O Sorriso do General
Este conto, até hoje inédito, escrevi no final dos anos 1970. A censura da ditadura militar vetou sua publicação
atualizado
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Instalou-se o sorriso no rosto magro do General, um sorriso de poucos dentes, que varou quatro horas de reunião sem nunca se aprofundar, pendurado no rosto do General como pendurada à sua cintura costumava estar a espada, as medalhas penduradas no peito colorido de galões. E, como todas essas coisas, finda a reunião, seria deposto e guardado para futuros eventos.
Durante uma semana a sala de recepções tinha sido rigidamente preparada. Obedecendo a ordens de um Sargento taciturno, os soldados se postavam em posição de sentido. A um grito dele, empunhavam os pinceis, a outro os mergulhavam nos galões de tinta azul, dobrando o corpo sem flexionar os joelhos. A gritos compassados, pincelavam as paredes em movimentos perfeitamente sincronizados.
Os móveis foram 27 vezes arrumados e desarrumados, até que se obteve os efeitos de conforto, iluminação e naturalidade considerados notáveis por um Capitão, homem mais afeito a essas coisas que às outras da pragmática militar. Assim, quando a primeira dos 40 pares de mãos transpôs os umbrais da sala de recepções e se estendeu, solícita, para o General, nada estava fora do lugar. Todas as coisas brilhavam intensamente, mesmo aquelas que por sua própria natureza não foram feitas para brilhar.
Desfilou, então, diante do espigado militar de olhos azuis como as paredes um frenesi de saias longas e de paletós dos mais variados modelos, em curvaturas e semi-curvaturas. Como a bebida servida fosse de origem nacional, disso aproveitou-se oportunamente um conviva para enaltecer os méritos do nacionalismo, e todos os olhos se fizeram atentos aos olhos do General que, se aprovou o que foi dito ninguém sabe porque nada disse, nem moveu, sequer, um único músculo do rosto. Também não aumentou nem desfez o sorriso que, aos 48 minutos de reunião, era uma entidade com vida própria. Flutuava admiravelmente sobre tudo e sobre todos, e estava, ao mesmo tempo, em toda parte.
Na verdade, poucos notaram que em momento algum, o General pronunciou uma só palavra. Mas, esses poucos, mais tarde, louvaram a eloquência dos seus gestos, ora maneando levemente a cabeça, ora indicando qualquer coisa com as mãos; exaltaram sua flagrante alegria, embora contida nos estreitos limites do seu antisséptico sorriso. E quando lá se iam duas horas de garrafas esvaziadas e de devastados pratos de salgadinhos, regadas a discussões amenas e observações, por vezes, inteligentes, uma sensação de monotonia aproveitou-se de frações de silêncios e insinuou-se por entre pessoas e móveis. E se não durou mais tempo, deveu-se a oportuníssima e rápida intervenção de uma dama muito íntima dos mais insondáveis segredos do sucesso de uma reunião social. Ela reanimou os inertes com o inusitado de sua disposição:
– Eu vou cantar para o General!.
Despojou-se de um xale que lhe cobria as costas salpicadas de sinais marrons e cantou, sem nenhum acompanhamento, uma velha polca, mãos presas uma na outra, olhos semicerrados, peito volumoso parecendo quase estourar nas notas mais agudas. A voz não era má. E se a gesticulação foi pobre, agradou o volteio brejeiro dado no fim do verso: “Mas cavalheiro, a honra é toda minha, porém já tenho par”. Incontinente, um aposentado maestro retirou da algibeira um violino inflável e valseou “Quero-te cada vez mais”, “Boneca” e “O destino desfolhou”.
Estabeleceu-se, depois disso, uma certa desordem de pessoas que, ao mesmo tempo, se esforçavam por demonstrar suas habilidades. Um poeta insatisfeito deu início à declamação trágica de “O Corvo”, de Edgar Alan Poe. E entre: “Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe, misteriosa esfinge negra a retorquir-me em termos tais” e os versos seguintes, intrometeu-se: “Porém cinco sóis eram passados que dali partíramos, cortando mares nunca de outrem navegados”, dito com sotaque propositadamente lisboeta por um homem tão magro que levitava.
Por dois dias e duas noites, dormindo ou acordado, como um insano, ele recitou de cor e salteado, de trás para frente e de frente para trás, os 10 Cantos dos Lusíadas, ou como anunciou, soberbo, “suas 1.102 oitavas rimas, 8.816 decassílabos, 56 mil palavras, sendo 5 mil diferentes e um total de 250 mil letras, em números redondos, naturalmente.” Em papeletas disputadas pelos que lhe reconheciam o gênio, deu-se ao requinta de perpetrar ousados exercícios de concretismo camoniano:
“Andando as lác
teas t ta lhe mia
e s tre m
alevanta ao Céu
a grita se da gente
os deuses faz d bir ao céu sereno
esc
er
e os humanos su ao vil terreno”.
Um paletó verde-claro, já sem gravata, imitava o latido de um cão vadio, o resfolegar de um porco, o mugido de uma vaca prenhe, o trinado belíssimo de um pássaro não identificado da Amazônia. Serenamente, um homem de rosto largo, com uma verruga vermelha no queixo, comia uma banana e assobiava ao mesmo tempo, e outro lutava desesperadamente para desfazer o nó que dera nas próprias pernas. Um pintor fracassado perdera a aposta com uma mulher de cabelos castanhos e cílios artificiais que fora capaz de morder seu próprio olho, que era de vidro e se quebrou.
Sobranceiro em sua gravatinha borboleta, um homem de largos bigodes negros e orelhas que, de tão afastadas da cabeça não pareciam fazer patê dela, manipulava, com rara habilidade, um baralho Copag. Executava algumas mágicas consideradas incríveis e outras muito bestas. De qualquer forma, elas causaram funda impressão na mente do General, homem desacostumado a essas questões de encantamento, mas que aprovava, cortesmente, todas as demonstrações do virtuosismo humano. Até se esforçava por parecer natural mesmo diante do borboletear de dois rapazes que alçaram curtos e alegres voos entre abajures e luminárias.
Em posições estratégicas que levavam em conta a iluminação indireta e a impossibilidade de pessoas descuidadas esbarrar nelas, três mulheres em vestidos vaporosos e dois homens de meia idade se imobilizaram como estátuas. E como estátuas permaneceram até a saída do último dos convidados do General – o imitador de aves e de animais, que de tanto bisar, a pedidos, o trinado do pássaro não identificado da Amazônia, meteu-se entre os pássaros de um gigantesco viveiro que havia nos fundos da casa e dali não quis mais sair. Só o fez cantando dentro de uma gaiola.
Aparentemente satisfeito, o General recolheu suas medalhas a uma caixinha aveludada, guardou a espada da qual não se separava na terceira gaveta da cômoda do seu quarto e deitou seus quase dois metros de altura para dormir. Só então se lembrou que continuava sorrindo, e dessorriu.


