Tia Carminha e seus flertes com atos antidemocráticos

A questão não é sobre conservadorismo, mas pluralismo de ideias

atualizado

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Vinícius Schmidt/Metrópoles
Desembargadora Maria do Carmo Cardoso durante posse como desembargadora federal
1 de 1 Desembargadora Maria do Carmo Cardoso durante posse como desembargadora federal - Foto: Vinícius Schmidt/Metrópoles

A eleição da desembargadora Maria do Carmo Cardoso para a presidência do TRF-1 é o tipo de notícia que faz qualquer observador do cenário jurídico brasileiro levantar a sobrancelha. Não é comum ver o comando do maior tribunal federal do país — que abrange quase metade do território nacional — ser entregue a quem já teve as redes sociais silenciadas pela própria Justiça por flertar com atos antidemocráticos.

Próxima da família Bolsonaro, a magistrada escreveu, logo após a eliminação do Brasil na Copa de 2022, que “nossa seleção verdadeira está na frente dos quartéis” e rotulou o técnico Tite como “petista”. Por ordem do ministro Luis Felipe Salomão — então corregedor nacional de Justiça e atual vice-presidente do STJ —, os perfis da desembargadora no Instagram e no X foram suspensos naquele ano.

Salomão afirmou que a publicação tinha “inequívoco” conteúdo político, incitando condutas antidemocráticas em áreas militares. O ápice desse movimento ocorreu no acampamento golpista em frente ao QG do Exército, em Brasília, de onde partiu a multidão que vandalizou as sedes dos Três Poderes no 8 de Janeiro.

Em sua defesa ao CNJ, a desembargadora alegou que “sequer tem conhecimento ou se recorda” da postagem. O corregedor reagiu, afirmando que a versão da magistrada “salta aos olhos”. Apesar disso, no fim de 2023, o processo foi arquivado por oito votos a seis. Ela assumiu a presidência do TRF-1 em 23 de abril de 2026.

O apelido carinhoso de “Tia Carminha”, comum nos corredores de Brasília, contrasta com o peso de suas novas responsabilidades. De um lado, há o marco simbólico de ser apenas a segunda mulher na história a presidir o tribunal — um motivo de celebração. Do outro, o desconforto institucional de ter no topo da hierarquia uma magistrada cujas opiniões pessoais já colidiram com os limites da democracia.

A questão não é sobre conservadorismo; o pluralismo de ideias é vital para a democracia. O problema surge quando a linha entre a convicção pessoal e o ativismo político se torna tão tênue que o Judiciário precisa intervir para conter danos. Quando uma desembargadora apoia movimentos que questionam as instituições que ela mesma integra, cria-se um nó ético preocupante.

Ao assumir o biênio 2026-2028, Maria do Carmo Cardoso enfrenta o desafio de provar que a “Tia Carminha” das redes ficou no passado e que a presidente do TRF-1 agirá com a isenção exigida pelo cargo. Em um tribunal que decide temas sensíveis — de questões ambientais na Amazônia a grandes licitações —, o país não precisa de ideologia, mas de respeito rigoroso à Constituição. No fim, a dúvida que resta é: o tribunal mudará a desembargadora ou ela mudará o tom do tribunal?

Responda, “Tia Carminha”. De ideologia e negócios suspeitos, os tribunais já estão cheios.

 

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