
Depois do “fora, Bolsonaro”, chegou a vez do “fora, Augusto Aras”
A não ser que Lula queira trair os que o elegeram

Três vezes governador de Pernambuco, Miguel Arraes, um dos ícones da esquerda entre os anos 60 e 80 do século passado, ensinava: “A gente só se elege com o voto dos outros”. Não disse, mas pensava: “A gente só governa com o voto dos outros”.
Por outros, no seu caso, queria dizer eleitores de direita que por qualquer razão votavam nele. A principal razão era a aliança que Arraes sempre fez com partidos e líderes da direita. Entre uma baforada e outra no seu inseparável charuto, justificava:
“Uma vez eleito, quem manda no governo sou eu”.
Mandava, fazia concessões para governar, refazia alianças, e as rompia, quando necessário. É da vida. É da arte de governar. Traía e era traído. Nunca teve, porém, a frieza de Agamenon Magalhães, que governou Pernambuco no início dos anos 50.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesUma vez, Agamenon fez um acordo com Cid Sampaio, líder da oposição ao seu governo, para eleger a direção da Assembleia Legislativa do Estado. Mas, em cima da hora, passou a perna em Cid e elegeu quem bem quis. Cid procurou-o indignado.
Agamenon sequer o recebeu no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco, onde morava e despachava. A um dos seus assessores que perguntou, aflito, “O que digo a doutor Cid?”, Agamenon respondeu sem alterar a voz:
“Diga que o traí”.
O mandato de Augusto Aras, procurador-geral da República, termina em setembro. Uma fatia expressiva do PT quer que ele continue no cargo. Eleito pela terceira vez presidente da República com a missão de livrar o país do bolsonarismo, o que Lula fará?
Foi fácil para Agamenon trair Cid, que anos depois, com ele morto, se elegeu governador de Pernambuco. Para Lula, será fácil trair os que o elegeram e em nome do pragmatismo político manter Aras onde ele está? Aras seria garantia de sossego para Lula.
O procurador-geral da República, somente ele, pode denunciar o presidente da República por infrações penais comuns. Bolsonaro o nomeou por saber que ele jamais o denunciaria. E assim foi. Bolsonaro pôde, então, cometer as maiores atrocidades.
Ou não foi atrocidade associar-se à Covid, que matou mais de 700 mil pessoas? Não foi atrocidade estimular a degradação do meio ambiente? Não foi atrocidade concitar os brasileiros a se armarem para que “nunca mais fossem escravos de ninguém”?
Aras assistiu paralisado à tentativa de Bolsonaro de derrubar a democracia para instalar no país um regime autoritário, e esse foi o maior dos crimes que cometeu em dupla com o presidente. Não fosse o Supremo Tribunal Federal, o plano teria dado certo.
Pacificar o país, tarefa com a qual Lula se comprometeu, passa necessariamente pela remoção de Aras da Procuradoria-Geral da República, e a escolha de um nome decente para sucedê-lo. Que falta faz Sigmaringa Seixas, ex-conselheiro de Lula.

