Quando um Papa foi cabo eleitoral involuntário do governo de Angola
No coração cabe tudo
atualizado
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O Papa Leão XIV desembarcou, ontem, em Angola, sob o eco dos ataques que lhe dirigiu o presidente Donald Trump. Eu estava lá quando, em 1992, João Paulo II foi o primeiro Papa a visitar Angola, a três meses da primeira eleição da história daquele país.
Colônia portuguesa até 1975, depois disso Angola viveu uma guerra civil travada por três grupos: o MPLA, apoiado pela União Soviética e Cuba; a UNITA apoiada pela África do Sul; e a FNLA apoiada por debaixo dos panos pelos Estados Unidos.
Como as portas do jornalismo se fecharam para mim no Brasil com a eleição do presidente Fernando Collor em 1989, fui parar em Angola a serviço da Propeg, agência baiana de publicidade, com vasta experiência em campanhas eleitorais.
Publicidade e marketing político são parentes próximos. A direção da Propeg entendia que um jornalista que cobria política há muitos anos seria capaz de aprender os rudimentos do marketing político. Fui conhecer a política do outro lado do balcão.
Deu tudo certo por lá graças ao talento do marqueteiro Geraldo Walter de Souza Filho, e da equipe montada por ele que chegou a reunir, entre fevereiro de 1991 e outubro de 1992, mais de 40 brasileiros e uma centena de angolanos.
O MPLA elegeu a maioria do parlamento. O então presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979, por pouco não se elegeu no primeiro turno. A ONU declarou que a eleição fora limpa e justa. A UNITA achou que não e recomeçou a guerra.
João Paulo II foi um cabo eleitoral involuntário do MPLA.. Durante seis dias, acompanhado por José Eduardo, que na propaganda virara Zé Edu, percorreu as principais regiões de Angola a defender a paz. Em Luanda, falou para um milhão de pessoas.
A primeira peça de propaganda no período pré-campanha foi um vídeo chamado “Angola no Coração”, assinado pelo “Governo da República Democrática de Angola”. Mostrava as belezas do país. Letra e música da dupla Sá e Guarabira.
Veiculado durante meses, uma vez por dia, pela Televisão Popular de Angola, única emissora à época, foi tal o sucesso do vídeo que os moradores de Luanda mudaram seus hábitos para poder assisti-lo. Saídas às ruas? Só depois de cantarem “Angola no Coração”.
Naturalmente, o slogan da campanha do MPLA acabou sendo “Angola no Coração”. E ao fim da visita papal, um novo vídeo foi produzido com imagens de João Paulo II e o fundo musical de “Angola no Coração”. O Vaticano pediu uma cópia.
A guerra civil angolana só terminou em 2002 com a morte de Jonas Savimbi, o líder da UNITA. Em 1993, os Estados Unidos reataram as relações diplomáticas e comerciais com Angola, que é o segundo maior produtor de petróleo da África Subsaariana.
Leão XIV é o terceiro Papa a pisar em Angola. Bento XVI foi o segundo. Quase 44% dos angolanos se declararam católicos no censo de 2024. Apesar das vastas reservas de petróleo, um terço dos habitantes de Angola vive abaixo da linha da pobreza.


