Agronegócio monitora impactos diante de prolongamento da guerra no Irã
Setor pode ter de lidar com elevação nos preços e dificuldades no abastecimento de insumos, como fertilizantes em meio a guerra
atualizado
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A guerra iniciada no último dia 28/2 deixa apreensivos agentes do agronegócio brasileiro. O conflito, que tem como protagonistas Irã, Israel e Estados Unidos, mostra potencial de desorganizar de maneira importante o sistema produtivo e comercial do campo brasileiro.
Um dos principais pontos pelos quais a guerra é uma ameaça ao agronegócio diz respeito aos entraves criados para a importação de insumos. Cerca de 80% desses itens essenciais à produção vêm de fora, explica o doutor em economia e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Edson Roberto Vieira.
Comércio com o Irã em 2025
- Conforme o site Comex do MDic, o Brasil exportou US$ 2,9 bilhões para o Irã no ano passado.
- O Irã teve participação de 0,84% nas exportações brasileiras, sendo o 31º maior cliente do Brasil.
- Já o Brasil importou US$ 84,6 milhões, o que contribuiu para que houvesse superávit de US$ 2,8 bilhões no comércio com o parceiro.
- 67,9% das exportações para o Irã foram referentes a milho não moído, exceto milho doce. Os outros itens mais bem posicionados foram soja (19,3%), açúcares e melaços (6,5%).
- Em relação às importações do Irã, 79% são adubos ou fertilizantes químicos (exceto fertilizantes brutos). O segundo dessa relação é frutas e nozes não oleaginosas, frescas ou secas (11,4%).
“O Oriente Médio é uma região estratégica na produção de fertilizantes nitrogenados, especialmente ureia e amônia, e o Irã figura entre os principais produtores mundiais de ureia, com presença relevante no comércio internacional desse insumo”, completa Vieira.
Um dos principais insumos importados pelo Brasil é a ureia, um fertilizante nitrogenado muito utilizado na agricultura por fornecer nitrogênio (N), nutriente essencial ao crescimento e desenvolvimento das plantas.
As dificuldades de desembarque de fertilizantes no Brasil têm relação com o fechamento do Estreito de Ormuz. O espaço integra uma das rotas marítimas mais importantes do globo terrestre, pois faz a ligação do Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico.
Monitoramento do site Portwatch, mantido por meio de uma parceria entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Universidade de Oxford, deixa clara a redução do tráfego de embarcações no local. Antes do início do conflito bélico, a média móvel diária de sete dias estava em torno de 100 embarcações. No último dia 8/3, o número havia caído para quatro.

Importações e exportações
O professor da UFG explica que a interrupção no tráfego pelo Estreito de Ormuz implica dificuldades à chegada ao país de ureia e enxofre, insumo fundamental para fertilizantes fosfatados.
“Do ponto de vista das exportações agrícolas brasileiras, o impacto tende a ser indireto, ocorrendo principalmente por meio do aumento dos custos de produção e de logística, e não necessariamente por restrições diretas à saída de produtos brasileiros para seus mercados compradores”, completa.
No último dia 5/3, o diretor do Departamento de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDic), Herlon Alves Brandão, afirmou que os principais produtos afetados pelo fechamento do estreito foram milho, carnes bovinas e de aves e açúcar.
“Sabemos que o maior destino do Brasil na região são os Emirados Árabes unidos. Os maiores portos dos Emirados Árabes estão dentro do Golfo Pérsico, então (o fechamento) pode afetar as rotas na medida em que os navios não consigam transitar por lá”, diz Brandão.
O Irã é o país que compra a maior parcela do milho brasileiro. Aproximadamente 20% da produção têm como destino o país. “Em termos de participação, o volume de 9,08 milhões de toneladas embarcadas para o Irã representaram cerca de 20% de toda a exportação brasileira de milho no ano passado”, afirma a Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho).
No momento, o agronegócio acompanha a situação, mas ainda não está no período de maior compra dos fertilizantes, o que implica, se o conflito tiver duração menor, possível redução dos efeitos sobre o setor.
A Abramilho afirma acompanhar o conflito e diz que o milho brasileiro é distribuído para vários países, o que, no entendimento da associação, facilita a exportação do item para outros mercados.
O agronegócio ainda pode ter de lidar com a possibilidade de elevação da inflação no Brasil, decorrente de variação no dólar e da alta no preço do petróleo. A inflação pode ter um efeito cascata para os empresários do campo.
Selic
“Em termos macroeconômicos, um aumento mais pronunciado da inflação pode fazer com o Banco Central tenha mais cautela no processo de redução da taxa básica de juros, Selic, influenciando outros indicadores, sobretudo aqueles relacionados ao crescimento econômico e ao nível de emprego da economia brasileira”, finaliza Vieira.










