
Flávio Bolsonaro e o moderado que nunca foi
Das fake news desmentidas ao vivo ao fantasma do golpismo, o senador vê o controle da narrativa escapar às vésperas dos debates

A exemplo do pai, o que Flávio Bolsonaro diz não se escreve — e, quando se registra, é preciso retificar, tamanha a quantidade de dados falsos ou equívocos. Isso ocorre por ignorância? Em parte, sim; no mais, não. Flávio mente deliberadamente para tirar vantagem de suas declarações. Às vezes, obtém êxito, principalmente diante de entrevistadores desleixados ou complacentes. Não foi o caso de ontem, ao ser arguido pela jornalista Renata Lo Prete, da TV Globo.
Sem perder a elegância em momento algum ou parecer ranzinza, Lo Prete rebateu Flávio sempre que julgou necessário. E se, no início da transmissão, ele se portava como se estivesse em casa, descontraído, senhor da situação, aos poucos foi perdendo o controle, passando a franzir a testa e a tentar ocultar seu nervosismo. Deixou a impressão de que ansiava para que o momento terminasse antes do previsto.
Interrogado sobre se reconhecerá os resultados das eleições mesmo que as perca, Flávio respondeu de maneira pouco convincente: “Eu vou disputar as eleições com as regras que estão aí. Eu tenho a convicção de que o Brasil já escolheu a mudança. No primeiro turno já escolheu a mudança e, no segundo turno, vai continuar escolhendo a mudança”. A pergunta fazia sentido. Seu pai tentou se reeleger dentro das regras do jogo. Uma vez derrotado, quis dar um golpe.
Flávio se apresenta como um Bolsonaro moderado. É tudo o que não é. Não pode ser moderado quem exalta a ditadura que se instalou no país em 1964 a pretexto de salvar a democracia do comunismo. Moderado não é quem defende a inocência dos participantes e responsáveis pelo 8 de janeiro de 2023. Tampouco é moderado quem promete mudar a Constituição, se eleito presidente, para resgatar a democracia. Até prova em contrário, vivemos numa democracia — tão democrática a ponto de permitir que concorra à Presidência da República um sujeito investigado pelo Supremo Tribunal Federal pelos crimes de evasão de divisas, corrupção passiva e ativa e lavagem de dinheiro; ligado a milicianos e ao crime organizado e que nunca administrou nada, a não ser uma loja de chocolates. Quando deputado estadual, notabilizou-se por se apropriar de parte dos salários pagos a funcionários do seu gabinete.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesDebates entre candidatos a cargos eletivos servem para que fiquem claras suas diferenças e seu grau de preparo ou despreparo para a missão que ambicionam. Antes de votarem, os brasileiros terão pelo menos duas oportunidades de assistir ao confronto entre Flávio e Lula — o primeiro amanhã, na Rede Band, e o último na próxima quinta-feira, na Rede Globo. Providenciem seus sacos de pipoca.

