O que une Ana Paula do Vôlei, Pazuello de jaleco e Bolsonaro, o Mito

A ex-jogadora aconselhou o presidente a suspender a vacinação de adolescentes; o ministro Queiroga, da Saúde, obedeceu sem discutir

atualizado 18/09/2021 8:31

Cerimônia de Liberação de Recursos para Atenção Primária à Saúde no Enfrentamento da Covid-19, no palácio do planalto marcelo queiroga e presidente bolsonaro 4 Hugo Barreto/Metrópoles

O brasileiro não foi o único a errar, mas disparado foi o governo que mais se destacou no planeta ao sabotar o combate à Covid-19. Sem estudos científicos que justificassem suas escolhas, apostou na imunidade coletiva, prescreveu drogas sem eficácia comprovada para tratamento da doença e adiou a compra de vacinas.

Por imunidade coletiva, entenda-se: a epidemia só chegaria ao fim depois que 70% da população fossem contaminadas. Não havia o que fazer. A saída era conceder passe livre ao coronavírus, deixando morrer quem tivesse de morrer. Morreram até ontem 589.744 pessoas. Passou de 21 milhões o número de infectados.

Agora, o governo suspendeu a vacinação de adolescentes de 12 a 17 anos autorizada por ele desde julho. O presidente Jair Bolsonaro, que pouco trabalha, ouviu numa emissora de rádio o comentário de Ana Paula do Vôlei contra a imunização de jovens. Então ligou para o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e mandou suspender.

Quem é Ana Paula do Vôlei na fila do pão? Comentarista do programa “Os Pingos nos Is”, da Jovem Pan, foi jogadora da Seleção Brasileira que ganhou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, Estados Unidos. Às quintas-feiras, a live semanal de Bolsonaro é um puxadinho do programa.

Um governo em avançado processo de decomposição manda pouco ou quase nada. Dezessete capitais estaduais e o Distrito Federal mantiveram a vacinação de adolescentes contra a Covid e simplesmente ignoraram a nova orientação do Ministério da Saúde, alvo de severas e indignadas críticas de epidemiologistas.

A microbiologista Natalia Pasternak chamou Queiroga de “Pazuello de jaleco”, em referência ao general e ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, de triste memória. Pasternak afirmou que a justificativa de Queiroga para suspender a aplicação dos imunizantes é “de cair o orifício retal das nádegas”. E garantiu:

“Os adolescentes não correm risco nenhum. A vacina da Pfizer é segura, foi aprovada pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e a FDA [uma agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos]. Está sendo usada no mundo inteiro”.

Em reunião na sexta-feira, membros da Câmara Técnica do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde exigiram mudança de posição e retratação de Queiroga. Querem que seja dito publicamente que a Câmara não foi consultada sobre a suspensão. Caso isso não ocorra, ameaçam entregar seus cargos.

O secretário estadual de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, anunciou que apenas 0,001% dos 2,4 milhões adolescentes vacinados contra o vírus no Estado teve algum efeito adverso por causa da vacina. O único que morreu sofria de uma doença autoimune de nome Púrpura Trombótica Trombocitopênica.

Meter os pés pelas mãos ou dar tiros no pé é uma especialidade de Bolsonaro, o maior opositor do seu governo.

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