O general Pazuello é um pote até aqui de mágoa e desconfiança

Ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello amadurece a ideia de bater às portas da Justiça para não depor ou ficar calado na CPI da Covid

atualizado 08/05/2021 9:01

Arte de Antonio Lucena Antonio Lucena

Em quarentena à brasileira, onde amigos se visitam, deixam cair as máscaras, se abraçam e bebem no mesmo copo, o general Eduardo Pazuello, o terceiro dos quatro ministros da Saúde do governo Bolsonaro em pouco mais de um ano, é um pote a quase transbordar de mágoa, desconfiança e ressentimento.

Desconfiança não é uma doença transmissível. Se fosse, Pazuello teria sido contaminado pelo presidente da República, a quem serviu com rara lealdade e obediência exemplar. Sente-se abandonado sem que o abandono se configure. E ressentido por ter deixado o governo a contragosto e no pior momento.

Conta a repórter Jussara Soares que ofereceram a Pazuello um cargo na Secretaria-Geral da Presidência, e que ele recusou. Foi-lhe arranjado pelo ministro Onyx Lorenzoni, titular da pasta. O ato de nomeação chegou a ser assinado pelo general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, para publicação no Diário Oficial.

É a Advocacia-Geral da União que representa o general na CPI da Covid-19, mas se não o representar direito? Se puser os interesses do governo acima dos interesses de Pazuello? Eles não são necessariamente coincidentes. Se Pazuello arcasse sozinho com os erros no combate à pandemia, não seria tão mal para o governo.

Por isso, o general aflito no seu labirinto cogita contratar um advogado criminalista para defendê-lo. Foi aconselhado a entrar no Supremo Tribunal Federal com um pedido de habeas corpus para não ir depor. Mas a ter que ir, para que permaneça calado. Ou para que se cale diante de determinadas perguntas embaraçosas.

Calar-se é um direito que lhe será assegurado no depoimento marcado para o próximo dia 19. Mas ele terá bastante calma para suportar as provocações dos senadores? Para não respondê-las? Para não explodir? Calar-se seria bom para o governo, mas talvez não para o general. Militar não foge a batalhas.