Abandonada, primeira Casa do Índio do Brasil pede socorro
Instituição, na zona norte do Rio, abriga 13 indígenas deficientes, sem assistência de saúde ou social. Funai nega responsabilidade
atualizado
Compartilhar notícia

Rio de Janeiro – Aos 85 anos, Eunice Cariry, que administra a primeira Casa do Índio do Brasil, que funciona na Ilha do Governador, zona norte do Rio, carrega na memória e em dezenas de pen drives a história da instituição, que hoje abriga 13 indígenas com deficiência, muitos deles excluídos de suas tribos.
Mesmo se mantendo forte à frente da instituição, Eunice lamenta que a sua luta não receba o apoio necessário para manter o casarão organizado, limpo e preparado para oferecer o atendimento necessário.
O espaço, um amplo salão no subsolo, está todo ocupado por doações que nunca foram abertas, móveis, brinquedos, roupas velhas e camas, onde alguns pacientes se alimentam ou têm momentos de “convívio social”. Abafado, o local está com os janelões fechados e uma série de objetos de lembranças e documentos da luta do povo indígena.
“Preciso que vocês digam que Marechal Rondon, nessa foto na entrada, é nosso ídolo. Ele fez muito pelo nosso povo”, conta a administradora da casa, que a controla sem ajuda de funcionários ou de representantes do governo.
Segundo ela, os indígenas que vivem na instituição são encaminhados para lá pela Fundação Nacional do Índio (Funai). No entanto, a entidade, por meio de nota, informou que não tem qualquer responsabilidade pela casa ou por seus abrigados: “A Funai informa que a Casa do Índio, em funcionamento na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, não é vinculada ao órgão”.
O abrigo ainda conta com voluntários, mas sem qualquer vínculo de trabalho ou treinamento especializado para o cuidado dos pacientes, que não conseguem estabelecer comunicação plena em função das síndromes ou deficiências que sofrem.
A instituição já chegou a atender mais de 600 indígenas e virou referência de lar para quem foi rejeitado pela aldeia ou não quer voltar para sua família. Mas a situação da casa é muito precária.
Fundada em 1968, a Casa do Índio da Ilha foi a primeira das 40 criadas em todo o país a receber apoio da Funai. Depois, a casa ficou sob responsabilidade de diversos órgãos, mas nenhum deles, segundo Eunice, ofereceu o que, de fato, a casa precisa para funcionar.
Cápsula do tempo
Há cerca de 10 anos o local passou a ser responsabilidade da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, que até a edição desta reportagem não respondeu aos questionamentos do Metrópoles.
Tentando se manter firme, Eunice Cariry garante que tem fôlego para seguir em frente, mas alterna momentos de esperança com a “certeza de que só querem me tirar daqui e usar a Casa do Índio para outras finalidades”.
“Podem falar mal de mim. Podem dizer que isso aqui é uma lixeira. Mas eu estou aqui há mais de 50 anos cuidando de quem ninguém cuida. Meu sonho hoje era ter uma moto e sumir. Ou, quem sabe, localizar a cápsula do tempo de Marechal Rondon e, quem sabe descobrir que ele deixou outros presentes para o povo indígena. Mas, hoje, digo que estamos aqui, fortes e de portas abertas”, garante Eunice Cariry.
Infanticídio de deficientes
A Constituição Federal assegura a grupos indígenas o direito à prática do infanticídio, o assassinato de bebês que nascem com algum problema grave de saúde, incluindo casos de malformações e deficiências provocadas por síndromes congênitas. Para algumas tribos, o ato é um gesto de amor, uma forma de proteger o recém-nascido.
A prática acontece em pelos menos 13 etnias indígenas do Brasil, principalmente nas tribos isoladas, como os suruwahas, ianomâmis e kamaiurás. Cada etnia tem uma crença que leva a mãe a matar o bebê recém-nascido.
Criança com deficiência física, gêmeos, filho de mãe solteira ou fruto de adultério podem ser vistos como amaldiçoados, dependendo da tribo, e acabam sendo envenenados, enterrados ou abandonados na selva.
Foi com o intuito de tentar evitar essas mortes e cuidar dessas crianças que nasceu a Casa do Índio. No entanto, a ausência de órgãos fiscalizadores ou de entidade governamental que regule e acompanhe este trabalho faz com que o serviço não seja oferecido seguindo qualquer protocolo de saúde e de segurança para este público.














