosamente,

Assessoria de Imprensa do Gabinete (AIG)

Gabinete do Ministro de Estado (G)

Ministério das Relações Exteriores (MRE)

  • Veja aqui a nota enviada pela Assessoria de Imprensa do MRE:

Prezada Senhora,

A participação da Senhora Gisele Sayeg na viagem não gerou custo para o Erário, e não há impedimento legal à sua participação neste caso.

Os hotéis são compatíveis com o nível de representação de uma visita ministerial.

O périplo por sete países da Ásia (China, Coreia do Sul, Indonésia, Japão, Singapura, Tailândia e Vietnã) visou a explorar o enorme potencial inexplorado nas relações do Brasil com a região. A viagem busca recuperar o tempo perdido, colocando a Ásia no centro da política externa brasileira. Há várias oportunidades na região como um todo, em particular o sudeste asiático. Um Brasil competitivo, inserido nas cadeias globais de valor, com uma forte base na economia do conhecimento, passa obrigatoriamente por um aprofundamento das relações com a Ásia e o aproveitamento das oportunidades econômico-comerciais e tecnológicas que o continente oferece. Já são conhecidos os volumes de nosso comércio com China (1o parceiro do Brasil), Japão (6o parceiro) ou Coreia do Sul (9o parceiro). Menos conhecido do público é o potencial da aproximação com membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), bloco formado por dez países. Em conjunto, a ASEAN foi, em 2017, o 4º principal parceiro do Brasil (intercâmbio de US$ 18,5 bilhões).

Exemplo da volta do Brasil ao jogo global foi o lançamento, em Seul, das negociações do acordo Mercosul-Coreia do Sul, que ajudará a ampliar as relações com um grande investidor no Brasil. No Japão, foi nítido o interesse da confederação empresarial KEIDANREN em um futuro acordo com o MERCOSUL e no relacionamento mais estreito com o Brasil.
Durante a visita, o Ministro levou a mensagem de que o Brasil oferece condições propícias para o comércio e os investimentos. A visita também se integra na estratégia de abertura de novas frentes negociadoras do Mercosul, com o objetivo de tornar-se plataforma para a inserção competitiva de seus membros na economia global, e atrair investimentos de empresas asiáticas. O Ministro transmitiu estas mensagens nos diversos encontros que manteve com autoridades e empresários nos sete países visitados.

Os governos e comunidades empresariais com os quais o Ministro Aloyiso Nunes Ferreira teve contato demonstraram enorme interesse nas relações com o Brasil e o MERCOSUL. Empresários japoneses, sul-coreanos, chineses e singapurenses com os quais o Ministro conversou manifestaram confiança na economia brasileira e disposição concreta de fazer investimentos de longo prazo no Brasil.

Em Singapura, foi assinado um acordo para eliminar dupla tributação, o que é fundamental, pois parte significativa das exportações brasileiras com esse país são do tipo intra-firma, e de alto valor agregado. O Ministro também teve reuniões com fundos de investimento sobre a ampliação de seus portfolios, não apenas em setores tradicionais, como infraestrutura, mas também em empresas inovadoras. Instrumentos sobre cooperação técnica e isenção de vistos foram firmados em Jacarta. Em Hanói, estabelecemos colaboração no treinamento diplomático e entre centros de estudos. Em Bangkok, a ênfase foi no comércio agrícola e cooperação em defesa. Em todos os países, foram exploradas oportunidades de cooperação em áreas prioritárias para o desenvolvimento nacional, tais como ciência, tecnologia, inovação e educação. A região oferece imenso reservatório de boas práticas que podem ser aproveitadas nessas e outras áreas.

Atenciosamente,
Assessoria de Imprensa
Ministério das Relações Exteriores

 

 

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