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O que perguntei a Fidel Castro em Havana há quase 40 anos

A propósito do centenário de nascimento do líder cubano celebrado no último dia 13

16/08/2026 04:30
ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO
O que perguntei a Fidel Castro em Havana há quase 40 anos

No dia 15 de março de 1987, uma segunda-feira, a bordo de um avião Bandeirante, um reduzido grupo de jornalistas e de políticos acompanhou Abreu Sodré, então ministro das Relações Exteriores do governo José Sarney, para a primeira viagem a Cuba depois do reatamento das relações diplomáticas entre os dois países.

Elas haviam sido cortadas um mês depois de instalada no Brasil a ditadura militar de 1964. E restabelecidas em 14 de junho de 1986. Entre os políticos que voaram a Cuba, estavam os deputados federais Aécio Neves (PMDB) e Roberto D’Ávila (PDT); entre os jornalistas, Boris Casoy, Luiz Recena, Carlos Chagas, Beatriz Tilman e eu.

Ficamos pelo menos cinco dias em Havana. Foi tamanho o deslumbramento de Sodré, um político conservador, por Fidel que ele só o chamava de “Comandante”. E não parava de fotografá-lo com uma câmera de bolso.

– Fidel é um homem perigoso porque tem tal encanto pessoal que é bom a gente fugir dele – comentou Sodré ao retornar ao Brasil.

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Foram três ou quatro encontros do ministro e de sua comitiva com Fidel. Apenas uma gafe marcou a viagem. Levado por Fidel para conhecer um gado de nobre linhagem nos arredores de Havana, Sodré ficou pasmo diante de um exemplar.

– Que bela vaca – ele disse para o líder cubano.

– É um boi – respondeu Fidel.

A assessoria de Fidel o informara que Sodré era dono de um grande rebanho no Brasil. Na verdade, Sodré tinha fazendas de café em São Paulo.

Como representante dos jornalistas, testemunhei o episódio e pude ocupar um lugar na Mercedes preta e blindada que conduziu Fidel e Sodré no passeio. Aos pés de Fidel, havia uma pequena metralhadora.

No Palácio da Revolução, no dia seguinte, Fidel nos recebeu para um suntuoso jantar. Cascatas de lagostas e de camarões recém-pescados decoravam a mesa principal. Não me lembro mais dos outros pratos, mas foram muitos. Depois do cafezinho e dos licores, Fidel, inesperadamente, se ofereceu para uma entrevista.

Como extrair novidade de quem tinha respostas prontas e longas para todas as perguntas, mesmo as mais embaraçosas? De quem já fora interrogado à exaustão por jornalistas famosos do mundo inteiro? Tentamos, mas sem sucesso.

Quando chegou a minha vez, e para espanto dos meus colegas, perguntei:

– O senhor gosta de cozinhar e se gaba disso. Por que não nos dá uma receita de lagosta?

E ele deu. Anotei e publiquei no Jornal do Brasil, a serviço do qual estava ali. A receita do “chef” Fidel Castro consistia em cozinhar a lagosta em duas etapas rápidas, misturando técnicas de cozimento na água e grelha (ou frigideira). Reproduzo aqui:

1. O pré-cozimento exato

Coloque a lagosta inteira em uma panela com água fervente e sal;
O tempo deve ser milimetricamente cronometrado: exatamente de 2 a 3 minutos;
Esse processo serve apenas para firmar a carne e facilitar a remoção da casca, mantendo o interior praticamente cru e extremamente suculento.
2. O corte e a limpeza

Retire a lagosta da água fervente e dê um choque térmico em água fria;
Corte a cauda ao meio (no sentido do comprimento) e remova a veia escura (o intestino).
3. O toque final (grelhada na manteiga)

Em uma frigideira grande ou grelha bem quente, derreta uma quantidade generosa de manteiga com alho picado;
Coloque os pedaços de lagosta e grelhe rapidamente por mais 2 ou 3 minutos, apenas até que a carne mude de cor e fique levemente dourada.
Fidel insistiu que adicionar temperos pesados ou molhos ácidos (como muito limão ou tomate) arruinava o sabor delicado da lagosta.

Caí na besteira, em 16 de outubro de 2014, de publicar neste blog uma foto minha ao lado de Fidel tirada por Sodré. Fui acusado por uma parte dos leitores de ser comunista.

Entre 2018 e 2020, a foto viralizou nas redes sociais de forma enganosa, dessa vez associada ao ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal. Um dia, bem-humorado, o ministro me telefonou pedindo:

– Noblat, informe aos seus leitores que o homem na foto é você, não eu. Não somos tão parecidos assim.

Informei, mas de pouco adiantou. Vez por outra, o ministro ainda é alvo de críticas por ter-se deixado fotografar junto a Fidel.

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