
HÁ VINTE ANOS - Do cartãozinho às carteiradas
Na República dos privilegiados

O cartãozinho que Severino Cavalcanti (PP-PE), presidente da Câmara dos Deputados, distribui com seus eleitores é o tradicional cartão de apresentação – com o nome do dono, o cargo que ocupa ou a profissão, endereço e eventualmente o número do telefone.
Na travessia da ditadura militar de 64 para a chamada Nova República do presidente Tancredo Neves eleito em 1985, descobriu-se que muita gente importante do país naquele momento tinha muito mais do que um cartãozinho como esse do Severino.
O que de fato essa gente tinha não servia para salvar amigos ou eleitores em apuros – servia para facilitar a própria vida.
O jornalista Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, por exemplo, tinha uma carteira funcional como assessor do gabinete do Ministro da Justiça. O colunista social de maior prestígio na época, Ibrahim Sued, tinha uma carteira funcional igual à do seu patrão.
O cartãozinho de Severino é uma versão primária da antiga carteira funcional concedida a quem não tinha direito a ela. Serve mais a quem o recebe (o eleitor) do que a quem o dá.
O problema não está no que faz o eleitor de Severino com o cartãozinho que recebe dele – a maioria o usa para obter pequenos privilégios ou para alardear sua amizade com o deputado.
O problema é o que Severino avaliza que o eleitor faça de criminoso com o cartãozinho que tem.
(Publicado aqui em 7 de março de 2005)
