Boletim do golpe (XXIII) – Exército recua da decisão de respeitar o voto
Está na hora de acabar com o pesadelo que o país vive há quatro anos
atualizado
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Não adianta olhar para o céu fazendo de conta que não soube. Ou, devidamente informado a respeito, não dar importância ao fato e logo mudar de assunto. Em ocasiões assim, só me lembro da história – ou lenda – do escafandrista do Leblon, no Rio.
No fim da tarde de um sábado, ele entrou num bar vestido com seu pesado equipamento de mergulho, sentou-se a uma mesa, tirou o capacete, chamou o garçom e pediu uma cerveja. O bar estava lotado, mas todos fingiram que nada de anormal acontecia.
Pouco antes das 11h de ontem, entrou no site do centenário jornal O Estado de S.Paulo uma extensa reportagem que, em resumo, dizia o seguinte: o Alto-Comando do Exército, formado por 16 generais, decidiu que respeitará o resultado das eleições deste ano.
Poderia ser diferente? Poderia. Governa o país um presidente que defende a ditadura de 1964, a tortura, que chama o Exército de seu, ataca os tribunais superiores e tenta desacreditar o processo eleitoral dizendo que as urnas eletrônicas não merecem confiança.
As Forças Armadas vivem sob pressão de Bolsonaro e dos seus fanáticos seguidores para que só aceitem o resultado das eleições se ele os beneficiar; e, caso contrário, para que se rebelem, não permitindo a posse do presidente eleito. É disso que se trata.
Pois muito bem: ao cair da noite, em nota oficial postada no site da Arma, o Alto-Comando do Exército classificou como fake news a reportagem do Estadão. Diz a nota:
“Sobre a matéria veiculada pelo jornalista Felipe Frazão, na data de hoje, e publicada no sítio eletrônico do jornal o Estado de São Paulo, intitulada – Alto-Comando do Exército diz que ‘quem ganhar leva’ a Presidência e se afasta da auditoria de votos –, o Comando do Exército manifesta total repúdio ao seu conteúdo.”
“Na reunião do Alto-Comando do Exército, ocorrida entre 1º e 5 de agosto, não foram tratados assuntos de natureza político-partidária, tampouco houve qualquer manifestação oficial nesse sentido. Os dados apresentados na matéria são inverídicos e tendenciosos.”
“É lamentável que um veículo de expressão nacional promova desinformação que só contribui para a instabilidade do País. Dessa forma, as medidas judiciais cabíveis estão sendo estudadas.”
“O Exército Brasileiro é uma instituição nacional, cônscio de suas missões constitucionais e democráticas, tendo na hierarquia e na disciplina seus pilares inabaláveis.”
O que houve para que, em poucas horas, o “Grande mudo”, como o Exército gosta de ser chamado, desminta que respeitará o resultado das eleições, ganhe quem ganhar? Houve que Bolsonaro rebelou-se contra os generais e os enquadrou. Simples.
Antes da fala do “Grande mudo”, Bolsonaro fez uma live nas redes sociais e afirmou, colérico:
“A matéria diz: ‘Alto-Comando diz que quem ganhar leva a Presidência e se afasta de auditoria de votos’. Mentira! Eles inventam nomes, fazem a matéria, tentam me afastar das Forças Armadas, mas existe uma coisa que a imprensa não sabe: chama-se lealdade, confiança, respeito, consideração. A imprensa não sabe o que é isso; isso existe entre eu e os comandantes militares.”
Contou que, após ter conhecimento da reportagem, cobrou do general Braga Netto, o vice na sua chapa, explicação sobre o assunto e perguntou se ele tinha dado entrevista ao jornal. Segundo Bolsonaro, Braga Netto respondeu que não.
Então, Bolsonaro acionou o ministro da Defesa, o general Paulo Sérgio Nogueira, e o resultado foi a nota do Alto-Comando que ressuscita a ameaça de golpe que parecia enterrada. Ele quer que os brasileiros votem com medo. É a última arma que lhe resta.
Embaixadores de países importantes se apressaram a informar seus governos sobre a promissora notícia de que os militares brasileiros ficariam com a legalidade. À noite, em despachos com o timbre de “urgente”, disseram que ocorreu uma reviravolta.
Podemos fazer como os frequentadores do bar do Leblon que ignoraram a presença do escafandrista que bebia sua cerveja em uma mesa de canto, sozinho. Ou votar amanhã para acabar com o pesadelo que o país vive há quatro anos, pagando para ver.


