Bolsonaristas tentam retomar as ruas em dia tradicionalmente ligado à esquerda

Grupos promovem atos neste Dia do Trabalhador e caravanas até Brasília para pressionar por voto impresso e impeachment de ministros do STF

atualizado 01/05/2021 9:21

DANILO M YOSHIOKA/PERA PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Historicamente ligado a mobilizações de grupos identificados com a esquerda, este 1º de maio, Dia do Trabalhador, em meio à pandemia, marca uma tentativa da base de apoio mais fiel ao presidente Jair Bolsonaro de voltar às ruas. A mobilização busca tirar a pauta radical do ostracismo em um momento no qual o governo se vê às voltas com o pragmatismo imposto pelo Centrão.

Por todo o país, grupos e militantes de direita promovem manifestações de apoio a Bolsonaro, pela adoção do voto impresso e exigindo que sejam pautados pedidos de impeachment de ministros do STF.

Participam da mobilização ativistas mais radicais, que têm o lema “Eu autorizo, presidente” para pedir que Bolsonaro use as Forças Armadas para se defender do que acreditam ser um golpe orquestrado contra o governo por meio da CPI da Covid no Senado. Alguns grupos pedem abertamente uma intervenção militar com Bolsonaro no poder (na imagem em destaque, um ato em frente a um quartel onde o presidente esteve, em São Paulo, no dia 15 de abril).

Entre os militantes mais radicalizados, está o deputado federal Otoni de Paula (PSL-RJ), que chegou a prever uma “guerra civil” no Brasil em vídeo divulgado nas redes sociais.

Otoni, porém, é uma exceção como figura mais midiática na organização dos atos deste sábado (1º/5). Apesar de incomodados com concessões de Bolsonaro ao pragmatismo político, como a demissão do chanceler Ernesto Araújo, influenciadores mais célebres do bolsonarismo, como os ligados ao escritor Olavo de Carvalho, não estão mobilizados na divulgação.

Para o cientista político Guilherme Casarões, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), essa “submersão” do grupo mais radical dentro do governo resulta, em parte, do sucesso do cerco jurídico que levou, por exemplo, às prisões da extremista Sara “Winter” Giromini e, mais recentemente, do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ).

“É muito simbólico o fato de Filipe Martins [assessor da Presidência] estar quieto, sem se posicionar de maneira assertiva, como costumava fazer. Ele não foi demitido [após provocação gestual em evento no Senado], mas ficou silenciado”, afirma o cientista político, que faz parte do grupo de pesquisa Observatório da Extrema Direita com colegas de outras instituições.

Caminho sem volta?

Casarões avalia, porém, que não é possível prever uma decadência inevitável da influência do grupo radical. “Já tivemos outros momentos em que eles pareceram enfraquecidos, mas voltaram a ter importância. Me parece que eles estão taticamente submersos, até para tirar os holofotes de figuras que estão enfrentando processos”, avalia ele.

O deputado Otoni de Paula parece concordar com a avaliação, mas resolveu continuar desafiando o sistema. “Meu mandato está sob ameaça”, escreveu ele no Twitter na sexta (30/4). “Se for preso, será por que lutei e não por que roubei”, completou.

As dificuldades de mobilização

Sem a ajuda de boa parte das estrelas bolsonaristas, a tentativa de retomar as ruas está nas mãos de militantes sem tanta influência nas redes, o que parece estar dificultando um pouco a mobilização.

Além das manifestações deste sábado pelo país, bolsonaristas estão organizando caravanas saindo de todas as regiões rumo a Brasília. A ideia é fazer uma manifestação no próximo dia 5 de abril, e, para quem puder, permanecer em acampamento na capital federal até que as pautas (voto impresso, impeachment de ministros do STF…) prosperem.

O principal mobilizador das caravanas é o militante Pablo Verdolaga, que começou prometendo um movimento histórico há algumas semanas, mas intensificou nos últimos dias os apelos por adesão e por ajuda financeira para a realização do feito. Veja:

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E a pandemia?

Apesar de o negacionismo sobre a gravidade da pandemia ser uma das marcas deste bolsonarismo “raiz”, a comoção diante das mais de 400 mil mortes causadas pela Covid-19 preocupa os organizadores dos eventos de hoje.

Com participação confirmada no ato em São Paulo, apesar de também não ter se esforçado tanto na convocação, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) fechou postagem sobre sua atuação com um pedido: “Usem máscara e evitem aglomeração”.

Mesmo havendo uma porção mais negacionista de militantes, a pandemia impõe limites à capacidade de mobilização, ainda segundo o cientista político Guilherme Casarões. “Entre as erosões sofridas pelo movimento mais radical, estão pessoas que confiam no presidente, mas não se sentem motivadas a sair às ruas neste momento”, afirma ele.

Há, porém, mais fontes de erosão, na opinião do especialista.

“Os movimentos do próprio Bolsonaro pela radicalização afastam apoiadores mais moderados, que já estão meio saturados com parte da agenda, com o negacionismo diante da Covid, principalmente no caso dos idosos”, avalia ele, que vê também no contexto internacional uma maré menos propícia para a pauta mais radical.

“É uma das explicações para esse desaparecimento temporário dos olavistas. O momento político no Brasil e no mundo é pouco favorável ao discurso radical. Com a saída de Donald Trump da presidência americana, eles perderam a referência principal e precisam encarar, por exemplo, uma mudança no discurso ambiental do governo Bolsonaro para se adaptar às exigências de Joe Biden”, analisa Guilherme Casarões.

“Neste momento, o governo brasileiro não ganha nada nadando contra a maré. O comportamento do novo chanceler, Carlos França, que se reúne com o embaixador da China, que não tem redes sociais para prestar contas a esses apoiadores, que é bem mais pragmático, é um sinal claro disso”, conclui o pesquisador.

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