Governo de foras da lei não tem lugar para quem a defenda

Bolsonaro despreza o risco de um dia ser julgado por tribunais internacionais. Queiroga, por enquanto, balança, balança, mas não cai  

atualizado 13/06/2021 4:32

Rodrigo Zaim/ Especial Metrópoles

Por mais que queira e se esforce para não perder “a maior oportunidade” que já teve na vida, conforme disse outro dia, até quando o médico Marcelo Queiroga, ou “o tal do Queiroga” como o chamou o presidente Jair Bolsonaro, se sentirá à vontade para seguir  como ministro da Saúde –o quarto em um ano e pouco?

É a pergunta que cada vez mais se fazem políticos da oposição, aliados do governo e também, às escondidas, colegas de Queiroga. Se ele recomenda o uso da máscara contra a Covid-19, Bolsonaro raramente é visto portando uma. Se ele diz que tratamento precoce não funciona, Bolsonaro responde que funciona, sim senhor.

Para não bater de frente com quem o escolheu, e que dá sinais de arrependimento, Queiroga não se cansa de repetir a desculpa de que não é censor do presidente. Embora criticado por membros da CPI da Covid, Queiroga não é execrado por eles, que o consideram melhor ministro do que o general Pazuello. (Grande vantagem!)

Mas, e daí? Bolsonaro jamais mudará de opinião sobre a pandemia. Certa ou errada – no caso, errada –, ela atende às expectativas dos seus devotos, e é por isso que ele mantém-se forte nas pesquisas de intenção de voto para as eleições do ano que vem. De que lado, afinal, arrebentará a corda? É fácil imaginar.

O que se viu ontem, em São Paulo, foi mais um ato público e escandaloso de desprezo às leis protagonizado pelo presidente da República, alguns dos seus ministros e parlamentares que dependem dele para se reeleger. Porém, de Queiroga não se ouvirá um pio a respeito porque ele não é censor de Bolsonaro.

Havia motociclistas com e sem máscaras, um triciclo reformado de modo a parecer um tanque do Exército, e cartazes, em português e inglês onde se pedia intervenção militar e o fechamento do Supremo Tribunal Federal, o que a lei proíbe. O esquema de segurança do ato custou ao governo paulista R$ 1,2 milhão.

Bolsonaro desfilou numa moto com a placa encoberta, o que é proibido por lei. Estava sem máscara, sem óculos de proteção e com um capacete sem viseira, o que configura uma violação ao Código de Trânsito. Depois, subiu num carro de som, discursou e causou aglomeração, ferindo uma lei federal e outra local.

Voltou a citar um documento falso atribuído ao Tribunal de Contas da União, na verdade escrito por um auditor que ele conseguiu empregar no tribunal e que é filho de um coronel reformado da turma de 1977 da Academia Militar de Agulhas Negras, amigo e informante de Bolsonaro.

Novamente exaltou a eficácia para tratamento da Covid de drogas que só deixam sequelas nos doentes, e que Queiroga disse para não serem prescritas pelos médicos. Por fim, atacou as medidas de isolamento social e requentou a notícia de que encomendou um parecer para dispensar o uso de máscara por quem já se vacinou.

Foi multado – ele, mais três ministros de Estado e seis deputados por não usarem máscara. Cada um terá de pagar R$ 552,71. O dinheiro sairá dos cofres públicos, não do bolso deles. Os cofres públicos são alimentados com o dinheiro do pagamento de impostos. Quer dizer: com o seu, o meu, o nosso dinheiro.

Não se espere que o relatório final da CPI possa resultar no indiciamento ou na denúncia dos que se associaram ao vírus para deixar morrer os que tiverem de morrer. O destino final do relatório é a Procuradoria-Geral da República, e ali Bolsonaro conta com um aliado para engavetar qualquer ação contra ele.

Nem por isso o trabalho da comissão será desperdiçado. Para os que desejarem enxergar com clareza o que se passou até aqui no simulado combate à pandemia, o relatório contará uma história capaz de assombrar vivos e mortos, e de levar Bolsonaro a ser julgado em tribunais internacionais por homicídios em massa.

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