
O que dona Lindu ensinou a Lula e o que aprendi com dona Eunice
Ainda estamos aqui

Cresci ouvindo dona Eunice dizer que não se deve comprar o que custa caro, trocando-o por algo mais barato. Eunice, minha mãe, nasceu analfabeta, assim como dona Lindu, a mãe de Lula, que o ensinou a não gastar além do que pode para não acumular dívidas.
Não sei se Lula seguiu o conselho de dona Lindu, mas eu segui o de dona Eunice e asseguro que não me dei mal. Quando menino, filé lá em casa só uma vez por semana e para agradar meu pai, Gilvan. Eu e meus cinco irmãos comíamos carne de segunda, moída.
Doce de goiaba em calda? Tinha à venda na mercearia do bairro. Para economizar, dona Eunice comprava goiaba e atravessava noites na cozinha a mexer num panelão para fazer o doce. O cheiro do doce invadia a casa toda. Eu o sinto até hoje. Marcou a minha infância.
Não sou exemplo para nenhum aspirante a empreendedor, pois somente duas vezes na vida tomei dinheiro emprestado em banco, e nas duas vezes saldei a dívida antes do prazo. Todo mês quito meu cartão de crédito para não ter que pagar juros.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesÉ por isso que não vi nada demais na fala de Lula quando ele disse aos brasileiros a propósito da alta no preço de alimentos:
“Se você vai num supermercado […] e desconfia que tal produto está caro, você não compra. Se todo mundo tiver essa consciência e não comprar aquilo que acha que está caro, quem está vendendo vai ter que baixar [o preço], senão vai estragar”.
Lula não culpou os brasileiros pelo aumento dos preços como seus adversários políticos passaram a dizer que ele fez. Nem tentou embromá-los com o anúncio de futuras medidas que poderiam baixar os preços porque sabe que elas simplesmente não existem.
Ai dele se o tivesse feito. O mundo desabaria na sua cabeça. O mercado livre, ou o livre mercado, o chamaria de intervencionista, interessado em pôr a economia a pique – quem sabe? – para promover uma revolução e abrir as portas do país ao comunismo.
Exagero? Talvez um pouco. A direita e a extrema-direita são muito criativas. Pelo poder, vale tudo – de mentir sem pudor algum a clamar por uma intervenção militar que anule eleições que elas perderam. A esquerda mente, mas não aposta em golpe.
Foi-se o tempo em que o governo federal, com a popularidade em alta por conta do congelamento de preços e de salários, tentou capturar boi no pasto para compensar o desaparecimento da carne na prateleira dos supermercados. Usou até helicóptero. Um fiasco.
Ditam as leis do mercado que a demanda e a oferta é que regulam o preço dos produtos, e que qualquer coisa diferente disso não vai funcionar, não tem como funcionar. Lula custou a aprender a lição ao longo de sua carreira, mas aparentemente aprendeu.
O que ele ainda não aprendeu foi a medir as palavras na era da internet e das redes sociais. Lula é analógico, e se aposentará um dia como analógico. Sequer tem celular. Atende ou faz ligações por meio de celulares emprestados, e nunca são os mesmos.
Não tem Sidônio capaz de controlar o que ele queira dizer. Mas aí também reside a força de Lula. Ele fala a linguagem do povo menos culto que a cada eleição renova seu voto de confiança nele. Não quer dizer que será assim para sempre, mas até aqui foi.
Tem dado para o gasto. Continuará dando? Saberemos daqui a dois anos, porque se a eleição fosse hoje… Ela nunca é hoje.

