Tambores divinos e os infernos dos preconceitos

Chegou no quarto do hostel e decidiu ouvir música

atualizado

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Vinicius Xavier
Mateus Aleluia por VINICIUS XAVIER
1 de 1 Mateus Aleluia por VINICIUS XAVIER - Foto: Vinicius Xavier

Chegou no quarto do hostel cansado do dia de turista e decidiu ouvir música. Acessou a retrospectiva do Spotify, plataforma que remunera pessimamente os artistas, cujo dono investe milhões na indústria de armas. Ultimamente fazia dessa retrospectiva uma terapia, cada melodia mergulhava num momento da vida, atiçava uma reflexão: o que mudou desde então, o que levou a certa decisão; a música que ouvia quando caminhava pelo centro de São Paulo e percebeu que seu namoro já não tinha sentido.

Chegou no quarto do hostel e decidiu ouvir música. Lembrou de uma canção que estava na playlist e caçou o link que carregava seu nome. “Colarzinho de Pedra Azul, do Junio Barreto, inundou o lugar com sua voz grave e doce, o violão bossanova, o piano e a vassoura da bateria que acariciavam o jazz; mas a melodia grudava em Pernambuco, fazia com que esse pedaço do Brasil dominasse tudo, emanando uma luz solitária e quente, que acolhia.

Chegou no quarto do hostel e decidiu ouvir música. Na sequência apareceu “Ijexá for Oxum”, de Jorge Alabe, de um disco chamado Cantigas e Ritmos dos Orixás. Carregava os batuques do candomblé, acreditava que era candomblé, mais admirava que conhecia as religiões africanas, essa resistência divina que padece nos infernos dos preconceitos raciais. Nesse instante foi assaltado por um medo, e o medo vinha disso, do preconceito, da violência, de ser alvo, de ser atingido pelo ódio e a ignorância que os brasileiros, e põe brasileiros nisso, têm por tudo que é cultura preta. Recordou da união entre traficantes e pastores que expulsa orações, cantos e tambores pelas favelas do país. Uma fragrância do medo que os filhos de terreiro sentem passou pelo seu cérebro. Imaginou as perseguições, os terreiros destruídos. E se a dona do hostel não respeitasse as outras religiões? E se um hóspede quisesse briga? Trocou a música com temor.

Chegou no quarto de hostel e decidiu ouvir música. A canção seguinte foi “Copo Vazio” de Gilberto Gil, linda melodia, profunda letra, mas mal a escutava. O medo fora substituído pela indignação. Que país é esse que mantém essa opressão contra as religiões afro? Que sutilmente proíbe uma música em um lugar público?  E pior, por que ele cedia a essa censura? Por que internalizá-la se nem acreditava em deus? Pensava nisso enquanto ouvia “Coisas do Mundo Minha Nega”, do Paulinho da Viola, uma das mais belas canções da nossa história.

Quando a voz grave de Mateus Aleluia anunciou “Olorum”, estremeceu. Eram somente voz e violão, “Olorum, sai do seu reino e vem nos ver. Olorum seu povo está cansado”. Pouco tempo depois começam os tambores e o agogô, e os instrumentos soaram como trovões em seu peito. Não teve dúvida. Colocou a música no volume máximo.

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