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Brasil

Coaf aponta operação suspeita entre empresas responsáveis por filme de Bolsonaro

PF também apontou "divergência contábil severa" em recursos de produtora e quer esclarecer o caminho do dinheiro destinado à produção

16/10/2026 20:59, atualizado 16/10/2026 21:00
Arte/Metrópoles
Go Up Entertainment

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) recebeu um alerta sobre uma operação suspeita envolvendo duas empresas responsáveis pela produção de Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A Polícia Federal, que investiga o financiamento do longa, também apontou uma “divergência contábil severa” entre o dinheiro enviado a um fundo nos Estados Unidos e os valores com entrada documentada na produtora brasileira.

Segundo documentos enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF), a comunicação ao Coaf foi feita pelo Braza Bank e envolve o recebimento de R$ 975,6 mil pela Go Up Entertainment Ltda., no Brasil, da Go Up Entertainment LLC, sediada nos Estados Unidos. A Go Up é a produtora responsável pelo filme de Bolsonaro.

O relatório não reproduz a justificativa específica apresentada pelo Braza Bank para classificar a operação como suspeita. A instituição, porém, destacou as condições do empréstimo ao comunicar as movimentações ao Coaf. A operação teria ocorrido no período entre 18 de junho de 2025 e 10 de agosto de 2026.

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A PF afirma que a produtora brasileira apresentou um contrato de empréstimo de US$ 920 mil para justificar o recebimento. O banco informou que o acordo previa pagamento em 730 dias, aproximadamente dois anos, com possibilidade de prorrogação e sem cobrança de juros ou multas.

Os investigadores suspeitam que esse mesmo contrato possa ter sido utilizado para justificar outros recebimentos da produtora brasileira. A hipótese surgiu do cruzamento das informações do Braza Bank com 20 contratos de câmbio entregues pela própria Go Up à investigação.

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Esses documentos registram remessas da empresa americana à brasileira que somaram US$ 2,8 milhões, equivalentes a R$ 14,8 milhões. As operações foram realizadas por outro banco de câmbio, a Moneycorp, entre junho de 2025 e abril de 2026, com depósitos em duas contas da produtora no BTG Pactual.

Embora o total recebido tenha alcançado US$ 2,8 milhões, os documentos também fazem referência a empréstimos de US$ 920 mil — o mesmo valor do contrato apresentado ao Braza Bank.

“É possível que se trate do mesmo contrato utilizado nas operações de câmbio, ou pelo menos em alguma operação de câmbio, feitas pela Moneycorp”, afirma o relatório.

A polícia também encontrou divergências que impedem esclarecer quantos empréstimos foram firmados entre as empresas. Os contratos de câmbio mencionam quatro datas diferentes de assinatura dos acordos, enquanto outros três não informam essa data.

“Não é possível afirmar, com as informações colhidas até o momento, sobre o motivo das diferenças entre as datas e sobre qual a quantidade de contratos firmados”, diz a PF.

Nessa quinta-feira (15/10), mesmo dia em que pediu ao ministro do STF André Mendonça mais 90 dias para concluir as investigações, a PF determinou que a produtora seja oficiada para apresentar os contratos completos e seus aditivos, no prazo de dez dias.

Os investigadores cobram uma explicação para “o fundamento contratual para o ingresso de USD 2.817.149,35, montante cerca de três vezes superior ao mútuo de USD 920.000,00”.

A documentação também deixou uma lacuna sobre a origem do dinheiro. Segundo a PF, os contratos não permitem identificar as contas bancárias de onde saíram os recursos remetidos pela companhia americana.

O inquérito sobre o filme Dark Horse foi aberto em julho, por determinação de André Mendonça. A apuração reúne mensagens e documentos encontrados no celular de Daniel Vorcaro, incluindo um acordo que previa investimento de US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões, na produção.

Segundo a PF, mensagens e áudios atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL) indicam sua participação na cobrança e no acompanhamento dos aportes. Flávio é investigado no caso. O inquérito apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e organização criminosa relacionadas ao financiamento do longa.

Divergência “severa”

A origem desses recursos é uma das questões que a PF tenta esclarecer ao apontar uma “divergência contábil severa” no financiamento do filme.

Segundo os investigadores, a Entre Investimentos e Participações, ligada ao empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, enviou US$ 12,33 milhões ao fundo Havengate Development Fund LP, no Texas, por ordem de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

As sete remessas, feitas entre fevereiro e setembro de 2025, seguiram valores e um cronograma compatíveis com o acordo de financiamento do longa encontrado no celular do banqueiro. Os contratos apresentados pela Go Up brasileira, porém, comprovam o ingresso no país de US$ 2,8 milhões.

A polícia quer reconstruir o caminho entre essas duas etapas: verificar se o dinheiro enviado ao Havengate foi transferido às empresas responsáveis pelo filme e confrontar os valores com as despesas declaradas pela produção. A Go Up apresentou um laudo privado no qual afirma ter gasto R$ 54,2 milhões diretamente no exterior, quantia cuja comprovação também será examinada.

Segundo a PF, a investigação busca esclarecer se os recursos remetidos ao fundo custearam o longa “ou se a produção serviu como narrativa de cobertura para a ocultação, simulação e desvio de recursos”.

“Torna-se, portanto, indispensável submeter todo o acervo documental e bancário a um rigoroso exame pericial forense para confrontar os aportes internacionais, a contabilidade da produtora brasileira e o lastro das despesas declaradas”, afirma a polícia.