Nogueira é a última carta de Bolsonaro, mas não a última do Centrão

No baralho do Centrão não existe a carta da morte. O Centrão só vai até a porta do cemitério, não entra

atualizado 22/07/2021 7:41

Divulgação

Duas perguntas não devem ser feitas ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), futuro chefe da Casa Civil da presidência da República, e a Jair Bolsonaro, sem partido há quase dois anos.

A Nogueira: se ele apoiará a reeleição de Bolsonaro ano que vem. A Bolsonaro: se o Centrão de Nogueira tem a ver com o que ele chamou de Nova Política ao tomar posse como presidente.

Ao general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, célebre por ter cantado “se chamar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, melhor nada perguntar.

Enrolado em processos na Justiça, tendo no passado apoiado todos os governos e dito que Bolsonaro era fascista, Nogueira sabe distinguir entre a porta do céu e a porta do inferno.

Na hora oportuna, quer dizer: em cima da hora, saberá escolher entre mais quatro anos para Bolsonaro e quatro anos, sujeitos a virar oito, para quem apareça com pinta de vencedor.

No momento, o que lhe interessa é ascender à condição de salvador de um governo que faz água, mandar em tudo o que for possível e administrar o orçamento secreto que dispensa recibo.

Orçamento secreto é uma espécie de emenda parlamentar criada há dois anos para beneficiar deputados e senadores que votem como o governo quer. Coisa de 16,8 bilhões, só neste ano.

É uma versão aperfeiçoada do que se tornou conhecido como mensalão do PT no primeiro governo Lula. Só que ao contrário desse, o parlamentar não precisa ir ao banco sacar o dinheiro.

Em queda nas pesquisas, acuado pela CPI da Covid-19, por ora sem esperança de que os militares o ajudem a implantar um regime autoritário, só restou a Bolsonaro jogar a carta do Centrão.

Será a última carta dele, mas não a última do Centrão. O baralho do Centrão é inesgotável, mágico. Só não existe ali a carta da morte. O Centrão só vai até a porta do cemitério, não entra.

A Casa Civil do governo Bolsonaro já teve três ocupantes: Onyx Lorenzoni, deputado do DEM, e os generais Braga Neto e Luiz Eduardo Ramos, oficiais paraquedistas como Bolsonaro.

O governo Bolsonaro já teve dois superministros: Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) e Paulo Guedes (Economia). Moro saiu, Guedes foi rebaixado, e chegou Nogueira com grande apetite.

Dá-se por certo no Congresso e no Palácio do Planalto que a caneta de Nogueira, de tão carregada de tinta, estenderá os poderes da Casa Civil para além dos limites convencionais.

Bolsonaro já concordou em gastar o que possa ou não possa sob a desculpa de que, se reeleito, dará um jeito mais tarde. Embora finja que não, Guedes pensa da mesma maneira. Ou é isso ou rua!

Nogueira nada tem a perder ao atravessar os poucos metros que separam o prédio do Congresso, seu velho conhecido, do prédio do Planalto, sua nova casa.

A vaga de Nogueira no Congresso será ocupada por sua mãe, Eliane, que é também sua suplente. Se tudo der errado, ele voltará. E voltará mesmo que dê certo para ele, e não para Bolsonaro.

Será um salto sob a luz de holofotes e cercado por redes de proteção.

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