
O sequestro do sagrado e a falência do debate
A instrumentalização rasteira da religião blinda candidatos sem propostas, sabota os problemas reais do país e testa os limites da apatia do

Enquanto a Santa Senhora Aparecida permanecia imóvel em seu lugar, cumprindo o papel secular de ouvir pedidos de graça e consolo dos aflitos, homens vis, gananciosos e oportunistas decidiram rebaixá-la à condição de mera participante de uma luta pelo poder terreno. O episódio não diz nada sobre a fé, mas diz tudo sobre o nível rasteiro daqueles que usam o sagrado como mercadoria eleitoral.
Em um país profundamente religioso como o Brasil, onde o Estado se define como laico, não é de hoje que isso acontece. É lamentável, porém, que o cenário se repita a cada dois e quatro anos com o mesmo objetivo: enganar os mais crédulos para se apoderar de seus votos. Não se trata de outra coisa. É a tentativa despudorada de sequestro da vontade e, para tanto, mandam-se às favas todos os escrúpulos.
O resultado mais imediato dessa tática rasteira é a completa falência do debate público. Quando a arena política se transforma em um tribunal inquisitório de aparências piedosas, as discussões urgentes que deveriam pautar o país são covardemente asfixiadas. Substituem-se os planos de metas pela contrição fingida; anulam-se os debates sobre saúde, segurança e economia para dar lugar a uma disputa coreografada de quem exibe a maior devoção. A política, que deveria ser o espaço da razão e da construção do futuro, retrocede ao palanque da encenação hipócrita.
Essa saturação do sagrado desidrata qualquer tentativa de propor soluções reais para os problemas estruturais do Brasil. É muito mais fácil e eleitoralmente lucrativo posar para fotos ao lado de altares e de imagens de santos do que debater, com seriedade, reformas estruturantes. Sob o manto da manipulação religiosa, os candidatos esquivam-se do escrutínio técnico e se blindam contra críticas legítimas. Afinal, questionar as propostas — ou a falta delas — de um candidato blindado por símbolos sagrados passa a ser visto, de forma canalha, como um ataque à própria fé.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesDiante de um espetáculo tão repetitivo quanto ultrajante, o que mais assombra é a aparente apatia do eleitorado. Parcela significativa dos cidadãos assiste a esse sequestro da fé com uma complacência perturbadora, como se aceitasse a mercantilização do divino como uma regra inevitável do jogo democrático. Há uma normalização do absurdo: o fiel, que deveria ser o primeiro a se indignar com a profanação de seus símbolos, muitas vezes silencia ou, pior, justifica o cinismo do candidato de estimação sob o pretexto pragmático de que “na política vale tudo”.
Essa indiferença, contudo, não é simples cegueira, mas o reflexo de um cansaço crônico e de uma profunda desilusão com as instituições. Calejado por décadas de promessas vazias e traições institucionais, o eleitorado desenvolveu uma espécie de casca cínica, onde o pragmatismo substituiu o idealismo. Tolera-se a mentira porque já não se espera a verdade. Ao fechar os olhos para o estelionato espiritual, o cidadão abdica de sua própria dignidade política e aceita o papel de figurante em uma farsa teatral que se renova a cada ciclo das urnas.
Conclui-se que esse silêncio coletivo cobra um preço altíssimo. Ao não punir nas urnas aqueles que tratam a devoção popular como moeda de troca, a sociedade valida o método e pavimenta o caminho para que o próximo pleito seja ainda mais vazio de propostas e mais denso de hipocrisia. Enquanto a indignação ceder espaço à indiferença, os templos continuarão sendo usados como trampolins e o debate público permanecerá submetido à pequenez dos que só enxergam no sagrado um atalho para o poder.

