Abandonada, primeira Casa do Índio do Brasil pede socorro

Instituição, na zona norte do Rio, abriga 13 indígenas deficientes, sem assistência de saúde ou social. Funai nega responsabilidade

atualizado 16/02/2021 17:27

Primeira Casa do Índio do Brasil agoniza e pede socorroAline Massuca/Metrópoles

Rio de Janeiro – Aos 85 anos, Eunice Cariry, que administra a primeira Casa do Índio do Brasil, que funciona na Ilha do Governador, zona norte do Rio, carrega na memória e em dezenas de pen drives a história da instituição, que hoje abriga 13 indígenas com deficiência, muitos deles excluídos de suas tribos.

Mesmo se mantendo forte à frente da instituição, Eunice lamenta que a sua luta não receba o apoio necessário para manter o casarão organizado, limpo e preparado para oferecer o atendimento necessário.

O espaço, um amplo salão no subsolo, está todo ocupado por doações que nunca foram abertas, móveis, brinquedos, roupas velhas e camas, onde alguns pacientes se alimentam ou têm momentos de “convívio social”. Abafado, o local está com os janelões fechados e uma série de objetos de lembranças e documentos da luta do povo indígena.

“Preciso que vocês digam que Marechal Rondon, nessa foto na entrada, é nosso ídolo. Ele fez muito pelo nosso povo”, conta a administradora da casa, que a controla sem ajuda de funcionários ou de representantes do governo.

Segundo ela, os indígenas que vivem na instituição são encaminhados para lá pela Fundação Nacional do Índio (Funai). No entanto, a entidade, por meio de nota, informou que não tem qualquer responsabilidade pela casa ou por seus abrigados: “A Funai informa que a Casa do Índio, em funcionamento na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, não é vinculada ao órgão”.

O abrigo ainda conta com voluntários, mas sem qualquer vínculo de trabalho ou treinamento especializado para o cuidado dos pacientes, que não conseguem estabelecer comunicação plena em função das síndromes ou deficiências que sofrem.

A instituição já chegou a atender mais de 600 indígenas e virou referência de lar para quem foi rejeitado pela aldeia ou não quer voltar para sua família. Mas a situação da casa é muito precária.

Fundada em 1968, a Casa do Índio da Ilha foi a primeira das 40 criadas em todo o país a receber apoio da Funai. Depois, a casa ficou sob responsabilidade de diversos órgãos, mas nenhum deles, segundo Eunice, ofereceu o que, de fato, a casa precisa para funcionar.

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Cápsula do tempo

Há cerca de 10 anos o local passou a ser responsabilidade da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, que até a edição desta reportagem não respondeu aos questionamentos do Metrópoles.

Tentando se manter firme, Eunice Cariry garante que tem fôlego para seguir em frente, mas alterna momentos de esperança com a “certeza de que só querem me tirar daqui e usar a Casa do Índio para outras finalidades”.

“Podem falar mal de mim. Podem dizer que isso aqui é uma lixeira. Mas eu estou aqui há mais de 50 anos cuidando de quem ninguém cuida. Meu sonho hoje era ter uma moto e sumir. Ou, quem sabe, localizar a cápsula do tempo de Marechal Rondon e, quem sabe descobrir que ele deixou outros presentes para o povo indígena. Mas, hoje, digo que estamos aqui, fortes e de portas abertas”, garante Eunice Cariry.

Infanticídio de deficientes

A Constituição Federal assegura a grupos indígenas o direito à prática do infanticídio, o assassinato de bebês que nascem com algum problema grave de saúde, incluindo casos de malformações e deficiências provocadas por síndromes congênitas. Para algumas tribos, o ato é um gesto de amor, uma forma de proteger o recém-nascido.

A prática acontece em pelos menos 13 etnias indígenas do Brasil, principalmente nas tribos isoladas, como os suruwahas, ianomâmis e kamaiurás. Cada etnia tem uma crença que leva a mãe a matar o bebê recém-nascido.

Criança com deficiência física, gêmeos, filho de mãe solteira ou fruto de adultério podem ser vistos como amaldiçoados, dependendo da tribo, e acabam sendo envenenados, enterrados ou abandonados na selva.

Foi com o intuito de tentar evitar essas mortes e cuidar dessas crianças que nasceu a Casa do Índio. No entanto, a ausência de órgãos fiscalizadores ou de entidade governamental que regule e acompanhe este trabalho faz com que o serviço não seja oferecido seguindo qualquer protocolo de saúde e de segurança para este público.

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