Só se ganha eleição com o voto dos outros. Daí o pragmatismo de Lula

Um dia é com Alcolumbre, o outro com Trump

atualizado

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Arte / Metrópoles
Trump Lula
1 de 1 Trump Lula - Foto: Arte / Metrópoles

Sabe aquela história de que o Lula não esquece um desaforo? Muita gente próxima confirma: o homem é rancoroso. Mas se tem um rótulo que não cola nele é o de “radical de esquerda”. Por mais que os adversários tentem pintar esse quadro, a trajetória dele mostra outra coisa. Lula é, acima de tudo, um pragmático — e dos bons.

Essa veia de negociador vem de longe, dos tempos de metalúrgico no ABC paulista. Em 1980, no auge da ditadura militar, ele teve o mandato cassado no sindicato. O que fez? Mesmo que às escondidas, continuou negociando o aumento da categoria com o então ministro do Trabalho, Murilo Macedo. Dizem até que ficou amigo do delegado que o prendeu, Romeu Tuma. Ele joga o jogo conforme as regras do momento, sem deixar que o fígado atrapalhe o que o cérebro dita como necessário para exercer o poder.

Por isso, ninguém deve se espantar com os movimentos recentes em Brasília. O Senado barrou Jorge Messias para ministro do Supremo Tribunal Federal? Apenas oito dias depois, Lula já estava estendendo a mão para Davi Alcolumbre, o homem que segura as chaves do Senado. Alcolumbre fez um “charme”, disse que não quer conversa agora e posou de difícil. Mas Lula não se abala com portas fechadas temporariamente. Ele sabe que política é a arte de engolir migalhas hoje para garantir o banquete de amanhã. Lula entende que o Congresso não é um território a ser vencido pela força, mas um balcão de trocas onde a paciência vale mais que o grito.

Ele segue o mantra de Miguel Arraes, que governou Pernambuco três vezes e sabia das coisas: “Só se ganha eleição com o voto dos outros”. Lula nunca foi eleito só pela bolha da esquerda; ele sempre precisou — e buscou — o voto de quem pensa diferente, de quem mora no centro e não liga muito para ideologia. De olho em um possível quarto mandato, ele sabe que o diálogo com o “Centrão” não é uma opção vergonhosa, é uma estratégia de sobrevivência. O caminho está difícil? Com certeza. O clima em Brasília é de facas amoladas, mas para quem já dividiu cela e café com seus algozes, lidar com Alcolumbre é só mais uma rodada de uma partida longa.

Como é também mais uma peça, e essa das maiores, Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos com quem Lula se reunirá logo mais na Casa Branca. A rezar pela cartilha dos puristas, o encontro seria impossível. De um lado, o ícone da esquerda latino-americana; do outro, o expoente do populismo de direita global. Mas a “Realpolitik”  de Lula não enxerga cores, enxerga interesses. Lula sabe que o Brasil não pode se dar ao luxo de virar as costas para a maior economia do mundo por birra ideológica.

A viagem a Washington é o teste definitivo dessa capacidade de adaptação. Enquanto seus apoiadores mais fervorosos torcem o nariz para a foto ao lado de Trump, Lula prepara o sorriso e o aperto de mão. Ele entende que a política externa, assim como a interna, é feita de realidades, não de desejos. Para Lula, Trump não é um inimigo a ser combatido em praça pública, mas um chefe de Estado com quem ele precisa encontrar um denominador comum, seja no comércio, na preservação ambiental, na geopolítica e na segurança pública.

O “Lula de 2026” é uma versão refinada do negociador de 1980. Mais velho, talvez mais cansado, e sim, com algumas mágoas guardadas na gaveta, mas nunca cego para a próxima jogada. O radicalismo fica para os discursos de palanque, para incendiar a militância. Quem espera um revolucionário vai continuar se decepcionando; quem espera um sobrevivente verá Lula operando até o último minuto, convencido de que o mundo, no fim das contas, pertence aos que sabem conversar com quem preferiam evitar.

 

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