O país de Roberto Marinho tem a cara de Silvio Santos
(Artigo publicado no Jornal do Brasil em 2 de novembro de 1989)
atualizado
Compartilhar notícia

A primeira eleição presidencial pelo voto direto, depois de 29 anos, se aproxima do seu desfecho desfigurada, em grande parte, pela batalha que travam os donos das duas maiores redes de televisão do país — o jornalista e empresário Roberto Marinho, da TV Globo, e o empresário e animador de programas de auditório Silvio Santos, da TVS. Marinho apoia a candidatura de Collor de Mello, atual líder das pesquisas.
Collor é dono de uma emissora de televisão em Alagoas que retransmite a programação da TV Globo. Ele e Marinho, portanto, são sócios. Associa-se à dupla o ministro Antonio Carlos Magalhães, das Comunicações — também dono de uma emissora de televisão na Bahia filiada à TV Globo. Marinho pegou carona na candidatura de Collor para impedir a eleição de um candidato de esquerda e continuar influente no próximo governo.
Silvio Santos dispensou intermediários: preferiu lançar-se à sucessão do presidente José Sarney. Se não vencer, imagina conseguir força política e prestígio para rivalizar, depois, com Marinho no jogo do poder. O ciclo autoritário inaugurado em 1964 é responsável pelo que não valeria a pena ser visto — nem agora, nem mais tarde. Enquanto o ciclo durou, a televisão se desenvolveu no país e passou a ocupar um largo espaço.
Transformou-se no único ou no mais expressivo instrumento de sociabilização dos brasileiros. A desidratação política da sociedade fez da televisão o sucedâneo dos partidos, dos sindicatos e das associações comunitárias. Em meio às trevas de autoritarismo, brilhou com intensidade a telinha da TV. Falso brilho. Quantos crimes foram cometidos com a cumplicidade da TV, que adormeceu os sentidos e acomodou os espíritos!
Só em países onde predominam regimes de força, onde a liberdade não existe ou é uma mercadoria escassa, pôde montar-se e sustentar-se o monopólio das comunicações como o que a TV Globo sustentou durante todos esses anos. Algumas dezenas de pessoas, se tanto, definiram o que um país da extensão e da complexidade do nosso desejava ver, queria ver ou foi obrigado a ver. Manipulou-se o noticiário servido no horário nobre.
Manipula-se ainda — para constrangimento, primeiro, dos profissionais competentes e conscientes obrigados a conviver com o que rejeitam. O jornalista Marinho não virou um dos maiores empresários do Brasil e do continente, apenas, porque soube administrar bem os lucros que obteve na TV Globo e nos demais veículos de comunicação dele. Fez uso, em proveito próprio, de concessões públicas distribuídas pelo Executivo.
Concentrou poder no regime fechado dos generais e no regime aberto do presidente Sarney — principalmente nesse último. Ampliou sua fortuna e seu próprio poder. Quer, agora, arrematar sua obra política quase perfeita com a eleição de um candidato que seja dócil à sua vontade, ou que, pelo menos, não contrarie depois seus interesses. De certa forma, Silvio Santos persegue o mesmo objetivo.
Ele quer chegar perto de ser o que é o empresário Marinho, ganhe ou perca a eleição. Marinho e Sílvio se beneficiam do país que cada qual, a seu modo, por omissão, palavras e obras, ajudou a construir — um país onde 75% dos eleitores que escolherão o próximo presidente ganham menos de dois salários-mínimos por mês, 50% deles não terminaram o primeiro grau e 90%, não são sindicalizados. Pobre país!
Um país onde a concentração de renda é uma das mais perversas do mundo e onde a expectativa de vida em determinadas regiões é tão ou mais baixa do que a expectativa de vida dos mais miseráveis países do continente africano. É curioso, no mínimo, o coro de vozes de empresários e políticos de peso que batem duro em Silvio Santos porque ele resolveu sair candidato de última hora — e nas condições conhecidas. Há muito de hipocrisia nas reclamações emitidas por essas vozes.
Algumas delas traem a preocupação com o que dirão lá fora a respeito de um país que poderá vir a ser governado por um animador de auditório. A maioria delas está preocupada com a divisão de votos entre Collor e Silvio Santos, que poderá favorecer candidatos mais à esquerda. Nenhuma dessas vozes denuncia a situação do país que produziu o que elas repelem. O país de Marinho tem a cara de Silvio Santos.


