Isso não é normal: A República que esconde suas relações com o dinheiro

Entre mentiras na tribuna e acordos de bastidores, a CPMI que investigaria Daniel Vorcaro é sepultada para salvar a pele dos poderosos

atualizado

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Breno Esaki/Metrópoles
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1 de 1 flavio-alcolumbre - Foto: Breno Esaki/Metrópoles

Não, não é normal, e lembra-me a história — ou lenda — sobre o escafandrista que, nos anos 1970, entrou no Antonio’s, bar mítico do Leblon, na esquina das ruas Bartolomeu Mitre e Ataulfo de Paiva. Vestido com seu pesado equipamento de mergulho, sentou-se a uma mesa, tirou o capacete e pediu uma cerveja. Depois de certo tempo, irritado com a aparente indiferença dos frequentadores do lugar, o jornalista João Saldanha subiu numa mesa, bateu palmas e reclamou em voz alta: “Pessoal, tem um homem aqui, um escafandrista, com capacete e tudo, tomando cerveja, e isso não é normal, não pode ser normal.” Ninguém deu bola para a fala irritada de Saldanha.

Não, não é normal, não pode ser normal ouvir em silêncio o que disse, ontem, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) ao presidir mais uma sessão do Congresso. Ele anunciou que rejeitava mais um requerimento para a instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o escândalo do Banco Master. E por quê? Porque o regimento interno do Congresso lhe dava poderes para tal, só por isso. Sim, mas por qual razão ele o fez? Ninguém perguntou. Se perguntaram, ele não respondeu. Todos sabiam, mas se negam a admitir, que Alcolumbre poderia se tornar um dos alvos da CPMI. Todos sabem que ele procurou Lula para revelar seu temor.

Diga-se em favor de Alcolumbre — e em desfavor dele e de boa parte dos seus pares — que a CPMI foi enterrada para impedir que seja investigada a relação de muitas autoridades da República com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, ex-dono do Master. Minutos antes de Alcolumbre anunciar sua decisão, o senador Flávio Bolsonaro discursou, desafiando a bancada do governo a assinar o requerimento da CPMI. Ouviram-se resmungos, apenas isso. Flávio disse que assinara todos os requerimentos que lhe apresentaram. Mentiu, para variar. Foram cinco no total, e ele recusou-se a assinar três. Não é normal mentir por tão pouco, mas Flávio mentiu. Hábito. Vício.

Flávio está em modo desespero desde a descoberta de que tomou dinheiro de Vorcaro para financiar o filme de exaltação a seu pai. Trocou de marqueteiro — ex-servidor de Vorcaro — a pretexto de que ele não o estava orientando muito bem. Entregou uma cabeça para preservar a sua. Livrou-se da suspeita de que o marqueteiro poderia estar sendo pago por Vorcaro. No próximo domingo, como alardeiam seus assessores, Flávio deverá embarcar para os Estados Unidos para se encontrar com o irmão Eduardo e com o presidente Donald Trump. Tudo por uma foto com Trump para sentir-se fortalecido. Tudo para não estar aqui quando forem publicadas as próximas pesquisas de intenção de voto. A sina de Flávio é triste. Mesmo que definhe, ele está condenado a ir até o fim como candidato. Ordem do pai.

 

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