José Paulo Sepúlveda Pertence, um servidor exemplar da democracia

”É certo que onde faltar a democracia não há Justiça que mereça o nome”

atualizado

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Geraldo Magela/Agência Senado
Ex-ministro do STF Sepúlveda Pertence
1 de 1 Ex-ministro do STF Sepúlveda Pertence - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Quem me contou essa história há anos foi o próprio José Paulo Sepúlveda Pertence em uma mesa do restaurante Piantella. Ela passou-se em meados dos anos 1980, quando José Sarney era o presidente da República, Pertence o procurador-geral da República, e eu colunista do Jornal do Brasil, em Brasília.

Eu havia escrito um artigo sobre a corrupção que manchava a história política do país desde o governo de Getúlio Vargas (1950-1954) até então – incluídos os dos generais da ditadura de 64. E, a certa altura, dizia que o mar de lama que ameaçara engolir Vargas era um brejal se comparado com o que ameaçava engolir Sarney.

No seu primeiro despacho com Sarney, depois da publicação do artigo, Pertence ouviu dele:

“Noblat, agora, ultrapassou todos os limites. Vamos processá-lo”.

Pertence perguntou:

“Tem certeza, presidente?”

Sarney respondeu:

“Tenho”.

Pertence deixou passar um ou dois meses até voltar ao assunto. E quando o fez, travou o seguinte diálogo com Sarney:

Pertence: Sim, e quanto ao processo contra Noblat?

Sarney: O que é que tem?

Pertence: É pra tocar em frente mesmo?

Sarney: Deixa pra lá.

No fim de dezembro de 1989, quando Fernando Collor se elegeu presidente e o Jornal do Brasil me demitiu por tê-lo criticado em muitos artigos chamando-o de falso brilhante, Sarney foi o primeiro político a me telefonar, solidário. Hoje, Sarney é um dos colunistas mais lidos deste blog. Escreve às terças-feiras.

Pertence, que ontem morreu aos 85 anos, foi um aclamado jurista, professor e advogado. Mas distinguiu-se acima de tudo como homem digno e honrado, um servidor exemplar da democracia. Em sua defesa, arriscou-se nas horas mais difíceis da vida do país. Por isso será lembrado para sempre.

Foi ele como presidente do Supremo Tribunal Federal quem ensinou:

“É certo que onde faltar a democracia não há Justiça que mereça o nome. Também é verdade que não haverá democracia verdadeira onde faltar tribunais independentes para, quando o impuserem a Constituição e as leis, contrariar as injunções da maioria política da conjuntura do dia”.

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