Traições a rodo marcarão a escolha do sucessor de Bolsonaro

Ananias, jogador do Santa Cruz de Pernambuco, ensinou: “Só faço prognóstico depois do fim do jogo”

atualizado

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Marcelo Camargo/Agência Brasil
Jair Bolsonaro e Arthur Lira
1 de 1 Jair Bolsonaro e Arthur Lira - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Bolsonaro sabe que será traído nas eleições do ano que vem por parcelas expressivas do PL de Valdemar Costa Neto, ao qual se filiará no próximo dia 22. E por parcelas do PP de Ciro Nogueira (PI), ministro da Casa Civil, e de Arthur Lira (AL), presidente da Câmara. E por parcelas do REPUBLICANOS.

E daí? Sem filiar-se a um partido não poderia ser candidato. Entre outros motivos, escolheu o PL porque é partido de um único dono – e que dono… Um ex-aliado de Lula condenado e preso por envolvimento com o mensalão do PT em 2005. E que de dentro da cadeia continuou mandando no PL. Um sujeito confiável, pois.

Atire a primeira pedra, porém, o candidato a presidente da República em 2022 que não teme ser traído. Ou que acha que não será. Salvo Lula que de fato tem um partido para chamar de seu. Lula é maior do que o PT, sempre foi. Os membros do PT sabem disso e a ele devem o êxito de suas carreiras.

Sombra alguma se criou no PT capaz de rivalizar com Lula. No PT e em nenhum dos partidos de esquerda, satélites dele. O PDT nunca foi satélite do PT por dispor de um líder reconhecidamente forte, Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul e do Rio. Brizola apoiou Lula nas eleições que viu que não teria chance.

Ciro Gomes está no PDT, mas não é PDT. Como João Doria está no PSDB, mas não é PSDB de quatro costados. Como Sérgio Moro está há menos de uma semana no PODEMOS do senador Álvaro Dias (PR) e até recentemente negava que entraria na política. Todos eles, como Bolsonaro, serão traídos antes que o galo cante.

Traição não é novidade na política. A história das eleições brasileiras está repleta de casos famosos. Cunhou-se até uma expressão para designar isso: “cristianização”. Em 1950, o velho PSD, não o novo de Gilberto Kassab, lançou a candidatura de Cristiano Machado a presidente da República.

Ao longo da campanha, Cristiano foi abandonado pelos principais líderes do PSD que passaram a defender a candidatura de Getúlio Vargas, do PTB, que acabou eleito. Devolveu-se às paredes das repartições públicas o retrato do velhinho que governou o país como ditador entre 1930 e 1945, e se mataria em 1954 com um tiro.

Paulo Maluf, em 1985, foi cristianizado. O PDS, partido da ditadura militar, detinha maioria no Colégio Eleitoral para eleger o sucessor do general-presidente João Batista de Figueiredo. Uma fatia considerável do PSD votou em Tancredo Neves, do PMDB, que se elegeu e morreu sem tomar posse.

Nas eleições de 2010, o PSDB de Minas Gerais, então sob o governo de Aécio Neves, cristianizou José Serra, candidato do partido a presidente contra Dilma Rousseff (PT). Aécio entende de traição. E está pronto mais uma vez para trair, se Doria for o candidato do PSDB. Essa é uma traição mais do que anunciada.

Não será a única. Bolsonaro perderá para Lula a maioria das seções nordestinas do PL, PP e REPUBLICANOS. Se Rodrigo Neves, no Rio, Weverton Rocha, no Maranhão, e Edvaldo Nogueira, em Sergipe, forem os candidatos do PDT a governador, abrirão seus palanques não só para Ciro, mas também para Lula.

Haverá palanque duplo para Ciro e Lula no Ceará, o Estado de Ciro. O presidente do PDT, Carlos Lupi, ex-ministro de Lula e de Dilma, não se acanha em dizer: “Nosso candidato é Ciro, mas no segundo turno apoiaremos Lula contra Bolsonaro”. Quer dizer: ele admite que Lula irá para o segundo turno, e que Ciro fique de fora.

Não faz tanto tempo assim que candidatos a eleições majoritárias, mesmo que derrotados de véspera, repetiam até o fim que a vitória estava ao alcance da mão. Seus apoiadores mais fiéis garantiam a mesma coisa. Se dissessem o contrário perderiam os votos que haviam amealhado até então.

Dez meses e pouco é tempo suficiente para mudar qualquer cálculo que agora pareça razoável. Prognóstico, como ensinou o sábio Ananias, jogador do Santa Cruz, de Pernambuco, no início dos anos 1970, só se faz depois do fim do jogo. Na era de fake news, melhor é esperar a confirmação do resultado pela justiça.

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